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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Quando o espírito se liberta

 


XXV

Quando o espírito se liberta

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Só quando acordamos

embora nem sempre

nós nos damos conta de que sonhámos

algum sonho emergente

 

Sonhos que não morrem ao acordar

antes se tornam realidade

para o bem e para o mal

no fantástico mundo real

o real mundo da fantasia

feito de tristeza e de alegria

 

Isto me leva a deduzir

que o espírito está desperto

mesmo se estou a dormir

 

Oh, que ideia mais contraditória!

 

Mesmo se acordado

procuro a alma

e não a encontro

em nenhum lado

 

porque o espírito vive nele

e só raras a vezes a Razão

dele guarda memória

 

É nos mais sentidos sentimentos de dor

que a alma mais se manifesta

e é no mais puro amor

que o espírito se liberta

 

Henrique António Pedro

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Procuro sair vivo da vida

 


XXIV

Procuro sair vivo da vida

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Nesta permanente aventura

que é viver

na Terra

já vivi a guerra

a revolução

a dor

o amor

a doença

a indolência

a paixão

e sobrevivi

 

Que são

de resto

a ciência

o sonho

a fantasia

a arte

a poesia

a religião

que não

lutas pela sobrevivência?

 

Daí que a minha aposta

seja lutar

e triunfar

 

Sair vivo da vida

como de outra aventura qualquer

sobreviver

ao próprio acto de morrer

Henrique António Pedro


 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Porque vivo, se morro?!

 


XXIII

Porque vivo, se morro?!

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

Porque amo se sofro?!

 

Porque me angustio se daí nada resulta

e nenhum sacrifício tem sentido?!

 

Porque escrevo poesia

se por essa via

não se aplaca

o mal

do Mundo?!

 

Porque existo

se Deus não existe?!

 

E porque vivo

se morro?!

 

Talvez porque sofro

para aprender a amar

e a minha angústia

e a minha poesia

sejam só indícios

de uma felicidade maior

 

Talvez porque Deus existe

e eu não morro

 

Só poderá ser

Henrique António Pedro

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Porque sofro? E para que amo?

 


XXII

Porque sofro? E para que amo?

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Poderão vir agora dizer-me que o pecado original nunca existiu

que Adão e Eva não passam de um mito

que o paraíso terreal é uma fábula

que a verdade é relativa

e que é difícil separar o bem do mal

 

Então porque sofro e me angustio

se para tal não encontro razão?

E para que amo

se amar não leva a lado nenhum?

 

Porque não me mato já

e antecipo a morte certa?

Ou porque não me limito a viver

a meu bel-prazer

nem que para tanto tenha que mentir, matar e morrer

se preciso for?

 

Porque acredito haver uma razão de ser

para o sofrimento

e uma finalidade maior para o amor

 

Para lá da vaidade

do efémero prazer

da vertigem do poder

da luta pela sobrevivência

da curiosidade da ciência

ou da glória apetecida

 

A procura da razão de ser da dor

e da finalidade maior do amor

é, em meu entender

o sentido de viver a vida

Henrique António Pedro

domingo, 31 de maio de 2026

Porque não dá a cara, Deus?

 


XXI

Porque não dá a cara, Deus?

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Porque não é categórico, Deus

e prefere manter-nos na dúvida?

 

Porque não nos diz o que quer

de uma vez por todas?

Porque não nos livra em definitivo

de tanta dor, tragédia e miséria?

 

Porque não se mostra

e se esconde no Cosmos

por de trás dos astros

e apenas nos fala sibilinamente

por sinais interiores ditos de fé

pelo cintilar das estrelas

ou pelo rugido dos trovões?

 

Porque se oculta em igrejas e religiões

e só timidamente se revela no mistério dos santos

e nessa Sua maior manifestação que é o Amor?

 

Porque entendeu transfigurar-se

numa Sua humana criatura

na pessoa de Jesus Cristo

e O pôs a sofrer tamanha agrura?

 

Porquê?

 

Talvez…

(Também eu não quero ser categórico

nem definitivo…)

 

Talvez porque se assim não fosse

não teria sentido

o Seu projecto da Criação

 

E o ser humano mais não seria

que um epifenómeno

um ser telecomandado

embora animado

energúmeno

incapaz de se autodeterminar

e de em Espírito se reconstruir

de condicionar o devir

para a Ele retornar

Henrique António Pedro

sábado, 30 de maio de 2026

Poeta protótipo de anjo



XX

Poeta protótipo de anjo

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Algo eu sou

e sou eu

não sou fidalgo

centauro

ou plebeu

simplesmente sou

 

Não sou omisso

não sou nada disso

 

Sou crente

não sou demente

 

Sou homem

não sou mulher

não um animal qualquer

 

Não sou alto nem sou baixo

sou branco não de cor

não sou nada

sou alguém

 

Ando e corro

não voo

choro e rio

caminho de pé

 

Não me evadi

não fugi

de ninguém

 

Cidadão

artista

não sou concertista

não sou artesão

tocador de banjo

contrabaixo

doutor

 

Sou esteta

de mente aberta

ténue de esperança

de frágil fé

 

Sou poeta

protótipo de anjo

tão só

Henrique António Pedro