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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Ninguém comanda o coração



Ousa persuadir-me que a ame

com gestos ousados

de sedução

 

E eu tento outrossim

 dissuadi-la

com gestos de desdém

que ela me ame a mim

e de que pretenda

e se arrependa

que eu a ame

a ela também

 

Nem ela

nem eu

porém

sabemos como este jogo termina

 

No amor não existe persuasão

nem dissuasão

ninguém o determina

 

Apenas há um momento certo

imprevisto

de bem amar

alguém

 

Ninguém comanda o coração

nem de longe

nem de perto

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

 Henrique António Pedro

 

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Profissão de fé

 


LXII

Profissão de fé

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Esta certeza interior

é do tamanho da minha própria Fé

 

Nem o Pai

nem o Filho

nem o próprio Espírito Santo

me darão tratamento preferencial

na Terra como Céu

nem me tornarão imune a qualquer doença

tragédia, calamidade ou mal

nem me nomearão para um cargo governamental

 

Nem me libertarão de ser eu

a ganhar o meu próprio pão

com o suor do meu próprio rosto

e não deixarão de me olhar

como a todos os mortais

com a mesma distância cósmica

 

Mesmo que muitos achem ridícula

esta minha Fé

não deixarei de acreditar no Pai

no Filho

no Espírito Santo

em Jesus Cristo

na Virgem de Fátima e nos Santos

 

Nem deixarei de respeitar

outras crenças ou indiferenças

de manter uma esperançosa espera

na afirmação da Paz, do Amor e da Verdade

sobre toda Terra

 

Sem fanatismo ou acintoso proselitismo

sem subserviência a igrejas ou ritos

sem procurar conflitos

 

Porque sinto que só pela via da Fé

sem condição

a mim me poderei transformar

e assim cumprir a divina vocação

de me aproximar do Absoluto

Henrique António Pedro

Danço com a minha sombra

 


LXI

Danço com a minha sombra

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

Caminho em direcção ao Sol

 

A minha sombra segue-me

persegue-me

vem atrás de mim

cola-se a meus pés nesse ínterim

irritante

enorme

disforme

escura

rastejante

obscura

 

Rodopio de repente

volto as costas ao astro rei

tomo o caminho de sentido inverso

tão pouco parei

 

De pronto a minha sombra me passa à frente

me repassa

sem desvio

em desafio

 

Se danço ela dança

se paro ela para

se corro ela corre

tão veloz quanto eu

 

Piso-a

trepo-a

pontapeio-a

 

Ela foge ao ritmo dos meus pés

sempre colada ao chão

sem me sair da Razão

 

Gostaria que ela se levantasse

e me enfrentasse

para eu poder ver quem ela é

e quem eu sou

 

É só um temor que me assombra

a minha sombra

um medo

um receio

uma amargura imerecida

que mora no meu coração

 

O que eu mais queria era ser transparente

ver-me por dentro

 

Gostaria sim

que fosse luminosa como o Sol

a minha sombra

colorida da cor do amor

reflexo do meu viver

 

A sombra da minha alma

ainda assim

é a minha poesia

 

Por isso escrevo um novo verso

a cada passo

e passo a passo

passo a um novo poema

noutro compasso

 

Entoo nova eufonia

caio em novo dilema

até que o meu espírito se acalma

emudece

e a minha sombra se desvanece

 

Henrique António Pedro

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Fogo, fumo, cinza

 


LX

Fogo, fumo, cinza

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

A existência é tão fugaz

como tudo que arde

a si próprio se consome

extingue

e se desfaz em cinza

 

Ou o fumo que se evola no ar

a água que ferve e se converte em vapor

o suor ou o bafo

que se desvanecem no espaço

 

Assim são as marcas que deixamos neste mundo

 

Indelével é só

o que de nós

em nós

a vida desperta

 

Pára, escuta, olha

sente bater o coração

agora

meu irmão

 

 

As pirâmides de Gizé são meras bolhas de espuma

se comparadas com os penedos paleozóicos de onde foram extraídas

e estes não passam de insignificantes grãos de poeira cósmica

 

O único sentido da Vida

dorida

é despertar-nos a nós

em nós

 

Como se o Criador

depois de usar o escopro da Criação

estivesse tão só

com Seu sopro

a limpar o pó

da obra esculpida

Henrique António Pedro

Além, naquele astro ali

 


LIX

Além, naquele astro ali

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Ali

naquele astro além

que não é estrela

nem planeta

nem cometa

e já foi o coração

de minha mãe

 

Além

na imensidão

naquele astro ali

tão longe de tão perto

onde nada é errado

nem tudo é certo

 

É lá que eu moro

e me demoro

por via da poesia

sem que diga adeus

nem diga nada

a ninguém

 

É ali que eu ando

amando

e sofrendo

a mando

de Deus

e de nada me arrependo

 

Henrique António Pedro

domingo, 21 de junho de 2026

A minha alma é maior que o mundo

 


LVIII

A minha alma é maior que o mundo

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

A minha alma

é o mundo em que todas as coisas existem

acontecem

persistem

e desaparecem

e o amor

e a dor

coexistem

 

É o espaço em que giram todas as galáxias

e universos conhecidos

e os que estão ainda por descobrir

em que as estrelas brilham

os ventos sopram

e as palavras

se concertam em versos

e os versos em poemas

 

É o mundo em que batem corações

e se levantam questões

e dilemas

 

Sobretudo aqueles que ninguém entende

ou não têm resposta

nem na minha alma

nem fora de mim

 

A minha alma é caos

e cosmos

o hiperespaço em que eu aconteço

não sei o que penso

o que digo

o que faço

caminho pé ante pé

me mereço

 

A minha alma é o templo

sem tempo

onde se acende

a chama

da fé

e Deus

se transcende

 

Henrique António Pedro

sábado, 20 de junho de 2026

A irrelevância de Deus

 


LVII

A irrelevância de Deus

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

Existir ou não existir

Deus

ser ou não ser

sob que condição for

não é a questão maior

 

No meu humilde entender

é irrelevante

até

 

Porque Deus pode dar-Se ao luxo

de nem ser

sequer

 

Tanto que deixa ao livre-arbítrio

de cada um

Nele acreditar

ou não

 

Não deixa porém

de nos apontar o caminho

para que sejamos nós a reconstruir

o nosso próprio destino

 

Dá-nos a matéria para tanto

que é o Amor

 

O método

que é o Bem

 

E o cadinho também

que é a Dor

 

Este é

o tripé

de toda a Fé

 

 

Henrique António Pedro

O espelho do espírito

 


LVI

O espelho do espírito

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Percorro montes e vales

campos e cidades

à procura de um espelho

em que me possa ver

 

Encontro lagos

maciços gelados

edifícios espelhados

vidros de cristal

 

Apenas vejo imagens

miragens de mim

mil meias-verdades

sombras do meu ser

 

Só posso ver o meu rosto

num espelho que o reflicta

à luz do dia

que o escuro repele

 

Só poderei ver o meu espírito

no espelho de Deus que o revele

à luz do amor que o concita

Henrique António Pedro

sexta-feira, 19 de junho de 2026

A ser assim, o Além…

 


LV

A ser assim, o Além…

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)


A ser assim

o Além

será uma espécie de sonho do sono

pesadelo ou felicidade

sem possibilidade de se acordar

e de retornar à realidade

 

É um viver etéreo

sem nascer ou morrer

um ver sem olhos

um ouvir sem ouvidos

um prazer sem sentidos

um voar sem asas

um permanente flutuar

uma vida descolorida

sem boa ou má sorte

um gozar sem prazer

um sofrer sem doer

um ermo sem guarida

um eterno refrigério

 

A ser assim

o Além

é uma espécie de sonho sem realidade

um mundo sem rumo

sem fio de prumo

nem norte

 

E a ser assim

sonhar

quando o corpo adormece

e o espírito permanece

sem suporte

é ensaiar a morte

 

Henrique António Pedro

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Porque cintilam as estrelas?

 


LIV

Porque cintilam as estrelas?

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

Quando

 

a minha deslumbrada

lembrança de criança

se inicia…

 

Ainda a minha família ceava

à sombra da luz da candeia

e tudo que se comia

era meu pai que o colhia

 

Pão, vinho, mel, azeite e leite

tudo era dádiva de Deus

pelas mãos de meu pai

aceite

 

Também na penumbra mística

da igreja lá da aldeia

uma lampadazinha ardia

quer de noite quer de dia

 

E seria essa luzinha

bruxuleante

pequenina

a lançar a primeira grande interrogação

na minha rutilante

Razão

 

Porque ardia

e tremeluzia ela

como se fosse uma estrela

à luz do dia?

 

Foi minha mãe que me explicou

e com tanto amor o fez

que ainda hoje aceito a explicação

certo de que assim é

com verdadeiro fervor

acendrada chama de fé

 

Disse-me ela

numa encantada noite de Verão

estreitando-me contra o seu coração

que as luzinhas que brilham no céu

são a luz de estrelas

que há muito tempo se apagaram

mas que só agora chega até nós

trazida pelo vento divino

 

Assim como um grande amor

que já se foi mas continua a brilhar

noite e dia

sem nunca se apagar

 

Assim é esse o nosso destino!

 

 (Amor já eu sabia o que era

porque muito a amava a ela)

 

Por isso também em minha casa ardia

noite e dia

com deleite

como na igreja da freguesia

uma luzinha de azeite

 

Por todos que amávamos

mortos ou vivos

porque acreditávamos

que a luz do nosso amor

como a da lamparina

e a da estrela mais pequenina

continuaria a piscar

Cosmos fora

mesmo depois de se apagar

 

E que será guiados por essa luz

que um dia

nos voltaremos a encontrar

agora já sem que o nosso amor

se possa mais apagar

 

Henrique António Pedro

No imo de mim

 


LIII

No imo de mim

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

No silêncio absorto

de meu cérebro

no sopro sáfaro

de meu coração

o meu “eu”

é ainda embrião

 

No âmago do meu corpo

ébrio

a minha alma se acomoda

e se acalma

 

No imo da minha alma

o meu espírito

espreita

 

O corpo me prende à Terra

ao Cosmos

e aos meus

a alma me liga ao Além

 

O espírito me envolve

e devolve a Deus

Henrique António Pedro

Quando o homem era só projecto de Humanidade

 


LII

Quando o homem era só projecto de Humanidade

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Só no imo da alma

se experimenta a solidão

e implode o amor

 

Mas é na flor da pele

que se aprende a amar

e se sente a dor

 

Retorno ao ponto sem matéria

ao momento sem tempo

em que o Criador entendeu provocar

o big-bang original

 

Antes que a vida explodisse em criatividade

e quando ainda se não percebia

que coisa era bem

ou era mal

mentira ou verdade

prazer ou dor

nem havia ansiedade

 

Quando o homem era só

projecto de Humanidade

 

Henrique António Pedro

A minha alma mora no meu coração

 


LI

A minha alma mora no meu coração

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

A minha alma não reside no meu cérebro

como cheguei a pensar

ou em qualquer outro órgão

glândula ou apófise

como pus a hipótese

 

A minha alma mora no meu coração

 

É lá que passa a maior parte do tempo

entretida a deixar-se emocionar

 

De onde apenas sai

levada pelo vento

quando o pensamento

se põe a divagar

 

E quando encontra coisas que a fazem sofrer

ou a mente é incapaz de compreender

é ainda a alma a se angustiar

e é no coração que acaba por se refugiar

 

Henrique António Pedro

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Nada em lado nenhum

 


L

Nada em lado nenhum

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

Adormeço profundamente

e tão pouco sonho

 

Por tempo indeterminado passo a ser nada

em lado nenhum

 

Deixo de existir

 

Depois que abro os olhos

acordo serenamente

sentado na erva

encostado ao tronco de um freixo

enquanto as ovelhas continuam a pastar

placidamente

no lameiro

com César

o cão pastor

a vigiar

 

De nada me queixo

sinto-me bem

inteiro

sem qualquer dor

 

Será que a minha alma também dormiu?

 

Mas como pode o espírito dormir?

 

Só pode ter andado a vogar

por outro espaço

noutro tempo

sem eu saber

e sem que mo queira dizer

 

Certo que o espírito

não é

sonho

 

Tão pouco é realidade

Henrique António Pedro