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sexta-feira, 22 de junho de 2018

Nada, ninguém e mais alguém




Poderá ser só oxigénio
e vapor de água
pairando etéreos sobre as colinas
arroteadas
em que medram videiras
rejuvenescidas
oliveiras prateadas
amendoeiras floridas no alvor da Primavera

Poderá ser só o suor
que o corpo transpira
e se evapora em diáfana nebulosidade
que reflecte e refracta com verdade
o vapor de amor
que do espírito se evola
e se transmuta em telúrica alegra

Poderá ser só o ar
que espírito respira
e pelos pulmões expele
condensado em bafo de poesia

Poderá ser só tudo isso 
tudo que o poeta só
almeja

Vapor de amor e de água
também
nada que se veja

Mágoa de alguma alma enamorada
submersa na poética neblina
aspergida por aí
e por além

Poderá ser só nada
ninguém
e mais alguém

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Anjo angustiado



Anjo angustiado

Deito-me sobre a relva
Em posição decúbito dorsal
Na ilusão fundamental
Inconsistente pensamento
De que ocupo sempre o centro do Firmamento
Vá para onde for
Deite-me com quem me deitar

Percebo a Via Láctea à minha esquerda
No céu límpido
Semeado de estrelas

Da direita chega-me o perfume das tílias
Floridas neste início quente de Verão

Fixo a vista na Estrela Polar
Aí me prendo a sonhar

Em breve a minha angústia
Alaga todo o Universo visível
E mais os invisíveis

Acabo por adormecer
Como um anjo angustiado

in Angústia, Razão e Nada (Editora Temas Originais-2009)


terça-feira, 19 de junho de 2018

Apalpando a alma



Apalpando a alma

Afago a cabeça

Mimoseio-me 
numa tentativa de me encontrar
mas não me encontro
nem é a mim que tacteio

Não me enxergo
no crânio escalvado
acabado de sair do barbeiro

Mas sinto uma sensação
suprema
que me percorre o corpo inteiro
me pacifica
e me acalma o coração
embora esprema
a Razão

Transfiro-me para as cabeças dos dedos das mãos
com que apalpo a caixa craniana
em que se aloja o encéfalo

Sinto-me
no curto-circuito que se estabelece
entre a pele dos dedos
e a Mente
sucedânea

E dá-me prazer ficar assim
por momentos 
a andar à roda
atrás de mim
como pescadinha de rabo na boca
de olhos vendados
a jogar comigo
à cabra-cega

Que melhor prova posso querer
da existência de mim
se é a minha alma
que a si própria
se apalpa?!

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)


domingo, 17 de junho de 2018

Sopros de vento celeste




Sopros de vento celeste

À ida
deixo poemas
e os rastos dos meus passos
impressos no pó do caminho

À volta
já a brisa do fim da tarde
alisou as arestas dos meus rastos
e outros transeuntes os pisaram
e deformaram

Mas será a chuva telúrica
a apagá-los definitivamente
dissolvendo o pó em lama

Poderiam ser maciços graníticos
piramidais
erguidos anónimos
no deserto
que teriam o mesmo fim
embora mais lenta fosse a agonia
ainda assim

Mas os meus poemas são indeléveis
imprimem o meu espírito nos rastos dos cometas
e das estrelas cadentes
que na imensidão do Cosmos traçam
o devir

São sopros de vento celeste
em que acabarão por se diluir

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)


quinta-feira, 14 de junho de 2018

Uma lua cheia de uma cruz



Uma lua cheia de uma cruz

Há na minha aldeia uma Cruz
Iluminada
Desmedida
Que todas as tardes se acende
E eu vejo recortada no horizonte da noite
Desde o sítio onde moro

Agora que já são quentes as noites de Primavera
E as tílias impõem o seu doce perfume
Aos demais odores que povoam a atmosfera

Também eu me inebrio por dentro
E confundo pensamento com sentimento
Enquanto espero que a lua cheia se levante
Suave
Com seu véu resplandecente
Mesmo por de trás da Cruz iluminada
Que se recorta no horizonte do céu
Da minha aldeia

Atrai-me o confronto do brilho diamante da Lua
Recortada na negritude do Universo ponteado de estrelas
Com o fogo da luz da Cruz iluminada pelos homens

E é no exacto momento em que a Lua enquadra toda a Cruz
Envolto de soledade e quietude
Que fico sem saber distinguir

Que coisas são amar e sofrer
Presente e devir
Pecado e virtude

Então aspiro apenas ser um todo
Sem dores ou amores
Sem distinção entre pensar e amar
Limpo de dúvidas e de angústias!
Será isso Deus?

In Angústia, Razão e Nada (Editora Temas Originais-2009)



terça-feira, 12 de junho de 2018

Gioconda



Gioconda

A sua boca cala-se
e se fala
é para nada me dizer
Pudesse eu adivinhar 
o que os seus olhos dizem

Pudesse eu ter a certeza
de bem interpretar
o seu olhar

Pudesse eu ouvir
nos seus olhos
o seu coração a bater
por mim
já que beijá-la não posso

Se me aproximo
afasta-se 
mas continua a olhar-me
de longe
distante
e eu continuo sem nada entender

Sinto no seu olhar
que o seu coração bate
por mim
só para me perder

Que os seus olhos mal me dizem
o que me quer dizer
porque tem medo
de se prender

Eu fico desolado
a moer
e a remoer
o significado
desse seu olhar enfeitiçado

Porque a sua razão decide não dizer
o que o seu coração lhe diz
e que os seus olhos mal me dizem

in Mulheres de Amor Inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013)