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sábado, 10 de fevereiro de 2018

Um amor sem rosto







Não lhe conheço o rosto
nem a voz
nem a cor
mas tenho-lhe amor

Disfarça a face
nas imagens em que se abre
e se fecha
em segredo

E quanto mais se cala
mais a sua fala me exaspera
mais dolorosa se torna a espera
e mais me envolvo com miragens
sonhos súcubos em que me enredo

Será que tem alma?
Que é de seu o corpo?

Alma tem
que lhe pressinto o sopro
corpo não sei
que ainda o não amei

Será que lhe quero bem
e a não conheço
só porque a não mereço?

Amar assim em segredo
uma mulher sem rosto
ao sabor da fantasia
não tem gosto só desgosto

Mete medo


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O mais certo é eu ser outro




Pus-me a pensar
que eu poderei ser eu mesmo, sim
e não ser mais ninguém

Que poderei ter-me assumido, assim como sou
ainda no ventre de minha mãe

Mas que pode dar-se a coincidência, também
de eu ser outro
em coexistência  com o eu que agora sou

Eu
um outro
ninguém
algum
ou nenhum

Neutro

Pensamento impróprio
para consumo comum

O mais certo, portanto
será
quiçá
eu não ser eu
ser outro
que se ilude a si mesmo
e me engana a mim próprio

Um encanto

Um outro que já fui
mas já não sou

Um outro que poderei vir a ser
mas ainda sou

Um outro que serei se o for

Um outro eu não muitos mais


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A minha receita de arroz doce



Refastelo-me no sofá
da sala de estar interior
do meu ser ocioso
à espera que me chamem
para jantar

Não tarda adormeço
bebendo uma chávena de chá

O meu acordar será feliz
com os vapores do arroz doce
delicioso
acabadinho de sair da panela
a acariciarem-me o nariz
odorado de rosmaninho
e polvilhado de canela

Sinto-me uma criança
um anjo pequenino
empoado de poesia
e pozinhos de perlim pim pim
a dançar o cha-cha-cha
ao som do cristalino estralejar
de estrelinhas de fantasia

Falta acrescentar
para terminar este doce desenlace
que esta receita de arroz doce
também mete casquinha de limão
e raspas do coração

Tudo quanto baste
q.b.

Tantos são os sinais que nos dais, Deus





Tantos são os sinais
que nos dais
Deus
quando amamos
a dizer-nos que amemos ainda mais
e mais

Tantos são os sinais
que nos dais
Deus
quando bem fazemos
a dizer-nos que bem façamos ainda mais
e mais

Tantos são os sinais
que nos dais
Deus
quando sofremos
a dizer-nos que soframos…

Mas porque havemos
nós
de sofrer
ainda mais
e mais
Deus?

E porque não há amor sem dor
Deus?

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Quando, por encanto, me dei conta





Quando
por encanto
me dei conta
de que também ela de mim gostava
já há muito tempo ela suspirava
à espera de que eu lhe declarasse
o meu amor

Porém
quer eu
quer ela
sentíamos que assim sofrer
era uma suprema forma de prazer

Uma gostosa dor
uma amorosa imanência
de que ela padecia com paciência
e de impaciência me fazia padecer a mim

Porque a causa daquela dor
era tão só
puro amor

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Parti, de mansinho, para não a acordar




Parti
de mansinho
para não a acordar
porque percebi que sonhava comigo

Sorri
aconcheguei-lhe a roupa
beijei-a na testa
e escrevi este poema balsâmico
na sua agenda aberta
sobre a mesinha de cabeceira
mesmo à beira do despertador

Para que quando o alarme tocar
e a fizer acordar
sinta o meu amor
e não entre em pânico
por não me encontrar deitado a seu lado

Também
para lhe dizer
que por nenhuma razão
a quero perder
e que estará sempre presente no meu coração

E que enquanto eu estiver ausente
por obrigação
andarei sempre a penar de paixão
deserto de desejos dela
do seu carinho
e dos seus beijos

Por isso parti
assim devagarinho
sem a acordar
porque percebi
que sonhava comigo