Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se. Deixe, por favor, uma breve mensagem. Poderá fazê-lo para o email: hacpedro@hotmail.com. Bem haja. Please leave a brief message. You can do so by email: hacpedro@hotmail.com. Well done.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Musse de angústia e chocolate, adoçada com ansiedade


Procurava a melhor rima para angústia

 

Fui encontrá-la

Pasme-se

Num livro de culinária

Escarlate

 

Perdida numa receita de musse de chocolate

 

Concluí que chocolate e angústia rimam bem

Numa receita de musse

 

Melhor do que com limão

Manga

Ananás

Ou mamão

 

No meu paladar

Zás-trás

 

Devem os ingredientes ser derretidos

Conjuntamente

Em lume muito brando

Mexendo

E remexendo

Sem cessar

Dando tempo para cantarolar

E assobiar

 

Sem esquecer de adicionar natas de ansiedade

Para que o chocolate fique mais espesso

E escuro

Sem cheirar a esturro

 

Convém molhar o dedo lavado

E chupar

Para se ter a certeza

Que o produto fica bem apalado

 

Verte-se, por fim, a sobremeza

Em sorrisos

E serve-se fria

À mesa

Com um cheirinho de uísque

Para afastar a tristeza

Da psique

 

Ah!

E uma cereja de alegria

Cristalizada

Não vá alguma alma penada

Ficar assombrada

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 9 de Abril de 2010

Henrique António Pedro

 

 

domingo, 16 de agosto de 2026

Pequei. Mea culpa



Mea culpa

 

Pequei

porque sem querer

me apaixonei

não há volta dar

 

Pequei ainda que em abstracto

por pensamento

palavra

desejo

e olhar

 

Ainda que não por acto

porque tal ensejo

me não foi dado consumar

 

Ela é por demais bela

insinuante

e sensual

de morrer só de se ver

 

Cruelmente tentadora

embora não livre de compromissos matrimoniais

e uma mulher assim

não me é dado a mim

amar

jamais

 

E também é pecadora

mais que eu

só porque se insinuou

abertamente me tentou

mas na hora da verdade

pede-me desculpa

diz que lamenta

e piedosamente se afasta

 

Mas a mim a minha falta me basta

por isso aqui venho pedir perdão

de alma aberta

e cumprir a minha pena

sob a forma de poema

 

Deus já relevou o meu pecado

certamente

atendendo à minha condição

de poeta

 

Sinto-me arrependido

desolado

de verdade

 

Espero não ser surpreendido

por uma segunda oportunidade

 

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 15 de Abril de 2010

Henrique António Pedro

 

 

sábado, 15 de agosto de 2026

Procuro-me a mim e encontro Deus


in Angústia, Razão e Nada (Temas Originais, Lda- 2009)

 

Procuro-me a mim

No fascínio do horizonte dalém

Composto das mesmas cristas de montanhas

De que é feito este horizonte daquém

Em que aqui me sento e reflicto

 

São montanhas de dúvidas e angústias

Organizadas em dentes de serras

Feitas de ansiedade e sofrimento

 

O mesmo silêncio e solidão

Me envolve em luz e som

Se fecho portas e janelas

Se me isolo e afogo

Na vertigem sem horizontes de uma discoteca

 

E a minha angústia se exacerba

Quando me dou conta que sou imortal

E me sinto acorrentado sem saber porquê

 

É então que Deus deixa de ser um pesadelo

Um novelo de angústia e ansiedade

Uma turva vidraça de dúvida e silêncio

 

Procuro-me a mim e encontro-O a Ele

A responder ao meu apelo

De esperança e verdade

 

E assim

Já não tenho espaço para morrer

O Cosmos inteiro não é suficientemente amplo

Para tanto


Vale de Salgueiro, 5 de Outubro de 2007

Henrique António Pedro

 

       

 

 

domingo, 9 de agosto de 2026

O imortal morreu



(Honni soit qui mal y pense)

 

O imortal morreu!

 

Foi a enterrar com pompa e circunstância

concorrido foi o funeral

 

Não consta que haja ressuscitado

pelo menos até ver

a menos que ande disfarçado

ou esteja escondido nalgum lugar

à espera de voltar a morrer

quando melhor lhe aprouver

 

O imortal morreu

contrariamente ao que se previa

tal era o seu brilho e vaidade

mas nenhum milagre

aconteceu

para tristeza dos seus

 

Persiste, contudo, a esperança

de que venha a ressuscitar

em mais asados tempos

quando os ventos

soprarem a desconfiança

de vir a vagar

o lugar

de Deus

 

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 24 de Junho de 2010

Henrique António Pedro

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

De gritos e de apitos


A gota da clepsidra
de areia ou de água
regula a vida
com alegria ou mágoa

O som do diapasão
afina o tom
do violão

O sinal do sino tem o dom
de convidar à oração

Já o longo ecoar do gongo
mais parece um lamento
a ecoar no tempo

 

A toque de caixa

todo o soldado se rebaixa

 

Só o som da vuvuzela
iguala o gazear da gazela

O rugido de leão
na savana
a ninguém engana

O barrido do elefante
que raspa o chão
tonitruante
deixa zunido enorme
no ouvido

mas não faz esquecer
o gemido de fome
seja de amor
ou de pão

 

Som que toa à toa

só mesmo o do coração

desafinado de paixão

 

Só o silêncio da morte

de todos o som mais forte

causa dor
e ecoa na Razão

 

A quem tem o dom

do grito, do apito e do assobio

ninguém tira o pio

 

Vale de Salgueiro, domingo, 20 de Junho de 2010

Henrique António Pedro

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Ser poeta não é profissão


Ser poeta não é profissão

não

 

É predisposição

estado de alma

forma de beleza

força da natureza

 

Ser poeta é como ser herói

santo

explorador

aventureiro

pioneiro da conquista do Everest

ainda que a sua poesia não preste

 

Ser poeta não é profissão

não

 

Nenhum poeta celebrado

se alimenta de pão

com poesia amassado

 

O poeta é um visionário diletante

para quem a vida é um fadário

um fluxo refluxo

constante

de tristeza

e de alegria

 

Ser poeta não é profissão

não

 

O poeta é um missionário

voluntário

com a poesia por missão

  

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 15 de Abril de 2010

Henrique António Pedro