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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O mais certo é eu ser outro




Pus-me a pensar
que eu poderei ser eu mesmo, sim
e não ser mais ninguém

Que poderei ter-me assumido, assim como sou
ainda no ventre de minha mãe

Mas que pode dar-se a coincidência, também
de eu ser outro
em coexistência  com o eu que agora sou

Eu
um outro
ninguém
algum
ou nenhum

Neutro

Pensamento impróprio
para consumo comum

O mais certo, portanto
será
quiçá
eu não ser eu
ser outro
que se ilude a si mesmo
e me engana a mim próprio

Um encanto

Um outro que já fui
mas já não sou

Um outro que poderei vir a ser
mas ainda sou

Um outro que serei se o for

Um outro eu não muitos mais


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A minha receita de arroz doce



Refastelo-me no sofá
da sala de estar interior
do meu ser ocioso
à espera que me chamem
para jantar

Não tarda adormeço
bebendo uma chávena de chá

O meu acordar será feliz
com os vapores do arroz doce
delicioso
acabadinho de sair da panela
a acariciarem-me o nariz
odorado de rosmaninho
e polvilhado de canela

Sinto-me uma criança
um anjo pequenino
empoado de poesia
e pozinhos de perlim pim pim
a dançar o cha-cha-cha
ao som do cristalino estralejar
de estrelinhas de fantasia

Falta acrescentar
para terminar este doce desenlace
que esta receita de arroz doce
também mete casquinha de limão
e raspas do coração

Tudo quanto baste
q.b.

Tantos são os sinais que nos dais, Deus





Tantos são os sinais
que nos dais
Deus
quando amamos
a dizer-nos que amemos ainda mais
e mais

Tantos são os sinais
que nos dais
Deus
quando bem fazemos
a dizer-nos que bem façamos ainda mais
e mais

Tantos são os sinais
que nos dais
Deus
quando sofremos
a dizer-nos que soframos…

Mas porque havemos
nós
de sofrer
ainda mais
e mais
Deus?

E porque não há amor sem dor
Deus?

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Quando, por encanto, me dei conta





Quando
por encanto
me dei conta
de que também ela de mim gostava
já há muito tempo ela suspirava
à espera de que eu lhe declarasse
o meu amor

Porém
quer eu
quer ela
sentíamos que assim sofrer
era uma suprema forma de prazer

Uma gostosa dor
uma amorosa imanência
de que ela padecia com paciência
e de impaciência me fazia padecer a mim

Porque a causa daquela dor
era tão só
puro amor

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Parti, de mansinho, para não a acordar




Parti
de mansinho
para não a acordar
porque percebi que sonhava comigo

Sorri
aconcheguei-lhe a roupa
beijei-a na testa
e escrevi este poema balsâmico
na sua agenda aberta
sobre a mesinha de cabeceira
mesmo à beira do despertador

Para que quando o alarme tocar
e a fizer acordar
sinta o meu amor
e não entre em pânico
por não me encontrar deitado a seu lado

Também
para lhe dizer
que por nenhuma razão
a quero perder
e que estará sempre presente no meu coração

E que enquanto eu estiver ausente
por obrigação
andarei sempre a penar de paixão
deserto de desejos dela
do seu carinho
e dos seus beijos

Por isso parti
assim devagarinho
sem a acordar
porque percebi
que sonhava comigo


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Guardo o cérebro num frasco de formol



Angustiado
tremendo de medo
extirpo o cérebro com as minhas próprias mãos
para o expor ao sol e ao vento
e guardá-lo a meu lado no frasco de formol
colocado no penedo que me serve de assento

Com a mão direita espremo a memória
com a esquerda aperto a razão
que balanço com angústia incontida
tentando determinar
qual parte da consciência pesa mais
para a alma assim dissolvida

A memória apenas regista o instante em que a perdi

Será que algum dia existi?

A razão me diz que sem memória em que se apoiar
não poderá escrever história
fazer ciência
e projectar o devir

Será que algum dia voltarei a existir?

Da memória e da razão de mim separados
são os meus sentimentos levados pelas águas do rio
para o mar da loucura colectiva
onde enlouquecem

Enterradas nas areias
ficam
mesmo assim
ideias furtivas
que não aquecem nem arrefecem

Nada sinto
nem de bem nem de mal
não choro
não rio
nem sei onde moro
se existo
ou existirei

Apenas sei que sou consciência incorpórea
sem história
nem memória