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sábado, 18 de novembro de 2017

A poesia de amor não passa de uma farsa




A poesia de amor não passa de uma farsa
de uma momice
de uma doce aldrabice

De uma mistificação
rimada
declamada
cantada
decantada
nem sempre bem intencionada

De um fingimento de sentimento
de uma falha da razão

De um chorrilho de fantasias
falsidades
meias verdades
falsas alegrias
piruetas e caretas
esgares próprios da paixão

A poesia de amor não passa de uma farsa
com que o poeta
com versos perversos se disfarça

A poesia de amor é um paradoxo
uma desgraça
um meio pouco ortodoxo
de redenção



terça-feira, 14 de novembro de 2017

No reverso do universo




Nada do que sonho
ou imagino
existe em lado nenhum

Dentro de mim há miríades de outras entidades
ideias
sonhos
fantasias
angústias
irrealidades
que eu não consigo expressar em nenhum dos poemas que escrevo
porque não existem na Terra
no umbigo do Sistema Solar
o mundo de verdade

Eu vivo no reverso do universo

É esta a raiz da minha crónica ansiedade


domingo, 12 de novembro de 2017

Colhendo poemas directamente das árvores





O benefício maior de se viver no campo
é podermos ir ao pomar
colher poemas directamente das árvores
sempre que nos apetecer

Quando não são as aves que no-los trazem
adejando à nossa volta
e chilreando melodias

Ou o Sol
ou a lua
ou as estrelas
que com os seus raios de luz escrevem eles próprios
os versos
na nossa alma

enquanto nós nos limitamos
a ler
deslumbrados

E quando pela manhã abrimos a janela
e descobrimos que não temos nenhum sítio para aonde ir
nada mais que fazer
atiramos um punhado de milho aos pardais
e pomo-nos a escrever




sábado, 11 de novembro de 2017

Aponto-lhes um poema à cabeça e disparo




Acabo com eles
com poesia
e é de vez

Aponto-lhes um poema à cabeça
disparo
e pronto
tudo se consuma
em alegria
talvez

Que descansem em paz
e sem dor
os imundos senhores do mundo

Dissolvam-se-lhes os ossos no tempo
dilua-se-lhes o sentimento
na morte
triunfe o vento
do amor

Com um pouco de sorte
a liberdade continuará a soprar
sobre a Terra
enquanto houver ar
para respirar
pão para comer
poesia para compor
e sonhos para sonhar

Os maiores
são tão pequenos como nós

Só o Amor é grande

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Palavras tresmalhadas pelo vento





Regurgito golfadas de poemas
desejosos do supremo sacrifício da poesia
apunhalado que foi o meu coração

Tomo um punhado e atiro-os ao ar
deixando que seja o vento
a tresmalhá-los em palavras

Raras
sobem como estrelas
no céu
cintilando
noite adentro

Poucas
são levadas pelos aves
delicadamente nos bicos
para construir os ninhos
e alimentar as crias

Outras
são arrastadas pelos rios
para o mar
terminam nas redes dos pescadores
ou diluídas no seio da tempestade

A maior parte
porém
são estraçalhadas
pelas mandíbulas ferozes dos políticos

Até que nas minhas mãos vazias
apenas resta aflição




quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Puro, nu e cru




Dispo-me da Alma
alijo-me da Razão
calo o Coração
e sigo em frente
puro, nu e cru
como se acabado de sair ventre de minha mãe

Sou apenas espírito

Numa massa amorfa
sem vida nem esperança
uma fraga
uma nuvem
gota
gás

Os poemas que escrevi
diluíram-se no vento
das rimas nada resta

Dos caminhos que trilhei
já o meu rastro se apagou

Se tento morrer
noto a impossibilidade de o fazer

Ninguém é capaz de se matar
e de apagar do cosmos

Por isso amanhã lá estarei de novo
a viver com poesia
a alvorada de mais um dia

E depois de amanhã também
indiferente ao vento
à chuva
e ao frio

Puro, nu e cru

E a sonhar!