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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Vem, amor, vem!



Vem, amor, vem!

 

Senta-te aqui a meu lado

e esquece

por agora

essa dança de sedução

 

Reclina a cabeça no meu peito

a jeito de deusa

e deixa que a brisa

roçague os teus cabelos de mansinho

por sobre o meu rosto

como fios de seda em desalinho

 

Mas fiquemos calados

deixando que os nossos corpos

se comprometam

em surdina

mesmo contra nossa vontade

 

Deixando que a libido

e demais humores

fervam em banho-maria

e nós em silenciosa alegria

com a ideia de que temos o imenso oceano por cama

não apenas uma toalha estendida na areia da praia

ou os lençóis de cambraia do leito conjugal

porque o tálamo nupcial das almas é o Cosmos

tecido de amor e espiritualidade

 

Vem, amor, vem!

 

Deixa que a minha mão escorregue

delicada

por entre o botão desapertado da tua blusa

não para acariciar o teu seio

mas para sentir o palpitar do teu coração

 

E coloca também tu

a tua mão

no meu peito

para escutar a mesma doce arritmia

e afinar essa mística melodia

pelo mesmo diapasão

 

Vem, amor, vem!

E vê por ti mesma

que não és apenas mais uma mulher

uma fêmea qualquer que deseja e apetece

antes uma alma livre que no amor

se recria e engrandece

 

Mas não me olhes apenas como mero macho

que te deseja e te quer ter

fica também a saber

que há uma infinidade de outras volúpias para comungar

 

Vem, amor, vem!

 

Mas não queiras ser amante por agora

já

a correr

sê apenas musa

parceira desta doce aventura

companheira de viajem desta romântica longa-metragem

 

Vem, amor, vem!

 

Vem partilhar comigo a vertigem de amar

verificar a força sublime do Amor

descobrir coma a magia do luar

de uma serena noite de Verão

poderá transformar uma terna carícia

um beijo verdadeiro

um apaixonado congresso

no ingresso da Redenção

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 3 de Setembro de 2010

Henrique António Pedro

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Vejo-me nos olhos dela e ela nos meus se vê


Eu vejo-me nos olhos dela

e ela nos meus

a si

se vê

 

Melhor assim ela a mim se mostra

e se denuncia

e melhor eu a ela a vejo

e com mais blandícia a desejo

 

Ela vê-se nos meus olhos

e nos seus

eu

a mim

me vejo

 

Melhor assim eu a ela me mostro

e me denuncio

e melhor ela a mim me vê

e com mais meiguice me deseja

 

Vejo-me nos olhos dela

 

Ela nos meus se vê

 

Eu vejo nos olhos dela o que a ela lhe vai na alma

e tudo que os seus lábios

e palavras

silenciam

 

Ela vê nos meus olhos o que a mim na alma me vai 

e tudo que de meus lábios

e palavras

não sai

 

Ouço o seu silêncio

ela ouve o meu

só os corações falam

na linguagem da imaginação

pelo sopro da paixão

 

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 2 de Junho de 2009

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Uma doce, terna e triste alegria


in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

 

Nunca se faz silêncio

dentro de mim

 

Acontece

por vezes

ser tão estridente o ruído interior

que o mundo exterior se silencia

ainda assim

 

Ou talvez seja eu que deixo de ouvi-lo

por mais que ele continue a invetivar-me

a chamar-me à luta

à disputa de troféus que não me interessam

e que jamais serão meus

 

Os ruídos fragorosos desta minha batalha

começam na surdina do passado

e ecoam

ribombando

futuro adentro

no mais estreme silêncio

 

Embala-me a terra

na ausência de minha mãe

 

Amparo-me às árvores que meu pai plantou

agora que partiu

 

E aqueço-me à lareira da poesia

na qual a minha alma eterna arde

em doce, terna e triste alegria

acesa de saudade

 

Vale de Salgueiro, sábado, 28 de Janeiro de 2012

Henrique António Pedro

 

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

AVES EM DEBANDADA A DIZEREM ADEUS



Viviam os dias

leves

livres

felizes

quais aves a voar em bando

 

De asas a adejar

a acenar

amando

 

E as noites pousados nos ramos das árvores paternais

a sonhar

 

Era assim o seu brando viver

a voar em bando

sem imaginar

jamais

o que seria

emigrar

 

Até que um dia cada um rumou para seu lado

por força de futuro mais ambicionado

qual debandada de aves a voar

de asas a adejar

a acenar

 a dizerem adeus

aos seus


Para não mais voltarem ao lar

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 16 de Março de 2010

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Labaredas de lembranças


Fito a lareira bruxuleante

de coração ao fogo exposto

com as labaredas as lambem-me o rosto

com seu morno calor

 

São raízes que ardem

e me aquecem sem me queimar

 

São lembranças de amantes

que me enlaçam

inebriantes

e uma após outra me vêm

beijar

 

São labaredas de lembranças

quimeras de amor

que aparecem e me aquecem

mas de pronto se esquecem

fugaz é o seu fulgor

 

Estendo-lhes a mão

ainda assim

sem dilema

para as acariciar

 

Guardo para mim este poema

que é cinza tépida

prateada pela recordação

que de pronto sopro

do coração

 

Vale de Salgueiro, Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2012

Henrique António Pedro


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Um nada ninguém



in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

 

Sou um nada

ninguém

 

Alguém que caminha ao cair da tarde

por chão atapetado de pétalas de flores de tílias

perfumadas

a derramar paz e amor por onde passa

à procura de deixar de ser

um nada ninguém

num amanhã

que tarda

 

Maior glória ninguém poderá sentir

que derramar paz e amor por onde passa

e ainda acrescer o silêncio do mundo

num silencioso devir

 

Só assim

livre

a minha angústia poderá partir

e voar

e me deixar não ser

amanhã

um nada ninguém

 

E nada mais me poder perturbar

ainda mais

 


Vale de Salgueiro, domingo, 27 de Junho de 2010

Henrique António Pedro