Não é de estranhar que o imortal Camões
tenha morrido na miséria
indigente
Lembrei-me dele
quando
(já lá vão trinta e tantos anos)
também passei pela Ilha de Moçambique
onde o poeta penou
de mão estendida à caridade
Dele restava um busto de bronze
erigido num recanto daquela mítica ilha
Lembrei-me dele
quando
(já lá vão trinta e tantos anos)
também passei pela Ilha de Moçambique
onde o poeta penou
de mão estendida à caridade
Dele restava um busto de bronze
erigido num recanto daquela mítica ilha
entre
palhotas e palmeiras
sem utilidade alguma
sem utilidade alguma
para lá
de servir de pouso aos pássaros
que
lhe defecavam na cabeça
Não sei se ainda lá estará
se jazerá nalgum monturo de inutilidades
ou se ornamentará a palhota de algum nativo
Não sei se ainda lá estará
se jazerá nalgum monturo de inutilidades
ou se ornamentará a palhota de algum nativo
condoído
da memória sem utilidade
do vate
celebrado
Foi lá
e então
que me ocorreu este poema
embora só agora o dê a lume
porque é agora que a desilusão
mais arde
Também eu como poeta me sinto um inútil
embora seja a inutilidade da poesia
a gerar ventos e marés
e a construir auto-estradas de sonho
Enquanto poeta
sou verdadeiramente um indigente
que não ganha nada com isso
mais mal pago que um qualquer operário
que
lavra a terra ou pinta paredes
Um semi-anjo
um quasi-deus
um extraterrestre
sem salário
nem utilidade
Como o Camões imortal
deus utópico
que nem soldo teve para regressar
ao Portugal que o enjeitou
A Portugal
Como o Camões imortal
deus utópico
que nem soldo teve para regressar
ao Portugal que o enjeitou
A Portugal
não à
Pátria
porque que a Pátria de Camões
porque que a Pátria de Camões
era onde
era soldado
Oriente, África e depois de morrer, Brasil
Oriente, África e depois de morrer, Brasil
onde havia
projectos mil de humanidade
sonho
e mistério
e poesia a rodos
e poesia a rodos
sem
utilidade
Mas que um dia
foram Império
de
verdade
Hoje sem
utilidade
