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domingo, 10 de dezembro de 2017

Fado do mal amado





(Do meu baú de recordações) 
Nunca houve outro amor assim
Uma tão cruel paixão entontece
Entrega tão pura ninguém merece
Nem se a mulher for um querubim

Agora choro lágrimas sem fim
Meu pranto ao longe se esmorece
Como uma mal sucedida prece
Que amargamente se vai de mim

A fada cruel quebrou o encanto
Para sempre seu coração calou
Esta é a razão deste meu pranto

Mas a vil paixão de mim não voou
Por isso canto este triste canto
O fado amargo que me tocou

Chaves, 8 de Março de 1966




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O Amor



Só pela imaginação
não vai a lado nenhum
o homem

Não chega sequer a sair da sua própria mente

Só pelo Amor o homem sai de si
chega aos outros
os sente
os toma
ama
e retorna a si

Só pelo Amor o homem penetra no seu ser
percebe a sua razão de ser
e aprende a amar
e a sofrer

O Amor
é essa força interior
que tem raízes no espírito
o perfume do infinito
e o som do absoluto

O Amor
é um resplendor
semente e fruto
sabor da felicidade
sal da verdade
alivio da dor
fonte da paz

O Amor é uma flor
que floresce no coração
e frutifica na razão

Só pelo Amor
o homem voa pelos céus
e pela mão de Jesus
retorna a Deus

O Amor é essa Luz


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O mundo acaba no dia em que eu morrer



No dia em que eu morrer
apagar-se-ão todas as luzes da Terra
todas as estrelas do céu
o Sol pôr-se-á para não mais nascer
porque os meus olhos fechados nada mais poderão ver

O mundo acabará nesse dia
para mim

Quando eu morrer
calar-se-ão os todos os canhões
os corações deixarão de bater
os meus ouvidos silenciados
tão pouco o cântico das aves poderão escutar

Deixará de haver tempestades na terra e no mar
cães a latir
crianças a chorar
as flores deixarão de perfumar o ar
e de colorir os campos
porque eu não estarei lá para os apreciar e sentir

Todas as lembranças de criança
sonhos de glória
a história da minha vida sentida
se apagarão da memória nesse dia

O mundo cobrir-se-á de um manto de tristeza
sem sentido
porque morrerei sem ter sido tido nem achado
e embora viva apaixonado
ainda hoje não sei porque nasci
e também não saberei
porque morri

Resta-me contudo a esperança
a fugaz alegria
de que o mundo não se acabará no dia em que eu morrer
se uma só boa pessoa continuar a ler
a minha poesia



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

São rosas!





São rosas! Brancas, negras, rubras, amarelas
Aveludadas, rugosas ou multicores
Numa só, a magia de todas as flores
Outras não há assim tão lindas como elas

Perfumadas ou inodoras, sempre belas
Iluminam os olhares com seu amor
Alegram os corações com as suas cores
E perfumam os lares, campos e capelas

Mas as rosas têm certo jeito de amar
Por vezes malicioso e doloroso
Sempre arranjam forma certa de picar

Mesmo a quem as afaga, amoroso
Apenas com a ideia de as mimar
As rosas rejeitam com seu ar caprichoso


domingo, 3 de dezembro de 2017

Alzheimer




Amanhã…
vou fazer tudo ao contrário
andar de trás para a frente
virar os retratos de pernas para o ar

Vou tocar os sinos no campanário
pôr a boca no trombone
desligar o telefone

Vou sorrir a quem nunca me sorriu
deitar a língua de fora ao Papa
mostrar o rabo à Rainha 
chamar demente ao Presidente
alegrar os funerais
com bandas marciais
e mandar a crise para a puta que a pariu

Vou chamar os poetas de patetas
deixar de escrever poesia
por de lado a gramática
e viciar os cálculos de matemática

Amanhã…
vou voltar à infância
comportar-me como criança
correr
saltar
viver a vida com alegria
usar peruca
deixar crescer barba e bigode

Amanhã…
vou fazer tudo ao contrário

Dizem que é a melhor forma de me precaver

pelo menos até morrer

… do Alzheimer



quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Fogo-de-artifício nuclear



Andam agora os homens a forrar o céu
com aviões
satélites
luzes de néon
rastos de luz e de fumo

Presumo que pretendem tapar o Sol com uma peneira
apagar as estrelas
soprar as nuvens
e aprisionar cometas

Já os políticos histriónicos
se julgam donos do Sistema Solar
como se  as estrelas estevessem ali
à sua mão de semear

Queira Deus que tudo não termine num sopro de ferro incandesce
num monumental fogo-de-artifício nuclear
tendo como música de fundo um acordeão atómico
coro de demónios a bailar


Oh, tanta mente demente!

Que sacrifícios agónicos iremos nós penar?