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segunda-feira, 20 de maio de 2019

Para onde vás Luís Vaz



Luís Vaz de Camões
imortal cantor da gesta da lusa gente 
morreu na miséria
indigente

Lembrei-me dele quando também eu passei pela Ilha de Moçambique
a mítica  ilha do mar Índico onde o vate penou de verdade
de mão estendida à caridade
no regresso do Oriente
a penar suas desilusões 

Em sua memória restava um busto de bronze
erigido num recanto entre palhotas e palmeiras 
a servir de pouso aos pássaros que lhe defecavam na cabeça

Não sei se ainda lá estará
se jazerá agora nalgum monturo de inutilidades
nalgum armazém de históricas banalidades
ou se ornamentará o lar dalgum nativo
que nele encontrou magia

Foi lá
e então
que me ocorreu este poema
embora só agora o dê a lume
porque é agora que hoje em dia na minha desilusão mais ardem 
os sentimentos frustrantes de ser português
e por também eu pertencer aos Vaz de Vilar de Nantes
onde o poeta nasceu

Luís Vaz foi um inútil até deixar de o ser
quando a genealidade da sua poesia
gerou ventos e marés
e construiu auto-estradas de sonho

Foi um verdadeiro indigente
mais mal pago que um qualquer operário
que com mais acerto, por certo
lavrava a terra ou caiava paredes

Era um sem-abrigo
semi-anjo
quasi-deus
um extraterrestre sem interesse
a quem o soldo não bastou para regressar
à Pátria que o enjeitou
Poeta e soldado o era onde havia projectos de verdade
de sonho, amor, mistério e poesia
que um dia ergueram um Império de humanidade 
hoje em dia sem utilidade
tanto quanto sei

Para onde vás, Luís Vaz
lá estarei

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 30 de Setembro de 2010
Henrique Pedro

sábado, 18 de maio de 2019

Poema acabado de florir na Primavera




O vento arrasta a chuva por mim a dentro
em bátegas de impaciência

Mergulho numa aborrida dormência

Procuro sinónimos de mim e de Primavera
a mais bizarra sinonímia que posso imaginar

Sou um novelo de liberdade
em que me enredo e emaranho
quando apenas pretendia me libertar

Um emaranhado de amor
de tanto amar

Uma nuvem negra de angústia
uma borbulha de ansiedade
um cachão de raiva
um furúnculo de repulsa
um borboto de lixo
uma ampola de azia
um balão de demência
um poço de loucura
uma câmara de tortura
uma catedral vazia

Acordo

Havia adormecido
sem me ter apercebido
nem dar pelo tempo passar
já há sol a fulgir
lá fora

Sorrio
agora
dentro de mim
qual botão de flor a desabrochar
poema acabado de florir ao romper da aurora

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 29 de Março de 2010
Henrique Pedro



quarta-feira, 15 de maio de 2019

Pára-brisas partido



Chove
Suavemente por agora
Conduzo estrada fora com velocidade moderada não vá a viatura esbarar na estrada molhada
Mais apressadas, gostas de chuva delicadas, deslizam subindo no para-brisas contrárias à lei da gravidade 
Deixam rastos rectilíneos, efémeros, como se de cometas líquidos se tratasse.
Como sonhos que fossem e já não sejam
Também no pára-brisas partido da minha alma há partículas de saudade liquefeitas que sobem velozmente na minha mente qual antolhos que me humedecem os olhos, toldam a visão e encharcam o coração
Quando a chuva aumenta de intensidade acciono o limpa pára-brisas e deminuo a velocidade
Em plena trovoada de Maio acabo por estacionar num desvio de saudade dos tempos em que fui feliz sem o saber.
A imaginar imagens imprecisas
Caio em mim sem querer volto a ser o que sou a estar onde estou
A poesia é o limpa-pára-brisas da minha alma que me ajuda a melhor ver o caminho sempre que caminho sozinho

Vale de Salgueiro, 15 de Maio de 2019

domingo, 12 de maio de 2019

Partilha de Angústia





Uma angústia larvar me apoquenta desde que me conheço
e que em vão procuro decifrar

Não é problema de salário ou de pão

Muito menos da conta da electricidade
da falta de fama ou de glória
ou de males de coração

Sinto-me feliz fora da História
e se a energia eléctrica falhar
passarei bem sem internet e a televisão
porque tenho o sol e as estrelas para me alumiar

Amor?!

Tenho muito para dar 
não para vender
e pão…
até ver não tem sido preocupação

Também não tenho
tanto quanto sei
qualquer glândula avariada
e o meu cérebro não sofreu qualquer pancada

São coisas mais complexas e etéreas que me afligem
e eu não sei explicar

Que tento converter em poesia
com alguma fantasia
e pura vontade de partilhar


Vale de Salgueiro, segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011
Henrique Pedro

quarta-feira, 8 de maio de 2019

De como ser feliz




Sopro a sopro sopra o vento
chama a chama arde a fogueira
raio a raio estala o trovão

Grão a grão se semeia a seara
enche a galinha o papo
sara a ferida o esparadrapo

Monte após monte se ergue a serra
grito a grito se propaga a revolução
sorriso a sorriso se acende a paixão

Dia a dia se ganha a vida
e se adia a morte
verso a verso se compõe a canção

E o fogo como se apaga?
Como se amaina o trovão?

E a seara como se ceifa?
Como se ganha a revolução?

E o poema como se declama?
Como se domina a paixão?

E a morte como se bate?
Como se viaja ao além?

Tudo isto e mais amar
ando eu a aprender
também
poeta
mero aprendiz
de como ser feliz

Quem me diz?


Vale de Salgueiro, terça-feira, 16 de Março de 2010
Henrique Pedro


sexta-feira, 19 de abril de 2019

Um Homem pregado numa Cruz




Bati a todas as portas do Universo
E todos os sábios eu questionei
Com os males do mundo me emocionei
Por toda a parte o clima me foi adverso

Li mil e um livros de prosa e de verso 
Todas as bibliotecas frequentei
Nos melhores laboratórios pesquisei
Procurando um consolo incontroverso

Em todas as igrejas procurei a Luz
Força para sofrer e me manter de pé
Só uma vivência hoje me seduz:

A do Homem Deus que diz, pregado na Cruz:
- Amai o vosso próximo e tende Fé.
Por vós, sofri, com Amor. Sou Cristo Jesus!

Vale de Salgueiro, 27 de Abril de 2008
Henrique Pedro