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terça-feira, 17 de março de 2026

Escrevo poesia para me dar


Não escrevo poesia para me exibir

fingir

fugir

comprar ou vender

 

Para mostrar poderes que não tenho

glórias que não mereço

 

Para me libertar de taras ou manias

ou dar asas a vaidades ou fantasias

 

Escrevo poesia primeiro

para quem me ler

é bom de ver

e depois para mim

para que possamos reflectir

e nos divertir

por inteiro

 

Escrevo poemas que são dilemas

pelos quais espreito

me mostro

e me escondo

por entre sonhos e ilusões

 

Escrevo poesia para me enlaçar

com amor

com o Cosmos

e outros corações sentir

bater

 

Escrevo poesia para me dar

com alegria

a quem me quiser receber

mesmo sem nada

em troca

esperar

receber

 

Vale de Salgueiro, domingo, 30 de Novembro de 2008

Henrique António Pedro

 


segunda-feira, 16 de março de 2026

Big Bang


Tudo está explicado

ou em vias disso

embora sem compromisso

algum

 

Uma grande explosão

Embora sem ruído nenhum

ao invés de nos matar

nos fez nascer

 

Mas como não havia Espaço

nem Tempo

ficamos sem saber quando

nem onde

tal explosão aconteceu

 

Muito menos o «porquê?»

ou o «para quê?»

a razão de ser de tal fenómeno acontecer

apenas o «como» nos é dado perceber

 

Terá sido o bíblico «fiat lux»

que nos poe os olhos em bico

nos faz explodir a razão

e nos leva a admitir

já no espaço e no tempo

com água, calor e vento

o big bang da Vida?

 

Porque não!

 

Só o big bang do Amor

porá fim à dúvida, por certo

e anulará toda a dor

por força da Iluminação

 

Entendo o esforço da Ciência

não como uma evidência

mas como um louvor

uma prece

a mais sublime oração

que bem merece

o Criador

 

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 30 de Março de 2010

Henrique António Pedro

 

 

sexta-feira, 13 de março de 2026

A Rosa de Verín


Um dia sorriu para mim

uma rapariga amorosa

que se chamava Rosa

e era de Verín

 

Encontrámo-nos amiúde

no idílico açude

praia do rio Tâmega

alfa e ómega

do amor transfronteiriço

 

Tanto que a raia, terra de ninguém

de alecrim e congossa engrinaldada

passou a ser a nossa mátria amada

 

Trocávamos beijos e abraços

desejos e promessas

laços de fraternidade

em derramado derriço

 

Com a língua galega

e a portuguesa

em meças de beleza

e irmandade

na alegria e na poesia

 

O meu coração se ouriçou de dor

porém

quando um dia, à catraia

não sei que lhe dou

outro amor entranhou

lá para os lados de Ourense

muito além da raia

 

Não sei que mais diga

ainda que mal não pense

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 10 de março de 2026

A mim dá-me para a poesia


A esta angústia maior que me aflige cada dia

respondo com poesia

 

Fico um tanto mais consolado

embora não de todo aliviado

 

Há quem fume e quem beba

mas porque tal me causa tão incómoda azia

a mim dá-me para a poesia

 

Para abafar angústias estranhas

ideias tresmalhadas

sensações entranhadas

cólicas nas entranhas

que me desassossegam por dentro e por fora

e que o vento as não leva embora

 

Para transformar medo em coragem

ódio em amor

prisão em liberdade

raiva em tranquilidade

fracasso em glória

mentira em verdade

saudade em presença

maldade em inocência

indiferença em solidariedade

vício em temperança

fome de sexo em paixão

para aliviar dores de coração

 

E para sufragar os gritos de milhares de irmãos cuja vida é uma mortalha

que sofrem e morrem sem que ninguém lhes valha

versos e mais versos a poesia me cicia

 

A mim dá-me para a poesia

como se vê!

 

Vale de Salgueiro, 5 de Fevereiro de 2008

Henrique António Pedro

 

domingo, 8 de março de 2026

Sopra o tempo como se fora o vento a soprar


Sopra o tempo…

como se fora o vento a soprar

do passado relembrado

para o futuro

obscuro

 

Sopra o tempo…

como se fora o vento a soprar

vendavais de História

que varrem da memória

a verdade

 

Sopra o tempo…

como se fora o vento a soprar

silêncio

soledade

quietude

queixume
nostalgia

no ouvido do poeta que de alma aberta

se devota

à virtude da poesia

 

Sopra o tempo…

como se fora o vento a sibilar

nas árvores frondosas

odes cósmicas melodiosas

miragens de eternidade

 

Melhor se ouve o vento do tempo

a enrolar no escuro

horas

minutos

segundos

na azafamada ida e vinda

no momento da despedida

na demora desmedida

na espera angustiada

na alegria da chegada

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

Henrique António Pedro 

imagem: La nevada (o El invierno) de Francisco de Goya, 1786

 

 

 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Enquanto houver morte haverá esperança


Mergulho no passado

nos tempos em que fui feliz

sem saber

o meu coração sente

e me diz

desolado

que não é futuro o presente

antes é para esquecer

 

Presente é perjuro

farsa

desesperança

desgraça

viver é sofrer e penar

e morrer poderá não ser

deixar de viver

 

Enquanto houver morte haverá esperança

de que nos podemos salvar

e nos vir a reencontrar

num mais amoroso devir

 

Esperança de viver

a sorrir

mesmo depois de morrer

 

Há que viver e acreditar

 

Vale de Salgueiro, sábado, 18 de Agosto de 2012

Henrique António Pedro 

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016” 

Copyright:  Henrique António Pedro