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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Uma doce, terna e triste alegria


in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

 

Nunca se faz silêncio

dentro de mim

 

Acontece

por vezes

ser tão estridente o ruído interior

que o mundo exterior se silencia

ainda assim

 

Ou talvez seja eu que deixo de ouvi-lo

por mais que ele continue a invetivar-me

a chamar-me à luta

à disputa de troféus que não me interessam

e que jamais serão meus

 

Os ruídos fragorosos desta minha batalha

começam na surdina do passado

e ecoam

ribombando

futuro adentro

no mais estreme silêncio

 

Embala-me a terra

na ausência de minha mãe

 

Amparo-me às árvores que meu pai plantou

agora que partiu

 

E aqueço-me à lareira da poesia

na qual a minha alma eterna arde

em doce, terna e triste alegria

acesa de saudade

 

Vale de Salgueiro, sábado, 28 de Janeiro de 2012

Henrique António Pedro

 

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

AVES EM DEBANDADA A DIZEREM ADEUS



Viviam os dias

leves

livres

felizes

quais aves a voar em bando

 

De asas a adejar

a acenar

amando

 

E as noites pousados nos ramos das árvores paternais

a sonhar

 

Era assim o seu brando viver

a voar em bando

sem imaginar

jamais

o que seria

emigrar

 

Até que um dia cada um rumou para seu lado

por força de futuro mais ambicionado

qual debandada de aves a voar

de asas a adejar

a acenar

 a dizerem adeus

aos seus


Para não mais voltarem ao lar

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 16 de Março de 2010

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Labaredas de lembranças


Fito a lareira bruxuleante

de coração ao fogo exposto

com as labaredas as lambem-me o rosto

com seu morno calor

 

São raízes que ardem

e me aquecem sem me queimar

 

São lembranças de amantes

que me enlaçam

inebriantes

e uma após outra me vêm

beijar

 

São labaredas de lembranças

quimeras de amor

que aparecem e me aquecem

mas de pronto se esquecem

fugaz é o seu fulgor

 

Estendo-lhes a mão

ainda assim

sem dilema

para as acariciar

 

Guardo para mim este poema

que é cinza tépida

prateada pela recordação

que de pronto sopro

do coração

 

Vale de Salgueiro, Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2012

Henrique António Pedro


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Um nada ninguém



in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

 

Sou um nada

ninguém

 

Alguém que caminha ao cair da tarde

por chão atapetado de pétalas de flores de tílias

perfumadas

a derramar paz e amor por onde passa

à procura de deixar de ser

um nada ninguém

num amanhã

que tarda

 

Maior glória ninguém poderá sentir

que derramar paz e amor por onde passa

e ainda acrescer o silêncio do mundo

num silencioso devir

 

Só assim

livre

a minha angústia poderá partir

e voar

e me deixar não ser

amanhã

um nada ninguém

 

E nada mais me poder perturbar

ainda mais

 


Vale de Salgueiro, domingo, 27 de Junho de 2010

Henrique António Pedro

 

sábado, 10 de outubro de 2026

A minha alma tal qual eu a sinto



Tal qual eu me sinto

me ouço e me vejo

a minha alma é muito mais que um louco desejo

 

Ademais, não é branca ou negra

etérea ou transparente

deliquescente

ou vaporosa sequer

 

Tão pouco é uma luz interior

magenta

alada

prateada

cor-de-rosa

ou cinzenta

 

Ainda assim

é um vórtice de amor dentro de mim

que anseia tudo ao redor envolver

ao som da melodia cósmica sinfónica

 

É a vontade de a Terra inteira abraçar

o Céu, Estrelas e Galáxias

o Universo intemporal

e tudo à vida devolver

em explosão de amor sideral

 

A minha alma tal qual a sinto

e pressinto

é um sopro de sentimentos

um emaranhado novelo de desvelos

afectos e pensamentos

 

É a radiação do meu cérebro que afago com a mão

ao ritmo do pulsar do meu coração

 

É o meu eu que anima o meu corpo

a voar para Deus

Universo fora

Espírito adentro

feito vento

 

A minha alma tal qual eu me sinto

é o tudo todo que sou eu

 

A minha alma tal qual eu me sinto

sou eu

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Henrique António Pedro

 

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

De nada serve a luz do dia quando nos amamos à noite



Fecho os olhos

para melhor a ver

com as minhas próprias mãos

 

Guardo no cérebro o seu olhar sedutor

e para melhor a perceber

também abro olhos em cada dedo das mãos

em cada poro da pele

 

Os meus ouvidos ouvem tudo o que tem para me dizer

diga-o ou não

mesmo quando em silêncio

se entrega à devassa dos meus braços

ao esquadrinhar dos meus dedos

 

Ademais o seu corpo ganha fluorescência de tanto prazer

acaba por iluminar o meu

e flutuar no céu

 

Até nada mais haver para ver

ouvir

dizer

apenas e só

sentir

 

Senti-la

eu

a ela

sentir-me

ela

a mim

 

De nada serve a luz do dia quando nos amamos à noite

na doce obscuridade da mais estreme intimidade

e em silêncio

com esfuziante alegria interior

fora do tempo

 

Em transe de êxtase

 

Em arrebatamento de amor

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

Henrique António Pedro