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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Se porventura não existis, ó Deus!



Triste é morrer sem saber porque se viveu!

Se porventura não existis, ó Deus!
então eu Vos suplico:
- Criai-Vos!

Não deixeis a tarefa de Vos criar nas mãos dos homens
que apenas têm sabido imaginar diabos e mais diabos

(Quanto a mim
se algum dia tive tal veleidade
já a perdi
na verdade)

Porque compreendi a minha total incapacidade
para por ordem no Mundo
e para minimamente entender o Universo

Eu não passo de um pobre diabo,
Senhor!
Que não sabe o que é o bem e o mal
e que anda no mundo por ver andar os outros

E que agora humildemente Vos suplica
e se lamenta:
- Se acaso não existis, ó Deus, então criai-Vos!

Para que ao menos possamos acalentar a esperança
de um dia sermos felizes num qualquer lugar
e de compreendermos os mistérios que nos envolvem

A começar pelo estranho princípio que nos faz nascer
sem que ninguém nos diga com que fim
e morrer
sem que ninguém nos pergunte se tal desejamos
e não nos diga para onde vamos

Mas se acaso entenderdes que a Vossa existência não é relevante
então
mesmo assim
não permitais que sejam os homens a governar o Universo

Vede só, Senhor
o que os homens estão a fazer a si próprios
e à própria Terra que os sustenta

Ó Deus!
Se porventura não existis
eu Vos suplico:
- Criai-Vos!



domingo, 14 de janeiro de 2018

Bem me queres, mal me queres




Tentas-me. Finges-te adormecida
Em leito florido de malmequeres
Bela, desnuda e oferecida
Tal a loucura com que tu me queres

Deixas a minha alma entontecida
Com a arte das sensuais mulheres
Que amansa a fera mais temida
E faz dos homens santos, vis berberes

Mas por tanto também eu te querer
Decido, porém, não te acordar
Não vá, com o espanto, te perder

De pronto dizes sem pestanejar:
«Bem me quer quem só assim me não quer!
Toda a ti, amor, me quero dar!»


sábado, 13 de janeiro de 2018

A que horas é o funeral?




Há Domingos assim
sem nada que fazer
em que apenas vivemos
por viver
tão pouco pensamos
em morrer

São dias de manhãs enubladas
de montanhas submersas
em que o Sol se passeia pelos campos
só lá mais para a tarde

Dias em que cada um de nós
tem um percurso próprio dentro de si
e outros com os outros
e todos outros mais
pelo mundo fora

Dias em que caminho um caminho privado
num mundo meu, privativo
onde vivo livre e cativo

Mundo em que tudo gira à volta de mim
num vórtice interior demolidor
aflitivo
que varre o próprio Universo
do espaço-tempo

Quando assim é
deixo-me ficar quedo
parado
com cara de enterro
a pensar
e a esfregar o nariz

Sem me sentir triste 
ou alegre
tão pouco angustiado
apenas cismado
devaneio

Como quando como hoje morre alguém
que pouco ou nada me diz
mas que ainda assim homenageio

A propósito:
 - A que horas é o funeral?


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Balada nupcial



Ouvi
de um sibilino espírito de virtude
que etéreo habita o mítico templo do conhecimento
esta sábia sentença, que assumi como fadário:
«Só o fogo do amor vence o frio da vida terrena
mantém o corpo ágil e livre do envelhecimento torpe
e rasga com luz a sombra da noite da morte.»

Deitei-me nu
com a minha amada desnuda
virgem imaculada
em alvos lençóis de linho cru
da cor da geada
em noite escura e fria de Inverno
à procura do fogo eterno
da felicidade

Logo ao primeiro beijo se inflamou o desejo
como se beberamos vinho
e os lençóis tecidos de áspero linho
se converteram em fina e rendilhada cambraia
e os corpos enlaçados em suave movimento
se iluminaram na obscuridade do aposento
da mais doce e sublime luminosidade

Acendeu-se a chama do amor no frio da noite escura
almas envoltas em vapor de ternura e paciência
sublime ignescência do fogo que arde e não queima
felicidade que não tarda e perdura
por tempo indeterminado

E os alvos lençóis de linho da cor da geada
transformados logo ao primeiro beijo
na mais fina e diáfana cambraia
ficaram rendilhados por fios do meu sémen quente e incolor
e pela cor carmim do sangue rosa da minha amada 
produto do nosso amor e desejo ardente

E o fogo do amor daquela noite de núpcias sentida
gravou para sempre nas nossas almas e mentes 
com fios de ternura, sémen e sangue rosa carmim
o destino e boa sorte que perdura pela vida
e que assim sobrevirá feliz para lá da morte




terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Basta-me o teu olhar




Basta-me o teu olhar, sim, para começar
Que não me ignores, que não fujas de mim
Ainda que se de mim foges, inda assim
Mais esperanças me dás de me vir a amar

Se eu te olho com olhos de encantar
É só porque te quero bem, sem outro fim.
Olha-me com olhos de que estás afim
Então, sim, ver-me-ás a rir e a cantar

Mas se teimas em fugir e a não me ver
Nem assim a mim tu me farás desistir
Apenas aumentarás meu cruel sofrer

E se temes que eu esteja a mentir
Pára para me olhar e bem entender
Que o amor que sinto não é a fingir


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

No limiar da Fé



Gosto de orar
na ideia de que adormeço
no umbral do pequeno templo da minha aldeia
e viajo Cosmos além
livre de todo o mal


A sonhar que a mão de Deus me afaga
me faz Revelações
como fazia minha mãe
quando  menino
me aconchegava no seu seio


Ciciando-me doces melodias
de amor e de encanto
como se eu fora um santo
um deus pequenino


Eram ecos
e reflexos
do Criador


O meu pensamento voava
por dentro do sonho
para fora do sono
e o meu espírito vogava pelo Universo
iluminado pela  luz
do seu coração


Tento agora
 ouvir de novo os mesmos ecos
ver os mesmos  reflexos
no umbral do pequeno templo da minha aldeia
na ideia que é o regaço de minha mãe


Não encontrei até hoje
melhor forma de me interrogar
outro verso e anverso
 das agruras da vida olhar
sem me sentir vazio
naufrago do nada
sem me angustiar


Era Deus
que descia do Céu
para me falar de Si
com suavidade
mesmo ali
no limiar da Eternidade


Era eu
que a dormir
despertava por dentro
mergulhava no mais profundo de mim
descobria o meu caminho
e me transformava
em profeta daquele espaço
naquele tempo


Para lá do umbral do pequeno templo da minha aldeia
pregada na parede mais umbria
 ergue-se porém uma Cruz
lustrada pela luz trémula  de uma candeia
que ilumina de divino
o destino sonhado
no regaço de minha mãe