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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Um pingo de líquida poesia


A torneira do bidé

da casa de banho anexa ao meu quarto de dormir

pinga

pinga

pinga

como alguém que vem pé ante pé

assim com leveza

em postura de tortura chinesa

 

Pinga angústia

alaga-me de ansiedade

incomoda-me de verdade

e logo a mim

uma criatura indefesa

 

Temo que o pingo vá aumentar

de intensidade

ganhar caudal capaz inundar toda a casa

 

A torneira do bidé

da casa de banho anexa ao meu quarto de dormir

pinga

noite e dia

não me deixa dormir

muito menos sonhar

enlevado no abandono do sono

nem mesmo acordado

 

Talvez alguém como eu incomodado

veja nisto um enlevo de fantasia

um pingo de poesia

líquida que seja

 

Safa! Que pesadelo!

Ainda bem que acabo de acordar!

  

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 28 de Março de 2012

Henrique António Pedro

 

Só não sofrem as fragas


Sofrer sofrem plantas e animais

fome

sede

frio

desumanidade

 

Sofrer sofremos nós, humanos

a falta de humanidade

 

Sofremos se somos nós a sofrer

mas sofremos ainda mais

se sofremos com os demais

 

Sofrimento sôfrego

sufragado

langoroso

feito de fráguas e máguas

sofre o poeta amoroso

amargurado

de amor contrariado

a sua maior desgraça

 

Sofrer

só não sofrem as fragas

mesmo se o deflagrar fragoroso

as desfigura

e estilhaça

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

Henrique António Pedro

 

 

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

De poeta e de louco todos temos um pouco


O poeta é um místico

seja ele artista da poesia pintada

tocada

escrita

ou mesmo rezada

 

É alguém que não tem o espírito preso ao corpo

porque o divino sopro

no acto do nascimento

soprou demasiado forte

quase como o vento norte

 

Por isso o poeta se arrasta à sorte

por esse mundo fora

sempre na Lua

de alma nua

aluado

e embora enamorado

deambula pelo Universo

levado nas asas de um simples verso

 

Com os cinco sentidos nem sempre bem aferidos

à procura de arte

por toda a parte

 

É por isso que o povo diz

e não se contradiz

no infinito saber que é o seu:

“De poeta e de louco todos temos um pouco”

 

Mais uns que outros

direi eu

 

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

Henrique António Pedro

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

É de mim que eu menos sei


Julgo saber tudo de mim

mas não será tanto assim

 

Não tenho grandes dúvidas do meu passado

apesar do muito que já esqueci

 

Lembro-me bem do sítio onde nasci

do meu percurso

 

Corri mundo

viajei

vi

vivi

senti

amei

sofri

 

Estudei

aprendi conhecimentos sem fim

artes

ciências

técnicas

 

Conheci pessoas

lugares

mas é de mim que eu menos sei

 

Pouco ou nada sei de mim!

 

Que me importa saber que a Terra é redonda

que os astros se movem no Universo

e coisas assim

se pouco ou quase nada eu sei de mim?

 

Só quando me for dado conhecer-me

saber tudo de mim

quem verdadeiramente sou

perdido entre tantos mil

a coberto de um registo civil

saber o que faço aqui

e para onde vou

então sim tudo saberei

todos os mistérios se revelarão

e todas as dúvidas cessarão

 

Saberei se o Além existe

se é finito ou infinito

o Universo

e qual é o seu reverso

que coisas são o Espaço e Tempo

o Amor e a Verdade

a Santíssima Trindade

 

É a mim que eu procuro conhecer

a chave de tudo está em mim

isso sei

 

Mas…

Quem, ou o quê, sou eu?!

  

Vale de Salgueiro, Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Henrique António Pedro

                                                   

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O Céu pegará fogo, nessa noite



(A minha admiração e respeito para LA e AG que assim interpretaram a Lei)

 

O Cosmos entrará em guerra

nessa noite

 

Desaparecerá do Espaço a Terra

e pegará fogo o Céu

 

Como epílogo sagrado do virtuoso amor

de um homem e duma mulher

que congregados na Fé

guardaram estreme castidade

e assumida virgindade

até decidirem casar à luz dos ensinamentos

assumindo a condição de macho e fêmea

fiéis aos mandamentos

seu heróico fadário e dilema

 

Dotados de alma e coração

e encontrada a alma gémea

a vida não será tão só

dó e calvário

 

Nessa noite

o Cosmos entrará em guerra

desaparecerá do Espaço a Terra

e pegará fogo

o Céu

 

Que nenhum anjo ou demónio ousará apagar

porque é Deus o incendiário

e o Amor é Seu património

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Henrique António Pedro

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

PALAVRAS QUE O VENTO TRAZ E LEVA


É ar a voar pelo ar

o vento

 

É sopro que atiça a brasa mortiça

 

É pensamento a soprar por nós adentro

instrumento de sopro a tocar

pulmão de soprano a cantar

perfume a atear o lume da paixão

 

É ar de aves de asas a adejar

 

É pente que de repente despenteia

a cabeleira da mulher

e que sem querer

lhe dá poético parecer

 

É pé de povo revoltado

balão de vaidade insuflado

até rebentar

 

É bafejo de desejo sem pejo

odre podre a peidar

bufo saído da boca do tartufo

 

É fole a soprar

sem ter nada dentro

 

É verdade

o vento

a varrer o lixo prolixo

das ruas do nosso viver

 

É nuvem de lágrimas

à procura de regaço

onde se verter

 

É respirar ofegante de quem quer vencer

 

É aragem de imagem de verdade e santidade

 

É ar em movimento

o vento

palavras de amor ou sofrimento

que traz leva  

conforme lhe apraz

 

 

 

Vale de Salgueiro, sábado, 24 de Janeiro de 2009

Henrique António Pedro