Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Chove azeite e vinho



Chove azeite e vinho

Chove. Copiosamente. Sem tino!
A terra árida, sofrida, fulva,
vira húmus fértil, úbere vulva.
Do céu goteja azeite e vinho.

O sempre verde, altaneiro, pinho,
abre os seus rijos ramos à chuva
que lava o ar da atmosfera turva
e ao lixo do solo dá destino.

Quando o Sol de novo raiar
novo milagre vai acontecer:
O solo sáfaro vai verdejar.

E a Terra Quente vai exultar
e com o cântico do seu viver
a chuva abençoada louvar!

quinta-feira, 8 de março de 2018

Até parece que só neste dia é que há mulheres



Até parece que só neste dia é que há mulheres

Até parece
que só neste dia é que há mulheres

Até parece que há filhos
e mães
dores
e amores
sem elas

Até parece que a História se faz sem mulheres

Até parece que a beleza
a alegria
e a poesia
existem por uma fantasia
qualquer
sem a mulher

Até parece que o poder é macho
que o mundo é masculino
e que o viveiro da vida
não é feminino

Até parece que só há mulheres neste dia convencionado
e que elas não estão
no dia-a-dia
a nosso lado

Até parece que só neste dia é que há mulheres
e que nos outros apenas há políticas, vampes e comediantes
que não há mães, irmãs, amantes

Louvemos as mulheres de toda a condição
pois então
com amor e mil poesias
hoje e todos os dias!


quarta-feira, 7 de março de 2018

no WC



no WC

Muitas deslavadas
ideias de poemas
surgem-me na casa de banho
vulgo wc
enquanto me lavo, afeito, barbeio
e amanho
ou faço coisas menos perfumadas
já se vê

Quando me vejo ao espelho
e reparo que um certo “eu” me olha
poético
patético
olhos nos olhos
em silêncio
ou me dou conta que mais um cabelo caiu
que uma nova flor de ruga floriu

Há pensamentos que batem no vidro
e se reflectem em retorno
como se de meras imagens se tratasse
e vêm refractar-se
em mil cambiantes de angústia
no espelho embaciado da alma

Mas quando alguma ideia mais angustiada
cheira mal que tresanda
ou me causa dor
lanço mão do vaporizador
e purifico o espírito e o ar
com borrifos de lavanda

Como se vê
até no wc há lugar para a fantasia
quando se tem a alma inundada de poesia



terça-feira, 6 de março de 2018

A destempo no tempo da eira



Gerou-se vento
a destempo
no tempo
da eira

Que levantou palha
e poeira
lhe agitou a saia de cambraia
e lhe soltou a cabeleira

Liberta-se malsão
um putativo pensamento
sem siso
nem tino
no pino do Verão

Um desejo

A ideia
de um beijo
que serpenteia
qual pulverinho
de euforia
no coração

Lança-se em correria louca
de alegria
para detrás do palheiro

Não tarda ouve-se um grito
aflito
um esgar
de aflição
de mulher desflorada
sua triste nova condição

O choro soluçado
pelo amor primeiro
que se foi embora
feito folha solta
e já não volta
mais

Um queixume prolongado
agora

Ais
de mãe solteira
a varrer a eira
rodeada da filharada
de muitos pais

in Anamnesis- 2106


domingo, 4 de março de 2018

Minha Pátria Montanha



Minha Pátria Montanha

1

T r á s
o s
M o n t e s

Terra e Povo
Pátria e Palavra

Eco
vindo
da origem
dos tempos
sinfonia
de montes
vales
e ventos

2

Minha Pátria Montanha
Trás-os-Montes d` além
do sol-pôr atrás
de onde o Sol vem
primeiro
de afagar searas
de batata e centeio
e de acender a lareira da vida
com suor e trabalho
trasfogueiro de sonho
de ilusão tenaz

10

Minha Pátria Montanha
Monforte de Rio Livre
memória de gente boa e farta
condenada à liberdade
de trabalhar sol a sol
em verdes prados e úberes linhares
defendida pelas hastes dos bois
que retouçavam nos lameiros
assim era a vida inteira

11

Minha Pátria Montanha
meu berço de infância doirado
de que sinto saudades sem fim
bem fundo no coração
guardadas em arcas encoiradas
dentro do mítico casão
minha torre de marfim
presbitério erguido por mãos godas
convertidas
e habitado por um presbítero  guerreiro
possivelmente chamado Eurico
e que bem poderei ter sido
... eu!

in Minha Pátria Montanha (Editora Ver o Verso-2005)

quinta-feira, 1 de março de 2018

Das terras de Trás-os-Montes apartou Deus o mar


Das terras de Trás-os-Montes apartou Deus o mar

Das terras de Trás-os-Montes apartou Deus o mar
para que transmontano soubesse
que coisa é emigrar
e do lado de cá aprendesse
a força da palavra amar
e do lado de lá sentisse
que sabor tem ter saudade

 Das terras de Trás-os-Montes apartou Deus o mar
 um oceano de granito  e xisto
 deixou em seu lugar
 para que transmontano aprendesse
 que coisa é labutar

 Das terras de Trás-os-Montes apartou Deus o mar
 férteis veigas de húmus
 deixou em seu lugar
 para que transmontano aprendesse
 a colher  e a semear

 Em terras de Trás-os-Montes
 na parte mais altaneira
 criou Deus a Montanha
 com semente de castanha

 E na parte mais ribeira
 plantou a Terra Quente
 com ramos de oliveira
 trazidos do Oriente 

 in “Minha Mátria Terra Quente” (2005)