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sábado, 13 de junho de 2026

Estado de alma estranho ao sentir

 


XXXIX

 

Estado de alma estranho ao sentir

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

Há um certo estado de alma estranho ao sentir

espécie de efervescência anímica

que ainda não sei definir

 

Estado ainda não catalogado no léxico corrente

que não foi tratado na revisão ortográfica vigente

nem consta de nenhum tratado de psicologia clínica

 

Não se trata de angústia

nem de ansiedade

não é dúvida

nem falta de vontade

dor interior ou exterior

 

Não é aborrecimento nem saudade

contentamento ou felicidade

náusea ou fastio

alegria ou desilusão

medo da morte ou vontade de morrer

premonição ou alvedrio

 

É uma espécie de apatia activa

uma alegoria de iluminação

 

Um desejo de fugir daqui

e de mim

sem saber para onde ir

 

Henrique António Pedro

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Entre mim e mim

 


XXXVIII

Entre mim e mim

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

A minha vida é um monólogo constante

entre mim e mim

um diálogo surdo permanente

entre mim e Deus

 

E quem mais fala é Deus

ainda que eu tudo a mim me diga

e Deus

a mim

não me diga nada

 

Com os outros

e com o mundo

o meu diálogo é ruidoso de palavras

e de emoções

de interacções de toda a substância

forma

e condição

ainda que nem sempre se fale com o coração

entre nós

 

Por isso ando desconfiado

de que Deus comigo se mantém calado

e que opta por falar comigo

pela voz de outros

e do mundo

 

Mas lá bem no fundo

o que eu queria

mesmo

era ouvir Deus

directamente

 

Transformar o solilóquio

em colóquio

 

Ouvir Deus falar

de viva-voz

dentro de mim

Henrique António Pedro

Enquanto houver morte haverá esperança

 


XXXVII

Enquanto houver morte haverá esperança

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Mergulho no passado

nos tempos em que fui feliz

o meu coração sente

e me diz

desolado

que não é futuro

o presente

 

Antes é perjuro

farsa

desesperança

desgraça

e viver é sinónimo de morrer

 

Mas enquanto há morte

há a esperança

de que nos podemos salvar

e vir a reencontrar

em amoroso devir

 

Esperança de viver

antes e depois de morrer

 

Não importa viver

para sofrer

e penar

nem morrer

para deixar de viver

 

Há que viver e acreditar

Henrique António Pedro

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Em mim não acredito e de Deus desconfio que só Ele me poderá valer

 


XXXVI

Em mim não acredito e de Deus desconfio que só Ele

me poderá valer

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

O Cosmos de meu avô João

era toda a terra em que à luz das estrelas

semeava pão

 

O meu

é todo o espaço-tempo

em que planto poemas

eivados de dilemas

e de contrição

 

Cosmos infinito

mas pequenino

o meu!

 

Do tamanho do silêncio

indiferente

de Deus

 

Magistério de mistério

que professo como monge

porfiando poesia

 

A gritar poemas sem tino

e a acenar

a acenar

na esperança de que alguém

me virá salvar

 

Se é que não ando a deitar

tudo a perder

 

Em mim não acredito

e de Deus desconfio

que só Ele

me poderá valer

 

Henrique António Pedro

A mim Deus nada me diz

 


XXXV

A mim Deus nada me diz

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Angustia-me o dia-a-dia

aborrece-me a vida

temo a morte

 

Deus diz-me silêncio

somente

 

A mim Deus nada me diz

 

O rufar do trovão

o fragor do mar

o rugir do vulcão

o vento norte

metem-me medo

mas nada mais me dizem

 

Também nada me diz

o que os outros

de Deus

me dizem em segredo

 

Que tem Deus a ver com a minha dor

a minha angústia

o meu temor

se Deus a mim nada me diz?

 

Ou será que Deus a mim tudo me diz

porque não me diz nada de nada?

 

Então Deus alguma coisa me diz

sim

 

É que a minha fé é pura esperança

e a Deus tudo de mim eu digo

 

A mim Deus nada me diz

tão pouco permite que O veja

 

Tenho pena que assim seja

 

Eu O bem-digo

 

Henrique António Pedro

Dentro de mim não há céus nem infernos

 


XXXIV

Dentro de mim não há céus nem infernos

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Dentro de mim não há céus

nem estrelas

nem galáxias

nem infernos

 

Dentro de mim

sob a minha pele

há apenas ossos

músculos

vísceras

veias

nervos

e nada mais

 

No meu coração flui apenas sangue

e não ódio

ou paixão

 

No meu cérebro nem uma agulha se intromete

tão pouco o vazio

o nada

de que nada sei

 

Mas dentro de mim abre-se uma janela larga para Deus

por onde o espírito

entra

e sai

mesmo de olhos fechados

de ouvidos tapados

e de tacto entrapado

 

Deus mora dentro de mim

e não no céu

Henrique António Pedro