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domingo, 16 de agosto de 2026

Pequei. Mea culpa



Mea culpa

 

Pequei

porque sem querer

me apaixonei

não há volta dar

 

Pequei ainda que em abstracto

por pensamento

palavra

desejo

e olhar

 

Ainda que não por acto

porque tal ensejo

me não foi dado consumar

 

Ela é por demais bela

insinuante

e sensual

de morrer só de se ver

 

Cruelmente tentadora

embora não livre de compromissos matrimoniais

e uma mulher assim

não me é dado a mim

amar

jamais

 

E também é pecadora

mais que eu

só porque se insinuou

abertamente me tentou

mas na hora da verdade

pede-me desculpa

diz que lamenta

e piedosamente se afasta

 

Mas a mim a minha falta me basta

por isso aqui venho pedir perdão

de alma aberta

e cumprir a minha pena

sob a forma de poema

 

Deus já relevou o meu pecado

certamente

atendendo à minha condição

de poeta

 

Sinto-me arrependido

desolado

de verdade

 

Espero não ser surpreendido

por uma segunda oportunidade

 

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 15 de Abril de 2010

Henrique António Pedro

 

 

sábado, 15 de agosto de 2026

Procuro-me a mim e encontro Deus


in Angústia, Razão e Nada (Temas Originais, Lda- 2009)

 

Procuro-me a mim

No fascínio do horizonte dalém

Composto das mesmas cristas de montanhas

De que é feito este horizonte daquém

Em que aqui me sento e reflicto

 

São montanhas de dúvidas e angústias

Organizadas em dentes de serras

Feitas de ansiedade e sofrimento

 

O mesmo silêncio e solidão

Me envolve em luz e som

Se fecho portas e janelas

Se me isolo e afogo

Na vertigem sem horizontes de uma discoteca

 

E a minha angústia se exacerba

Quando me dou conta que sou imortal

E me sinto acorrentado sem saber porquê

 

É então que Deus deixa de ser um pesadelo

Um novelo de angústia e ansiedade

Uma turva vidraça de dúvida e silêncio

 

Procuro-me a mim e encontro-O a Ele

A responder ao meu apelo

De esperança e verdade

 

E assim

Já não tenho espaço para morrer

O Cosmos inteiro não é suficientemente amplo

Para tanto


Vale de Salgueiro, 5 de Outubro de 2007

Henrique António Pedro

 

       

 

 

domingo, 9 de agosto de 2026

O imortal morreu



(Honni soit qui mal y pense)

 

O imortal morreu!

 

Foi a enterrar com pompa e circunstância

concorrido foi o funeral

 

Não consta que haja ressuscitado

pelo menos até ver

a menos que ande disfarçado

ou esteja escondido nalgum lugar

à espera de voltar a morrer

quando melhor lhe aprouver

 

O imortal morreu

contrariamente ao que se previa

tal era o seu brilho e vaidade

mas nenhum milagre

aconteceu

para tristeza dos seus

 

Persiste, contudo, a esperança

de que venha a ressuscitar

em mais asados tempos

quando os ventos

soprarem a desconfiança

de vir a vagar

o lugar

de Deus

 

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 24 de Junho de 2010

Henrique António Pedro

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

De gritos e de apitos


A gota da clepsidra
de areia ou de água
regula a vida
com alegria ou mágoa

O som do diapasão
afina o tom
do violão

O sinal do sino tem o dom
de convidar à oração

Já o longo ecoar do gongo
mais parece um lamento
a ecoar no tempo

 

A toque de caixa

todo o soldado se rebaixa

 

Só o som da vuvuzela
iguala o gazear da gazela

O rugido de leão
na savana
a ninguém engana

O barrido do elefante
que raspa o chão
tonitruante
deixa zunido enorme
no ouvido

mas não faz esquecer
o gemido de fome
seja de amor
ou de pão

 

Som que toa à toa

só mesmo o do coração

desafinado de paixão

 

Só o silêncio da morte

de todos o som mais forte

causa dor
e ecoa na Razão

 

A quem tem o dom

do grito, do apito e do assobio

ninguém tira o pio

 

Vale de Salgueiro, domingo, 20 de Junho de 2010

Henrique António Pedro

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Ser poeta não é profissão


Ser poeta não é profissão

não

 

É predisposição

estado de alma

forma de beleza

força da natureza

 

Ser poeta é como ser herói

santo

explorador

aventureiro

pioneiro da conquista do Everest

ainda que a sua poesia não preste

 

Ser poeta não é profissão

não

 

Nenhum poeta celebrado

se alimenta de pão

com poesia amassado

 

O poeta é um visionário diletante

para quem a vida é um fadário

um fluxo refluxo

constante

de tristeza

e de alegria

 

Ser poeta não é profissão

não

 

O poeta é um missionário

voluntário

com a poesia por missão

  

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 15 de Abril de 2010

Henrique António Pedro

 

 

 

 

domingo, 2 de agosto de 2026

Bem-aventurados


Bem-aventurados
são
hoje em dia
todos aqueles que vivem afastados
ou são ignorados pelos mass media
rádios, televisões, internet, jornais


Bem-aventurados
são
hoje em dia
todos aqueles que não são, jamais
dados nem achados
de escândalos, tragédias ou comédias
protagonistas de hipócritas obras de caridade


Bem-aventurados
são
hoje em dia
todos aqueles que vivem a vida com simplicidade
que granjeiam, com verdade, o pão do dia a dia
e amam e sofrem
no silêncio do seu coração

Bem-aventurados
são
hoje em dia
todos aqueles que morrem em silêncio

docemente
em discreta dignidade
chorados com sinceridade
por amigos e familiares
e sem pompa nem circunstância

 

Morte velada por santos e anjos

indiciando que a sua entrada no reino dos céus
não lhes será vedada

certamente


Vale de Salgueiro, quinta-feira, 13 de Novembro de 2008
Henrique António Pedro