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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Este infausto acontecimento de viver apaixonado


Ando a torcer

a retorcer

a espremer palavras

a bolsar ideias

iludido de que ando a pensar

mas não penso

 

Apenas sinto

a mim mesmo minto

e sôfrego

sofro

 

Dando asas a poemas

a este magno sentimento

infausto acontecimento

de viver apaixonado

 

Não de uma paixão qualquer

embora meta muito amor de mulher

quantas e quem nem eu sei bem

 

Apaixonado do amor que tenho à vida

da alegria de viver que ainda assim me angustia

e a mim me faz sofrer

 

Do medo da morte

do temor de não saber

do que por azar ou sorte

me espera no Além

 

 

 

 

Vale de Salgueiro, 17 de abril de 2017

Henrique António Pedro

 

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Felizmente existe a Poesia



o Universo é uma enormidade

a Terra uma raridade

e a Vida um acidente

 

A Inteligência, essa, surgiu por acaso

de uma mente doente

 

O Bem e o Mal não existem

e a Paz e a Guerra coexistem

 

O Amor é mera fantasia

produto da moderna alquimia

a dignidade não passa de uma “boutade”

e a verdade de uma pilhéria

 

Oh, como me repugna ver-me a mim

assim

reduzido à matéria

ao mundo

ao corpo

ainda que engrandecido por quem me estima!

 

Não!

Não vou ignorar o sonho

a fantasia

o Espírito

e este suave sopro que me anima!

 

Felizmente

existe a Poesia!

 

 

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Um pingo de líquida poesia


A torneira do bidé

da casa de banho anexa ao meu quarto de dormir

pinga

pinga

pinga

como alguém que vem pé ante pé

assim com leveza

em postura de tortura chinesa

 

Pinga angústia

alaga-me de ansiedade

incomoda-me de verdade

e logo a mim

uma criatura indefesa

 

Temo que o pingo vá aumentar

de intensidade

ganhar caudal capaz inundar toda a casa

 

A torneira do bidé

da casa de banho anexa ao meu quarto de dormir

pinga

noite e dia

não me deixa dormir

muito menos sonhar

enlevado no abandono do sono

nem mesmo acordado

 

Talvez alguém como eu incomodado

veja nisto um enlevo de fantasia

um pingo de poesia

líquida que seja

 

Safa! Que pesadelo!

Ainda bem que acabo de acordar!

  

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 28 de Março de 2012

Henrique António Pedro

 

Só não sofrem as fragas


Sofrer sofrem plantas e animais

fome

sede

frio

desumanidade

 

Sofrer sofremos nós, humanos

a falta de humanidade

 

Sofremos se somos nós a sofrer

mas sofremos ainda mais

se sofremos com os demais

 

Sofrimento sôfrego

sufragado

langoroso

feito de fráguas e máguas

sofre o poeta amoroso

amargurado

de amor contrariado

a sua maior desgraça

 

Sofrer

só não sofrem as fragas

mesmo se o deflagrar fragoroso

as desfigura

e estilhaça

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

Henrique António Pedro

 

 

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

De poeta e de louco todos temos um pouco


O poeta é um místico

seja ele artista da poesia pintada

tocada

escrita

ou mesmo rezada

 

É alguém que não tem o espírito preso ao corpo

porque o divino sopro

no acto do nascimento

soprou demasiado forte

quase como o vento norte

 

Por isso o poeta se arrasta à sorte

por esse mundo fora

sempre na Lua

de alma nua

aluado

e embora enamorado

deambula pelo Universo

levado nas asas de um simples verso

 

Com os cinco sentidos nem sempre bem aferidos

à procura de arte

por toda a parte

 

É por isso que o povo diz

e não se contradiz

no infinito saber que é o seu:

“De poeta e de louco todos temos um pouco”

 

Mais uns que outros

direi eu

 

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

Henrique António Pedro

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

É de mim que eu menos sei


Julgo saber tudo de mim

mas não será tanto assim

 

Não tenho grandes dúvidas do meu passado

apesar do muito que já esqueci

 

Lembro-me bem do sítio onde nasci

do meu percurso

 

Corri mundo

viajei

vi

vivi

senti

amei

sofri

 

Estudei

aprendi conhecimentos sem fim

artes

ciências

técnicas

 

Conheci pessoas

lugares

mas é de mim que eu menos sei

 

Pouco ou nada sei de mim!

 

Que me importa saber que a Terra é redonda

que os astros se movem no Universo

e coisas assim

se pouco ou quase nada eu sei de mim?

 

Só quando me for dado conhecer-me

saber tudo de mim

quem verdadeiramente sou

perdido entre tantos mil

a coberto de um registo civil

saber o que faço aqui

e para onde vou

então sim tudo saberei

todos os mistérios se revelarão

e todas as dúvidas cessarão

 

Saberei se o Além existe

se é finito ou infinito

o Universo

e qual é o seu reverso

que coisas são o Espaço e Tempo

o Amor e a Verdade

a Santíssima Trindade

 

É a mim que eu procuro conhecer

a chave de tudo está em mim

isso sei

 

Mas…

Quem, ou o quê, sou eu?!

  

Vale de Salgueiro, Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Henrique António Pedro