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quinta-feira, 21 de maio de 2020

Não tapem os buracos da minha rua





Não tapem os buracos da minha rua

que eu quero ver

neles reflectidos

o Céu

o Sol

as Estrelas

e a Lua

sempre que chover

 

Quero ver as nuvens a passar

empurradas pelo vento

e viajar com elas

em pensamento

 

Que eu quero ver da minha janela

por detrás da vidraça

os salta-pocinhas

videirinhos

os pisa flores

a saltar de pedra em pedra

tão cheios de graça

e cautela

que acabam por pisar

na merda

 

Quero ver as damas emproadas

vaidosas de tanto asseio

a pavonear-se no passeio

ciosas da sua fama

serem salpicadas de lama

se algum carro passar

a alta velocidade

sem lhes ligar

 

Que eu quero poder manter

a irreverência de criança

e sorrir

com a esperança

de que a Humanidade

acabará por banir

a hipocrisia

e governar-se pela Verdade

 

Quero eu poder viver a vida

com poesia

sem forçar o destino

e tornar a ser menino

sempre que me aprouver


 

Vale de Salgueiro, domingo, 14 de Março de 2010

Henrique António Pedro