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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Rio Atlântico



Foi outrora um mar

um oceano distante

o Atlântico

 

Que as caravelas do Infante

de seu alvedrio

ousaram devassar

a domar tempestades

a povoar de ilhas

a inundar de lágrimas

e a pescar saudades

 

Não passa, agora, de um rio

de nostalgia

que a toda a hora

o homem insano devassa

 

Embora nas suas margens haja poetas a pescar

poesia

e a acenar

amizades

 

Agora é um cântico

o Atlântico

um rio florido de letras

de rosas e de violetas

de poemas de todo o ano

 

Que poetas a toda a hora

ousam atravessar

tão só para se abraçar

 

Vale de Salgueiro, sábado, 30 de Janeiro de 2010

Henrique António Pedro

 

domingo, 27 de setembro de 2026

Assim desponta Deus


Dúvidas

Dores

Sofrimentos

Dores de corpo

Dores de espírito

E lamentos

 

Angústias e dúvidas

Golpes de boa e má sorte

Temperados de prazeres fugazes

De alegrias efémeras

De esperanças fagueiras

 

Prazeres e sofrimentos que se sentem por todo o corpo

Angústias e dúvidas que espevitam o espírito

 

Amores que se supostamente alegram o coração

Alegrias que não sabemos de onde são

 

Dúvidas que perturbam a Razão

Mas é a morte certa

Grito inaudito

Que mais nos confrange e aperta

 

Uma certeza maior, porém

Advém da Fé

Se o homem de bem se levanta

E caminha de pé

 

É Deus que desponta!

 


Vale de Salgueiro, sábado, 31 de Janeiro de 2009

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Luxo, lixo, luz



Há biliões de estrelas cujo brilho não chega até nós

toneladas de gemas preciosas

que nunca serão arrancadas às entranhas da Terra

plêiades de pérolas escondidas nas profundezas do mar

que jamais brilharão em colares de encantar

milhares de mulheres lindas que nunca se vestiram de luxo

que nunca ganharam concurso de beleza algum

e divas maviosas a quem nunca ninguém ouviu a voz

 

Há milhares de heróis esquecidos que a pátria esmorece

e infinitos santos que Roma desconhece

 

Milhares de poetas que mal sabem ler ou escrever

mas que guardam em si as poesias mais belas

 

Há milhões de poemas geniais

que nunca foram lidos nem premiados

que não são notícias dos jornais

nem fazem parte de qualquer antologia

embora sejam declamados

dia-a-dia

 

Vou continuar a sondar o Universo sem fim

a vasculhar o lixo da História

a começar por tudo que existe dentro e fora de mim

e na minha memória

 

Vou continuar a ler os poetas menos lidos

a vitoriar os heróis vencidos

a escutar as verdades dos humildes

a invectivar a vaidade e a guerra

a remexer o húmus da terra

a ouvir e a cantar as canções que mais me apraz

a afastar de mim ilusões

faça sol ou faça vento

 

A procurar a semente pequenina

da verdade

da liberdade

e da alegria

que germina pela Primavera

com a graça de Cristo Jesus

floresce por todo o tempo

acima do lixo e do luxo

em paz e poesia

e explode em luz 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Henrique António Pedro


domingo, 20 de setembro de 2026

Vá para aonde eu vá ou for


Vá para aonde eu vá

ou for

sempre carrego comigo

uma mala de fantasia

cheia de sonhos

e de amor

 

Sempre assim foi

sempre assim será

 

Sonhos que são sementes de poesia

que germinam em poemas

em cânticos de louvor

em gritos de alegria

em choros de dor

arpejos de dilemas

ao sabor da sorte

 

Assim será

até na hora da morte

já que estou em crer

e disso tenho fé

que continuarei a sonhar

a amar

a escrever poesia

mesmo depois de morrer

 

Vá para aonde eu vá

ou for

sempre carrego comigo

uma mala de sonho

e de amor

preparado para amar

 

É dentro dessa mala

que eu próprio me faço transportar

 

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 3 de Junho de 2010

Henrique António Pedro

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Já não há mal nem bem na Terra


Virou uma coutada

A Terra

Em que os donos do mundo

Se divertem a caçar

E a fazer guerra

 

E o homem um animal

Amoral

Que habita o planeta

Que ninguém se intrometa

 

Acabou-se o mal

Prolifera a maldade

O bem é pura inutilidade

 

O motor da civilização é a corrupção

 

A maior indústria é o vício

A vida não tem valor

A morte não passa de um pormenor

 

Guerra ou paz tanto faz

Preciso é ganhar

E vender

 

O amor é o que for

E o que está a dar

 

Mentir é utilidade

A verdade é relativa

Depende de quem a inspira

 

O insulto é gratuito

Não tem preço

É arma de arremesso

 

Só morre à fome quem não come

Nem tem forças para se revoltar

 

A Terra esventrada já está a arder

Não tarda a estourar

 

Já não há mal

Nem bem

Na Terra

Apenas maldição

 

 

Não, não, meu Jesus Cristo!

Não deixes que Te sacrifiquem outra vez

Na cruz

 

Pedi ao Pai

Que acabe com isto

De vez

 

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 28 de Julho de 2010

Henrique António Pedro

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Esplendor de amor


 

Quando, num só tempo, sofremos e amamos

E o coração nos dói do mais puro amor

Porque muito amamos quem sabemos com dor

E desse mesmo sofrimento nós comungamos

 

Ou quando de quem amamos nos separamos

E mergulhamos na tristeza e no torpor

Ou quem bem nos ama nos recebe com calor

Se de um longo afastamento regressamos

 

Ou se a morte, a mais cruel realidade

Nos força a dizer definitivo adeus

A quem, também, muito amávamos de verdade

 

Se ainda, assim, louvamos, com fé, os céus

É quando com a maior intensidade

Sentimos o esplendor do amor e de Deus

 

Vale de Salgueiro, sábado, 13 de Setembro de 2008

Henrique António Pedro 

 

 

                                                                                       

 

 

                                                                                       

 

 

                                                                                      

sábado, 12 de setembro de 2026

A minha sina é amar


Caros

e raros

contrários

 

Dois ou três

não mais

 

Pessoas com quem não me dou bem

não nomeio

nem reclamo

não estimo nem odeio

de uma certa forma até amo

 

Contam-se pelos dedos dos pés

porque os pés servem para trepar

e andar

e as mãos

guardo-as para coisas mais belas

como escrever

apertar

orar

acariciar

 

Bizarra é esta inimizade

de pouca monta

que vem de gente a quem nunca fiz mal

o que não é normal

 

Gente louca que não se contém

que gosta de ser bajulada

e quando se lhes diz a verdade

respondem à canelada

 

Cegos de cegueira

de orgulho

ambição

e vaidade

só olham para os seus umbigos

 

Já os amigos de verdade

esses

são tantos

que nem com os dedos das mãos se contam

porque a amizade não tem conta

nem contabilidade

 

Lá bem no fundo

o ânimo que me anima

a minha sina

é amar e fazer bem

mesmo aos meus raros e caros contrários

 

Vale de Salgueiro, sábado, 28 de Agosto de 2010

Henrique António Pedro

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Que mil bombas de amor deflagrem sobre a Terra



Calar a verdade é pior que mentir

 Mentir é explorar e subtrair

Dar para receber é comprar e vender

Amar sem amor é uma forma de odiar

Que os vírus malditos sejam de pronto circunscritos

Que o ódio e o terror não vençam o amor

Urge libertar a Humanidade do vício e da animalidade

Proclamar a paz a pensar na guerra

é uma forma de guerrear

Que os donos do mundo reflictam

para que Hiroxima e Nagasaki se não repitam

 

Que mil bombas de amor deflagrem sobre a Terra

para que a Paz triunfe sobre a guerra

 

Vale de Salgueiro, 1 de Setembro de 2007

Henrique António Pedro

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A solidão maior


A solidão maior não mora além

lá no deserto

quando em redor de nós

nem sentimos ninguém

 

A solidão maior

não a sofremos na dor

quando longe ou perto

ninguém sofre como nós

 

A solidão maior

não a vivemos no silêncio da noite

quando gritamos

e ninguém nos ouve

 

A solidão maior

sentimo-la na alegria

quando mais ninguém

como nós

sorri

 

Sofremo-la à luz do dia

que nos obriga a esconder

um grande amor


A solidão maior é 

viver

sem amor e sem fé

 


Vale de Salgueiro, domingo, 19 de Fevereiro de 2012

Henrique António Pedro

 

 

domingo, 6 de setembro de 2026

Parti, de mansinho, para não a acordar


Parti

de mansinho

para não a acordar

porque percebi que sonhava comigo

 

Sorri

aconcheguei-lhe a roupa

beijei-a na testa

e escrevi este poema balsâmico

na sua agenda aberta

sobre a mesinha de cabeceira

mesmo à beira do despertador

 

Para que quando o alarme tocar

e a fizer acordar

sinta o meu amor

e não entre em pânico

por não me encontrar deitado a seu lado

 

Também

para lhe dizer

que por nenhuma razão

a quero perder

e que estará sempre presente no meu coração

 

E que enquanto eu estiver ausente

por obrigação

andarei sempre a penar de paixão

deserto de desejos dela

do seu carinho

e dos seus beijos

 

Por isso parti

assim devagarinho

sem a acordar

porque percebi

que sonhava comigo

 

 

Vale de Salgueiro, sábado, 27 de Setembro de 2008

Henrique António Pedro

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Será que ando a enganar toda a gente, sem querer?


Por mais que tente

não consigo escrever com verdade

mesmo o que agora escrevo aqui

no poema vertente

 

Será que minto

então

e ando a enganar toda a gente

sem querer?

 

A questão é que quem lê

sempre lê de forma diferente

 

Mesmo se a minha vida fosse filmada

se a minha alma fosse fotografada

se registassem em banda sonora fidedigna

o bater do meu coração

cada qual visionaria

ouviria

e raciocinaria

na sua própria perspectiva

 

Razão pela qual, também eu, quando leio

nunca espero ler a verdade

apenas um arranjo poético

do muito que permanece encoberto

 

A isto se resume

toda a beleza e doçura da poesia

 

Porque poeta que se assume

por mais que se reserve

sempre fala e escreve

de coração aberto

 

Vale de Salgueiro, Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Aos derradeiros guerreiros do Império


(Revisto)

O Império derradeiro da História

Que agora se esvai na memória

Os imolou

Sem lamento

 

E com eles ele próprio se sepultou

No ataúde comum

Do esquecimento

 

Em lugar nenhum

 

Negros, brancos, amarelos

Sacrificados agnelos

Morreram de pé

Nas matas de Moçambique e de Angola

Nas olas da Guiné

Trespassados de balas

 

Muitos por lá ficaram defuntos

Abandonados

Esquecidos

Insepultos

 

Que evangelho ou sortilégio

Que adulterada verdade

Que insana vontade

Que espúrio desígnio

Que místico saltério

Lhes traçou o destino

E os abandonou assim?

 

Sem choros

Ilusões

Raivas

Risos

Ou ranger de dentes

 

Apenas os corações penitentes

Próximos ou distantes

De quem os amava

Pais, irmãos, amigos, amantes

A bater frementes

 

Ceifados na flor da idade

Viveram com frenesim

A sua trágica mocidade

 

Aos derradeiros guerreiros

Do Quinto Império da História

A nação presente os desmerece

E esquece

 

A pátria eterna os engrandece

Sente

E glorifica na sua memória

 

Os heróis jamais são derrotados

Mesmo se a guerra se perde

E são ademais mal-amados

 

A sua vida é uma vitória, ainda que breve!

 

Inglória

 


Vale de Salgueiro, quinta-feira, 26 de Março de 2009

Henrique António Pedro