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segunda-feira, 2 de março de 2026

Genuflexão



Olho-me

 

A mim me vejo

em mim mesmo

 

Não careço de espelhos para me olhar

reflicto-me nas minhas angústias

no mar de amarguras que me inunda

por fora e por dentro

vivo o advento de um novo tempo

a espera de uma nova era

embora não saiba quem eu sou

 

Expedito

chapinho nos atoleiros que alagam o caminho

em que me reflicto

eu

o Sol

e o céu

quando por instantes a tempestade se amainou

 

O Sol assim reflectido é chama de esperança

é o meu rosto de criança

 

Sou eu que me vejo reflectido

nos atoleiros do caminho

na coragem e no cansaço

no sucesso e no fracasso

na água e na lama

em toda a condição humana

que chapinho

 

Grande é a minha impaciência

amarguram-me as falsas vitórias

as conquistas da Ciência sem tino

presentes envenenados que inovam a guerra

desumanizam a Humanidade

e destroem toda a Terra

 

São tão desmedidas as minhas ambições

que apenas cabem dentro de mim

único sítio com espaço para todos os corações

 

Oro

choro

ajoelho em oração

 

A poesia é a minha genuflexão

 

Vale de Salgueiro, 6 de Fevereiro de 2008

Henrique António Pedro

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Não chores por mim, Argentina



Não chores por mim

Argentina

 

Nem me digas que vais ficar

para sempre

à minha espera

 

A ti, eu jamais direi adeus

 

As lágrimas de amor

e de infundado temor

que vejo luzir em teus olhos

neste meu hesitante partir

sem te dizer se vou voltar

acendem saudades nos meus

 

Pensa antes, amor

nos molhos de poemas e de flores

que te irei ofertar

já na próxima Primavera

 

Mas não me digas, por favor

que vais ficar

para sempre

à minha espera

que me deixas desolado

a pensar

que poderei

não poder

voltar

jamais

 

E eu não quero que seja

assim tão demorado

o teu sofrer

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 3 de Março de 2010

Henrique António Pedro

 

In Mulheres de amor inventadas

Copyright © Henrique Pedro (prosaYpoesia)

1.ª Edição, Outubro de 2013

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O sexo dos anjos


Diz-me

para que mundo etéreo te evolaste

em que céu te refugiaste

também eu quero morrer

em anjo me transfigurar

 

Em que novo mundo te materializaste

em que alma de mulher te escondeste

em que nova forma encarnaste

porque também aí eu quero reencarnar

para te reencontrar

e não mais te perder

 

Nós, humanos

só aqui na Terra podemos namorar

sentir o coração bater

escrever poesia

sofrer de ansiedade

e de nostalgia

sem que saibamos porque sofremos

 

Os anjos, porém

poderão amar todo o tempo

em toda a parte

aqui e além

e sem penar

reflexo de não terem sexo

 

Diz-me

para que mundo etéreo te evolaste

em que céu te refugiaste

também eu quero morrer

em anjo sem sexo e sem nexo

me transfigurar

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 7 de Março de 2012

Henrique António Pedro

 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Da guerra


Ponho-me a filosofar sobre a guerra

que continua a grassar sem graça

por toda a Terra

ora aqui

ora além

 

Para desgraça de tantos

glória de uns quantos

e diria

vitória de ninguém

 

De Gaston Boutul vem-me à memória

a frase lapidar com a qual não concordo

por não querer a guerra branquear:

«Foi a guerra que gerou a História»

 

De outros fenómenos e factos

está a História prenhe:

De miséria, ambição e traição

também de Heroicidade

 e de estreme Santidade

 

Mas é dos instintos de posse e domínio

do vício e do prazer de matar e morrer

da mentira e da dor

da política mais sebenta

que a guerra se alimenta

 

Melhor me ocorre dizer

que a guerra é sem tino

a libido da Humanidade

no masculino

e no feminino

 

E que as sociedades

ainda em idade primária

quase animal

expressam na guerra todo o seu mal

para sobreviver

tirar prazer

se recriar e reproduzir

por espúrios processos de mentira

e de dor

 

Já que a Humanidade

ainda não encontrou melhor maneira

de se organizar na Verdade

E no Amor

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Só o amor se não perde se a vida se perder



Não pára o tempo se o relógio parar


Mas o tempo só tem sentido à medida que passa

o abraço quando se abraça

o fogo quando arde feito chama

e o amor quando se ama

 

Também a vida só tem sentido quando vivida

com amor

e dor

por alguém

 

Apaga-se a paixão quando o coração deixa de bater

perde-se o pensamento

se a razão enlouquecer

tudo se perde

na hora de morrer

 

Só o amor se não perde

se a vida se perder

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Henrique António Pedro

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Desde que passei a usar chapéu


Foi o sol de Verão, pois então

ao dardejar-me o crânio

e ao mordicar-me a pele

capaz de me estrelar os miolos

e de me toldar os olhos

que me impeliu a usar chapéu

ou boné, seu sucedâneo

 

Sou agora um homem diferente

mais aberto

o que aconteceu

recentemente

 

Já o vinha sendo antes, é certo

ainda que sem me dar conta

por cada cabelo que caía

sem me aperceber

é bom de ver

na medida desmedida

da tristeza do dia

em que nova ruga desponta

 

Mas se querem saber a verdade

a idade traz outra luz

novo conceito de beleza

mais respeito e lhaneza

vê-se a vida com outros olhos

se usamos chapéu a preceito

 

Livre de ilusões

o mundo já não me seduz

já não vou em sermões

sou mais fiel à minha fé

tudo se concerta e compõe

ainda assim

 

E a mim

já nada me põe os cabelos em pé

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 28 de Novembro de 2012

Henrique António Pedro