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terça-feira, 5 de maio de 2026

Dou-me conta de que estou a levitar

(in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016))

Agora mesmo

como se não houvesse amanhã

nem tivesse havido ontem

 

Como se não tivesse existido a hora passada

e vivesse ausente do presente

há já uma eternidade desmemoriada

 

Agora mesmo

sem um relevante pensamento

um apetite evidente

uma ideia emergente

 

Na tranquilidade absoluta

de quem não vai nem vem de nenhuma luta

 

Sem dar conta do tempo passar

sem um zunido sequer que me possa enervar

fora ou dentro dos ouvidos

 

Com todos os sentidos a funcionar esplendidamente

tanto que nem eles se dão conta de si

por nada terem que a mim me dizer

 

De corpo relaxado

e de espírito enlevado

de cérebro todo tomado pela consciência

e a consciência a monitorizar apenas a alma

 

Sem amor

sem ódio

fantasia ou contrição

tristeza ou alegria

teoremas ou dilemas

sem motivos de glória ou de frustração

 

Em puro estado de graça de poesia

de cordão umbilical bamboleante preso a este poema

 

Agora mesmo

dou-me conta de que flutuo

 

Concluo que estou a levitar 

 

Vale de Salgueiro, sábado, 5 de Maio de 2012

Henrique António Pedro

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Ora aqui, ora além, a orar

 


 


Por veredas e caminhos rurais

pedregosos

que ora sobem

ora descem

sinuosos

exercito músculos

tendões

e articulações

 

Caminho

com o cérebro a comandar

e lembranças da infância

em surdina

a chamar

 

Com o espírito ora aqui

ora ali

ora além

a orar

saudade

 

Por sítios do passado

a que voltarei

sempre

nunca

nem sei

jamais

 

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016) 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 23 de Julho de 2009

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

No centro do Universo


Ao cair da tarde

levantou-se docemente

uma brisa suave

para embalar a Natureza

e convidar humanos e animais

seus iguais

a adormecerem

serenamente

 

Ergueu-se no horizonte, de repente

a Lua cheia

grávida

resplandecente

em perseguição do Sol

que se escondia por entre nuvens

para se não deixar apanhar

por não querer assumir

a paternidade

 

Até que a noite caiu, suavemente

e a Lua abriu o regaço diáfano

polvilhando o Firmamento

com as estrelas cintilantes

que salpicam com fantasia

o humano entendimento

 

Tudo isto aqui na Terra

bem o centro do Universo

em que a Humanidade

continua a adormecer

e a acordar

na paz e na guerra

até um dia poder compreender

porque se esconde a Verdade

em tão sigilosa poesia

 

Vale de Salgueiro, Domingo, 31 de Agosto de 2009

Henrique António Pedro

 

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Este meu canto é um pranto


Este meu canto é um pranto

que canto para me olvidar

daquela vez que sorri

sem saber o que fazia

tão pouco que me perdia

 

Agora sei que me perdi

porque de amor me prendi

muito embora todavia

continue a cantar

este meu canto que é um pranto

 de amor e saudade

 

Não por gosto de penar

ou por gozo de sofrer

tão só para esquecer

este amor que é dor

tão dolorosa verdade

 

Já me dói o peito

deste meu modo de cantar

deste meu jeito de amar

 

Vale de Salgueiro, domingo, 8 de Novembro de 2009

Henrique António Pedro

 

 

 


terça-feira, 21 de abril de 2026

TÂO FELIZES QUE ELES ERAM!


Sim

eram felizes

apenas

e só

porque se amavam

 

E que tão felizes eles eram

embora sem o saber!

 

Deixaram de o ser

quando deixaram de se amar com pureza

procurando a felicidade noutras paragens

deslumbrados por outras imagens

miragens de prazer

poder

e riqueza

 

Pretendendo ser mais felizes do que eram

recorrendo a artifícios

e sacrifícios

infelizes

que desvirtuaram a felicidade

com que Deus os bafejara

 

Iludindo a poesia

adulterando-lhe o sabor

convertendo a vida em futilidade

deixando de viver o amor

com verdade

 

Tudo deitaram a perder!

 

Ainda lhes resta

uma réstia de felicidade

porém

 

Na saudade que agora

com dó

sim

lhes assola o coração

 

Ainda bem!

 

Poderão voltar a ser felizes

ainda assim

a reviver com verdade o romance

que continua ao seu alcance

apesar da idade

 

Basta voltar a se amar

apenas

e tão só

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Henrique António Pedro


 

domingo, 19 de abril de 2026

Revelação


Sem terra nem mar

fora do espaço

e do tempo

sem rumo

ou norte

não sei que faço

 

Caminho por mim adentro

de ambição perdida

o meu destino é amar

ir além da vida

e da morte

 

Por entre rasgos da Razão

e da sorte

a minha vida avança

no terreno árduo

do sentir

 

Ainda assim

porém

ouso ir

mais além

em meus sonhos de criança

 

Reconhecer-me no espírito desperto

que me anima a alma

e me habita o corpo

de que me liberto

por sopro do vento de verdade

na esperança da eternidade

 

Transfigurar-me na lógica do amor

tese do bem

antítese da dor

práxis de revelação

 

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Henrique António Pedro