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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Dentro de mim não há céus nem infernos

 


XXXIV

Dentro de mim não há céus nem infernos

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Dentro de mim não há céus

nem estrelas

nem galáxias

nem infernos

 

Dentro de mim

sob a minha pele

há apenas ossos

músculos

vísceras

veias

nervos

e nada mais

 

No meu coração flui apenas sangue

e não ódio

ou paixão

 

No meu cérebro nem uma agulha se intromete

tão pouco o vazio

o nada

de que nada sei

 

Mas dentro de mim abre-se uma janela larga para Deus

por onde o espírito

entra

e sai

mesmo de olhos fechados

de ouvidos tapados

e de tacto entrapado

 

Deus mora dentro de mim

e não no céu

Henrique António Pedro

De Deus nada mais sei

 


XXXIII

De Deus nada mais sei

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Haverá quem de Deus

tudo saiba

 

Mais que Ele próprio

 

Quem Lhe conheça os gostos

e os desejos

a Sua ira e a Sua graça

e Sua faça

a sua própria vontade

e quem proclame ser essa a Verdade

 

Eu de Deus nada sei

e de Deus apenas posso dizer

o que Deus me inspira

pela vida e morte de Jesus Cristo

que resumo a isto

 

Ao sentido de amar

ao resgate do acto de morrer

à ânsia de imortalidade

 

Henrique António Pedro

 

 

 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Daqui, do infinito



XXXII

Daqui, do infinito 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Aqui onde estou

e no tempo em que vivo

é onde o Infinito se inicia

sem eu saber onde acaba

e a Eternidade começa

sem que eu saiba quando cessa

 

Infinito e Eternidade

que arrasto comigo

 para onde vou

 

Vivesse noutro tempo

noutro qualquer lugar

com ar para respirar

e cérebro para pensar

sentiria a mesma sensação

o mesmo aperto de coração

o mesmo lapso de Razão

de não saber onde estou

e do que verdadeiramente sou

 

Existo, por isso, no Infinito

E moro na Eternidade

 

Daqui, do Infinito, eu falo

Dalém, da Eternidade, me calo

 

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Sonho acordado

 


XXXI

Sonho acordado

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Sonho acordado

ausente

 

Deixo-me levar pelo vento

no voo do tempo

imaturo

desasado

cada momento do presente

fecha-se em passado

e abre-se em futuro

 

Rasgo a bruma da ilusão

escrevo poemas de espuma

inseguro

voo fascinado

com a leveza duma pluma

 

O sonho é uma ideia oca

mas é esperança

é procura da verdade

é pulsar do coração

ar da Razão

pão da boca

é a próxima realidade

 

 

Deus só não nos deu asas

para que sejamos nós

a aprender a voar

e a sonhar

 

A despertar

pela contemplação

 

Henrique António Pedro

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Se eu não tivesse alma

 


XXX

Se eu não tivesse alma

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Paro

escuto

fixo o olhar

sem olhar para nenhum lugar

 

Sinto o tempo correr

em silêncio

ouço o relógio do cosmos

a tiquetaquear

o cronómetro da vida

a gemer

 

A pedra em que reclino a cabeça

trilha-me a pele do crânio

o coração

espontâneo

entra a fibrilar

 

Porque se não liberta já a minha alma?

Porque não saio eu de mim?

Será que alma não tenho?

 

Porque continuo assim

prisioneiro de ossos e músculos

glândulas e vísceras

de ideias abstrusas

e sem nexo?

 

Porque me amarro ao espaço

e ao tempo

se o espaço se limita no infinito

e o tempo se esgota na eternidade?

 

Se eu não tivesse alma

existiria um buraco enorme

no meu corpo

em seu lugar

  

Se eu não tivesse alma

também o meu corpo não tinha dono

e andava ao abandono

ao Deus dará

 

Henrique António Pedro

domingo, 7 de junho de 2026

Quem sou, não sei, nem sou

 


XXIX

Quem sou, não sei, nem sou

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

Sou

Isso sei

fogo-fátuo

fagulha a cruzar o céu da vida

e do mundo

por entre miríades de estrelas

 

Um grão de areia perdido no areal

de uma praia sem fim sem ser eterna

 

Uma bolha de ar que rebenta

na espuma efémera

quando as ondas do mar deixam de bater

as arribas

ou os desejos de amar arrefecem

 

Uma folha que vicejou

e acabou por tombar

amarelenta

levada no vendaval

por entre milhares de folhas iguais

e que o jardineiro a arrasta para o monturo

pelo Outono

 

Sei que não vivo sempre

ainda assim vivo para sempre

sem limites

porque o meu limite

está além do Universo

do verso do sentir

do reverso do devir

da razão do dever

e do ter que ser

 

Quem sou

não sei

nem sou

Serei eu?!

 

Henrique António Pedro