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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Apocalipse





Mil rostos tem a Hidra
mil cabeças e tentáculos
mil mandíbulas e garras
mil amarras da Razão 
mil trágicos espectáculos
mil insanas ideias 
simulacros da Verdade
sinistras teias da globalização
eclipse da Humanidade
apocalipse da Criação

Abro as mãos em oração
liberto a mente da notícia malsã
solto o coração

Deus existe
hoje como outrora e amanhã
apenas anda ausente

É o diabo que no presente comanda as nações
que na Terra semeia a fome, a peste e a guerra
o temor nos corações
pela mão do próprio homem
das máquinas e maquinações
que mais agravam as catástrofes naturais

É o homem que expulsa as aves dos ares
aprisiona os rios e abate a floresta
transforma os oceanos em abismos de enganos
em funestos alvedrios
da natureza pouco resta

É o homem que vicia o amor e gera o ódio
conspurca o solo
envenena o ar
encobre o Sol e ofusca a Lua
toda a maldade é obra sua
oh que triste episódio!

Das fontes já não brota poesia
antes veneno e desencanto
pranto e sofrimento
morte de toda a sorte
ofensa e aleivosia
mentiras a esmo
resmas de pecado
tristeza e lamento

O homem justo ama Deus
não tem medo do diabo
apenas se teme a si mesmo

Vale de Salgueiro, 8 de Novembro de 2007
Henrique Pedro




quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Caminhando de mão dada




Numa destas noites mágicas de verão
caminhava eu de mão dada com a minha amada
ambos na doce ilusão de que éramos livres
estando nós prisioneiros do nosso amor
e encarcerados
além do mais
na etérea redoma a que chamamos abóbada celeste
que ainda mais nos acicata o espírito
e nos põe a sonhar

Paro para a beijar
dou-me conta de que bruxuleiam estrelas
no seu olhar

Sendo que cada estrela minúscula 
é um mundo imenso que assim se disfarça
e que cada bruxuleio esconde um número astronómico
anos-luz de tempo e distância

Também no amor se confundem o espaço e o tempo
e por isso a unidade de medida do amor
é o amor-luz

Tudo isto reluz
na luz do olhar da minha amada
quando com ela caminho de mão dada
se reflicto e releio

Ao amor o universo infinito se reduz

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 26 de Junho de 2008
Henrique Pedro

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Fósforo




Cada poema que escrevo
é um fósforo que risco
na noite dos dias
sem luz

Ouço-lhe o ruído breve
característico da ignição
tento por proteger a chama
pequenina
com a concha da mão
o tempo suficiente para acender um círio
de amor sem martírio
num outro coração

Sonhando que arde
aquece
ilumina
anima
e já ninguém mais esquece
porque se ateia
se ata
a outra e outra candeia
em cadeia

É a fogueira da poesia
a chama da ideia
a iluminar a Terra inteira

Mas oh, Deus!
Quantas vezes cada poema que escrevo
é como se fora um fósforo que risco
para acender um cigarro
a que me amarro
para deixar arder
para esquecer

E que arde
sem se ver

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
Henrique Pedro

domingo, 25 de novembro de 2018

O enigma felicidade





Vista do lado de fora
à luz do dia
a felicidade chama-se alegria

Por dentro é contentamento

Poderá ver-se num olhar
num sorriso
numa imperceptível expressão facial
num abraço
num aperto de mão
no bater do coração

Até numa lágrima
num embaraço
ou noticiada nalgum jornal
também

Muitos a procuram
porém
nos bares
nos estádios
no sossego dos lares
na religiosidade de um templo
ou até na aspereza da Natureza

Poderá andar por aí, sim 
mas não é aí que a felicidade
se encontra ou mora de verdade

É dentro de nós que a devemos procurar
e só nós em nós a poderemos despertar

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 27 de Agosto de 2008
Henrique Pedro

sábado, 24 de novembro de 2018

Vou ali e já volto





Vou ali
e já volto

Ali
ao virar de uma esquina da vida
a uma terra prometida
a um qualquer sítio da Internet
que promete

Vou comprar fósforos
tabaco
e o jornal

Sal para temperar o jantar
que o que havia em casa
se esgotou

Podem ir comendo a sopa
e a comida que está na copa
não me demoro
embora não saiba bem 
aonde e nem
ao que vou

Talvez procurar uma mulher a quem amar
um homem que também me ame
alguém que me chame
para viajar
não importa a que lugar

Poderei tropeçar num sonho
num simples poema
qual o problema?

Podem ir comendo a sopa
não será demorada
a minha demora

Preciso mesmo é de apanhar
ar
de sair daqui para fora

Vale de Salgueiro, terça-feira, 2 de Junho de 2009
Henrique Pedro

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O imortal morreu




(Honni soit qui mal y pense)

O imortal morreu!

Foi a enterrar com pompa e circunstância
concorrido foi
o funeral

Não consta que haja ressuscitado
pelo menos até ver
a menos que ande disfarçado
ou esteja escondido em algum lugar
à espera de voltar a morrer
quando melhor lhe aprouver

O imortal morreu
contrariamente ao que se previa
tal era o seu brilho e vaidade
mas nenhum milagre 
aconteceu

Persiste contudo a esperança
de que venha a ressuscitar
em mais asados tempos
quando os ventos
soprarem a desconfiança
de vir a vagar
o lugar de Deus

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 24 de Junho de 2010
Henrique Pedro