Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se. Deixe, por favor, uma breve mensagem. Poderá fazê-lo para o email: hacpedro@hotmail.com. Bem haja. Please leave a brief message. You can do so by email: hacpedro@hotmail.com. Well done.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Coisas de ontem fora do tempo



Há locais

grandes

pequenos

de somenos

objectos

tempos

templos

simples ventos ou pensamentos

rostos

instantes

gritos

melodias

cheiros

sabores amargos

e doces

objectos insignificantes

risos e choros

diabruras e maldades

passos encobertos

e gestos rasgados de caridade

ou coragem

afagados pela aragem da lembrança

que passaram a entidades reais

mesmo sem peso nem medida

cinzeladas na área de imagens do cérebro

com tonalidades de afecto

 

São coisas de dentro de ontem fora do tempo

e da memória próxima

de dentro de mim

do meu passado

encontradas no mundo exterior

e a quem a proximidade da saudade

conferiu existência gravada naquilo sou

e já não fui ou serei

coisas de dentro de ontem fora do tempo

de entre o Alfa e o Ómega

dentro da moral e dos afectos

do Bem e do Mal

 

 

Como aquele copo de vinagre

que bebi

quando criança

e mal sabia ainda que coisa era vinagre ou vinho

que encontrei abandonado na cozinha

de minha avó Alzira

e me soube a fel

mais amargo que a esponja com que martirizaram Cristo

agonizante na cruz

 

Foi um ápice de martírio o meu

um esgar de sorriso e dor

que por certo me lançou na vida dos sabores

nos reflexos por aí adiante

e me põe agora a olhar para trás

e quiçá poderá mesmo ser o garante da minha salvação

 

Ah!

E aquela imagem que retenho

de minha mãe a descer a escaleira da caridade

de almotolia na mão

para socorrer os mendigos andrajosos

que ousavam subir a escada da súplica

e no primeiro degrau da miséria

de lata pendurada ao pescoço

proferiam pai-nossos angustiados por alma de quem lá tem

pela santa que aí vinha

e era minha mãe que lá vinha de almotolia em riste

para que o seu triste irmão digno de dó

pudesse ter azeite para cozinhar a sua própria felicidade

e olear os pés gretados pelo pó do caminho

e reconfortar o estômago com batatas cozidas

em paga das orações doridas de verdade

 

E o lobo!

Recortado contra o luar de Janeiro

esfomeado

que saltava do colmo para o chão

e do chão para o colmo que cobria a manhosa cabana

armada na Casa do Seixo para guardar o meloal

capaz de me devorar o corpo e a alma

votado eu a defender o corpo

mais que a minha alma tão calma

de escopeta em riste

tão calma que me pus a pensar

se o mato serei eu o assassino

e será o lobo inimputável menino

 

E a indelével lembrança de cigano a fornicar cigana

na palha

de madrugada

quando eu criança

vencia a geada para ir mugir a vaca

e a desavergonhada sem se importar com nada

abria as pernas e o cigano a rugir

eu ficava parado

pasmado

sem ensejo de fugir

a olhar e a despertar

de desejo

e ficava a compreender então

a razão pela qual apenas era lícito naquele tempo

possuir mulheres virgens

embora não importasse quantas

e também porque razão as santas

o são!

 

E o cheiro ácido de África

que se entranhava nos corpos

e exalava suores

com sabores de sexo, de guerra e de espera de paz!

 

Desde aqui…

parto deste meu canto

reduto de memória de muitos amores

desejos e sabores

aromas de alfazema

e de azeitona fermentada

armazenada na garagem com portas de castanho

em que meu pai guardava o velho Austin

e que fora outrora moagem

tocada pela religiosidade e arte do velho moleiro Urbano

 

E calo as imagens de tantos amores

ázimos porque não tinham o fermento

do verdadeiro Amor

ainda que o amor seja ele qual for nunca deixa dor

 

Ante o destino frustrado

entristeço de tristeza amarga

calado

macambúzio

sorumbático

armado em vítima

esperando que alguém se apiede de mim

 

Talvez eu próprio

tenha compaixão de mim mesmo

e entre em contrição

 

Para concluir que Deus deverá ter corpo

olhos e ouvidos

pernas e braços

coração e cérebro

mas não é homem como eu

e que Cristo Jesus

apenas é Deus

a contraluz porque padeceu na Cruz

 

Mas se Deus tem corpo com olhos

ouvidos

pernas e braços

coração e cérebro como eu

então também eu poderei ser Deus

como Jesus a contraluz

 

Vale de Salgueiro, 12 de Maio de 2005

Henrique António Pedro

in Angústia, Razão e Nada (Editora Temas Originais – 2009)