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terça-feira, 27 de março de 2018

Estas pedras fazem eco, são sinais



Esta pedras
deslavadas pelo rio
puídas pelo vento
erguidas em ideia
areia
e cimento

Estas pedras levitam no tempo

Apenas mudam as paredes
as pontes
as fontes
em que se concertam
os poemas que despertam
e espevitam o sentimento

Estas pedras
alçadas em pirâmides e muralhas
campos de batalhas
vias, becos e calçadas
bordejadas de mecos
e de etéreos marcos miliários
são a memória da História

Estas pedras são muros
mudos
que nada dizem do futuro
próximo ou distante
embora falem do passado
estuante
não relatado nos anais

Estas pedras fazem eco

São sinais


domingo, 25 de março de 2018

Mirandum Mirandela




Mirandum se foi à guerra
deixou Mirandela na terra
a carpir sua saudade
afogando suas fráguas
nas águas que por entre fragas
correm, correm sem parar

Moira bela encantada
mira-se nela Mirandela
reflectida no rio Tua
nua nas noites de luar
à espera dalgum mirandum
que a venha desencantar

Embora livre de namorar
a ninguém nem por fantasia
pode Mirandela seu coração dar

Mirandum se foi à guerra
deixou Mirandela na terra
à espera dalgum poeta
que de alma aberta
com poesia a saiba cantar

Linda moira encantada
no Tua se mira nua 
Mirandela
com o Sol e a Lua
o mirandum a bailar
outra mais bela não há

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 12 de Abril de 2010
Henrique Pedro


sexta-feira, 23 de março de 2018

Nas entranhas carcomidas de um castanheiro milenar



Eu já fui rei
… um dia

Por breves mas felizes anos
de um plácido e amplo reino
sem equívocos nem enganos
que tinha por singular palácio
um velho e carcomido castanheiro

No tempo em que os montanheses
ainda usavam tamancos de amieiro
apascentavam rebanhos na serra
e desmatavam a terra safara
para semear searas de centeio

Enquanto dóceis ruminantes
manadas de bois e vacas
pastavam nos lameiros verdejantes
e nos úberes linhares
floriam abóboras e batatas

Palácio plantado num espaço breve
a norte de Vila Nova de Monforte
num contraforte isolado
votado ao sol e à neve
na suave serra da Padrela

Não havia então outra aldeia
tão fresca, farta e sadia
como ela

A árvore milenar erguia-se majestosa
à entrada do humilde povoado
com outras castaneáceas menores
a compor a sua corte silenciosa
um souto frondoso e bem copado

E diz-me o douto coração da memória
e da imaginação
de tão longínqua tradição
que já os próceres suevos e godos
por ali reuniam os seus povos em comícios
sob a ramagem de místicos castanheiros
ao luar dos mágicos solstícios
ou em certas manhãs de nevoeiro
para dirimir querelas entre clãs
celebrar alegres festejos rituais
consumar sagrados esponsais
ou eleger chefes guerreiros
sempre que por toda a serra
sopravam ventos de guerra

Foi também à sua beira
tão perto que muito ouriço
dava à luz já sobre o adro
que seria mais tarde edificado
pequeno templo votado a Santo António
oficina de religião e virtude
onde o aldeão piedoso orava
quebrantava o enguiço
e se demarcava do demónio

E a dois passos dali
mal espaçados
murmurejava noite e dia
a cristalina fonte comunitária
que dessedentava humanos
e animais adrede
e a água que era demais
seguia seu curso livremente
pela natureza em frente
tecendo rendilhada líquida rede

Até que nos tempos ditos modernos
a empestaram com pesticidas
supostamente para livrar de pragas a terra
mas que maiores chagas abriram
no ecossistema de toda a Serra

Era aquele o meu reino
de encanto
e os meus aposentos reais
as entranhas do tronco cavernoso
todas moldadas em castanho
onde apenas entrava quem eu queria
gente do meu tamanho
e que se aventurava
a tanto

Ali me refugiava sempre que a vida
cá fora me não sorria
ou recebia chamamento especial
para viajar pelo Cosmos
dentro de um castanheiro carcomido
transformado em nave espacial

Era eu o rei daquele plácido reino
com perfumado palácio no seio
dum carcomido castanheiro
onde aprendi a enfrentar todo o mal
a não ter medo de sonhar
a ser senhor de mim mesmo
e a ter um domínio só meu

E também aprendi
por experiência interior
nas entranhas carcomidas
de um castanheiro milenar
que a única competição justa e lícita
de um homem verdadeiro
é consigo próprio na verdade

E que com todos os demais
que no talento e no saber
nascem e são desiguais
apenas deverá haver
solidariedade

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)


domingo, 18 de março de 2018

Douro e de xisto



Douro e de xisto

Humilde poeta sempre assisto
A este concerto maravilhado
De pedras em socalcos concertado
Onde Deus não o havia previsto

É sangue e suor de muito cristo
Em terras do Douro crucificado
São ecos de amor com dor rimado
São versos de muros de tosco xisto

São poemas de mil pedras em rimas
Qual rosários abençoados
Desfiados com fé pelas colinas

São cânticos da safra das vindimas
Pela voz dos obreiros declamados
Toques de pandeiros e concertinas


quinta-feira, 15 de março de 2018

As águas do meu rio Rabaçal



As águas do meu rio Rabaçal

As águas do meu rio Rabaçal
correm
correm
sem cessar

Vão polindo de mansinho
as duras fragas
que lhes barram o caminho

E mais aprofundam o leito
em que nunca se deitam

Como as águas do meu rio Rabaçal
que correm sem parar
assim é o dia-a-dia
da minha pura poesia

Vai fluindo sem desfalecer
polindo o meu destino
aprofundando o meu viver
por desígnio divino

As águas do meu rio Rabaçal
quando alcançam o mar
transbordam em Oceano

Eu procuro sem engano
com poemas de verdade
em mar de amor desaguar


in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)


quarta-feira, 14 de março de 2018

Crepúsculo transmontano



Crepúsculo transmontano

Por cada raio de Sol que se esvai
em cor
no horizonte
uma gota de líquido som
cai
e ecoa
na fonte

O cósmico piano
entoa
a melodia do fim do dia
a primeira estrela se acende
no céu
e a noite obscurece
com seu véu
o bíblico sertão
transmontano

E o dom da poesia
o calor do amor
enrubesce
o coração do poeta
que se liberta
em verso
e livre sonha
e voa
Universo
além

E se engrandece
no silêncio interior
também