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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Valquíria Sigrdrifa







Sinto-lhe o sopro
Finjo-me morto

Beija-me a pele
Besunta-me de fel

Beija-me os pés
Para mos decepar

Beija-me as mãos
Rói-me os dedos
Rouba-me os segredos

Beija-me os ouvidos
Para me ensurdecer

Beija-me a boca
Para me emudecer

Beija-me o sexo
Para me capar

Beija-me o coração
Exangue
Chupa-me o sangue

Beija-me os olhos
Para as lágrimas
Me sugar

Beija-me a face
Para me desfigurar

Está escrito
Resisto

Beija-me de morte
Sem me matar

Quer-me vivo
Nem morto nem vivo
Seu quero ser

Vá para onde eu for
Sigrdrifa me persegue
Com ardor

Beija-me a alma
Sugar-me o espírito
Não consegue

Sou um guerreiro invicto
Jamais um proscrito


in Mulheres de Amor Inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013)



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Quando a alma me dói




O corpo
quando me dói
dói-me por partes
nunca me dói todo
inteiro
apenas em parte
me dói

Dói-me um pé
uma mão
o peito
o coração
cada um com sua dor

E quando sinto prazer
também sinto por partes
com distintas formas de gozar
cada uma com suas artes

Sinto o tacto
o sexo
o sabor
o olfacto
o ouvido
o olhar

Mas a minha alma quando ama
ou sente dó
sofre e ama inteira
toda
verdadeira

Porque a minha alma é una

Única

Uma só




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

AQUI…




Aqui, cume do monte dominante
De um reticulado curvilíneo
De colinas moldadas no fascínio
Da alma do poeta diletante

Aqui, nasceu, em mim, a poesia
Pela magia do amanhecer
Com reflexos de fé e bonomia
Que também brilham ao entardecer

Aqui, sempre me quedo, radiante
À hora que o Sol se põe, sanguíneo
Por detrás do horizonte distante

Aqui, face ao Mundo a sofrer
Ao Senhor dos Aflitos eu pedia
Não deixasse, Ele, de lhe valer…

Vale de Salgueiro, domingo, 10 de Agosto de 2008
Capelinha do Senhor dos Aflitos (Alto da Serrinha)



terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ainda há lágrimas por chorar, Hiroshima



Ainda há lágrimas por chorar
Hiroshima

Ainda há holocaustos por exorcizar
não é ainda a Paz
que os homens anima
é já tempo de parar

Tempo de por fim à fome e à guerra
à mentira e a miséria
à política falaz
que assola toda a Terra

Já é tempo de fazer valer a Verdade
tempo de quem já nada espera
voltar a ter tempo de acreditar
tempo de gritar
Liberdade

Tempo de os homens serem homens
e de os homens serem
Humanidade

É já tempo
antes que seja tarde



quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O pecado original






Contesto o Teu critério, ó Criador
De expulsar Adão e Eva do Paraíso!
Se foi Eva a causadora do prejuízo
Porque não expulsá-la só a ela, Senhor?!

Continuaria, assim, o homem, sem dor
A viver no Éden, em seu perfeito juízo
E a mulher na Terra, se eu bem ajuízo,
Mais feliz do que é, sem o homem por tutor.

Ou será que Adão quis Eva acompanhar
Tão ardente era a loucura da paixão
E nem Vós, Senhor, os conseguistes separar?!

Se assim foi, então, tendes toda a razão!
Só àqueles que aprenderem a bem amar
Vós abençoais e concedeis a Salvação.



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Para onde vás Luís Vaz





Não me admiro que Luís Vaz, o imortal Camões
tenha morrido na miséria

Indigente

Lembrei-me dele
quando
(já lá vão trinta e tantos anos)
também passei pela Ilha de Moçambique

a mítica  ilha do mar Índico
onde o poeta penou
de mão estendida à caridade
no regresso do Oriente
onde se fez épico

Dele restava um busto de bronze
erigido num recanto entre palhotas e palmeiras
sem utilidade alguma
para lá de servir de pouso aos pássaros
que lhe defecavam na cabeça

Não sei se ainda lá estará
se jazerá nalgum monturo de inutilidades
nalgum armazém de históricas banalidades
ou se ornamentará a palhota de algum nativo
que nele não viu outra utilidade

Foi lá
e então
que me ocorreu este poema
embora só agora o dê a lume
porque é agora que a minha desilusão
mais arde

e os sentimentos de ser português
e de como Camões também pertencer
aos Vaz de Vilar de Nantes
mais se acendem
frustrantes

Luís Vaz enquanto poeta foi um inútil
embora tenha deixado de o ser
quando a genealidade da sua poesia
gerou ventos e marés
e construiu auto-estradas de sonho

Foi um verdadeiro indigente
que não ganhava nada com isso
mais mal pago que um qualquer operário
que com mais acerto, por certo
lavrava a terra ou caiava paredes

Era um sem-abrigo
semi-anjo
quasi-deus
um extraterrestre sem interesse
a quem o soldo não bastou para regressar
ao Portugal que o enjeitou

A Portugal
não à Pátria
porque que a Pátria de Camões
era onde era poeta e soldado


Era onde havia projectos de verdade

de sonho, amores e mistério
e poesia

que um dia
foram Império de humanidade

Hoje em dia sem utilidade
tanto quanto sei

Para onde vás, Luís Vaz
ou fores
lá estarei