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sábado, 30 de maio de 2026

Ossos carcomidos, pó, terra, cinza, nada

 


XIX

Ossos carcomidos, pó, terra, cinza, nada

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Nestes dias de chuva aborridos

desta Primavera tardega

tenho os passos pela Natureza

entorpecidos

com o Sol a caminho do crepúsculo

que tarde chega

 

Já as tílias exalam o seu perfume adocicado

que penetra livremente

pela janela escancarada do meu ser

aumentando a incerteza

de ser

de nada ser

ou de ser nada

 

Sou dúvida

duvido do que sou

tenho a certeza

não sei que ser sou eu

 

Se cheiro de terra ressequida

…fertilizada pela chuva abençoada

 

Se lama do caminho

…poeira mais tarde

agitada pelo vento

em pulverinho

 

Se sonho que se evola em nuvem

…para chover poesia

 

Depois se verá

se serei apenas ossos carcomidos, pó, terra, cinza, nada

se espírito triunfante

no seio de Deus

 

Mais seguro será

para já

acreditando

continuar a duvidar

 

Henrique António Pedro

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Os cinco entes que sou

 


XVIII

Os cinco entes que sou

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Afectado de soledade

fascinado de quietude

essa virtual virtude

que leva o corpo a espairecer

diluo-me no tempo

ao entardecer

 

Mergulho o cérebro no éter

que adormece

 

E enquanto o corpo desfalece

e a alma se banha no luar

o espírito põe-se a divagar

 

Assim dividido

melhor me diviso

nos cinco entes distintos que sou

e que andam amarradas à vida

e à sorte:

 

- O corpo que sente

- A razão que raciocina;

- A alma que paira para a morte;

- E o espírito que livre,

 vive

 mas não morre

 

E o outro, ainda

que não sou

mas quero ser

 

Henrique António Pedro

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Vazio de alma

 


XVII

Vazio de alma

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Há momentos de desânimo

de desalento

e de crise de fé

em que me esvazio da alma

me oco por dentro

e mal me consigo

manter-me de pé

 

(E quem

Se não eu

se poderia esvaziar de si?)

 

Momentos em que a angústia

me assalta a Razão

a ansiedade me toma o coração

e o meu espírito nele próprio se comprime

 

Já não é dor exterior

que sinto

é sim sofrimento

interior

 

Então o maior grito

grito-o em silêncio

porque a maior dor

a sinto por dentro

 

Só assim o espírito se redime

Henrique António Pedro

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Um quantum espiritual

 


XVI

Um quantum espiritual

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Desdobro-me

saio de mim

e assim

me vejo por fora

 

Viajo para outro sítio

permanecendo aqui

 

Salto no tempo

mudo de espaço

e vou-me embora

sempre e agora

preso a mim

enredado na ilusão

que me enleia

 

Penetro no meu próprio corpo

viajo por cada artéria e veia

nado nas aurículas e ventrículos

pulmões e testículos

banho-me no coração

 

Balanço-me nos axónios

do meu próprio cérebro

salto de neurónio em neurónio

feito ideia e afecto

homem completo

 

Sou uma ínfima parte de mim

que se não dissocia

 

Um quantum espiritual

uma centelha de bem

outra de mal

 

Uma boa sensação

que me percorre por dentro

me visiona por fora

e viaja pelo Cosmos além

mas não tem dimensão

 

Henrique António Pedro

terça-feira, 26 de maio de 2026

Por vezes carrego o meu corpo às costas

 


XV

Por vezes carrego o meu corpo às costas

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Não raras vezes decido gestos

passos

actos

atitudes

vícios e virtudes

sem bem saber porque o faço

 

É o meu corpo que me leva

e sou eu que me deixo ir

por prazer

por medo

por dor

por fantasia

 

Outras vezes, porém

sou eu que carrego o meu corpo às costas

e o forço a ir comigo

se acaso ele se recusa a ir

pelos caminhos do amor

da verdade

da poesia

e das normas a que me obrigo

 

É o sopro do espírito que sou

sobre o corpo que é meu

mas não sou eu

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Fim do infinito, princípio da eternidade

 


XIV

Fim do infinito, princípio da eternidade

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Só tem sentido a Eternidade

porque há relógios a contar o tempo

sem cessar

 

Só tem sentido o Infinito

porque há réguas a medir o comprimento

sem se esgotar

 

Poderá o início do tempo

e o princípio do espaço

o homem sincronizar

jamais seu fim determinar

 

O fim da dúvida

é o princípio da verdade

e o fim da dor

o início da felicidade

 

O Absoluto

é instituto de anjos

atributo de Deus

no qual crentes e ateus

infinito e eternidade

dúvida e verdade

amor e dor

acabarão por se consumar

 

E o fim do Infinito é o princípio da Eternidade

 

Henrique António Pedro