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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

De gritos e de apitos


A gota da clepsidra
de areia ou de água
regula a vida
com alegria ou mágoa

O som do diapasão
afina o tom
do violão

O sinal do sino tem o dom
de convidar à oração

Já o longo ecoar do gongo
mais parece um lamento
a ecoar no tempo

 

A toque de caixa

todo o soldado se rebaixa

 

Só o som da vuvuzela
iguala o gazear da gazela

O rugido de leão
na savana
a ninguém engana

O barrido do elefante
que raspa o chão
tonitruante
deixa zunido enorme
no ouvido

mas não faz esquecer
o gemido de fome
seja de amor
ou de pão

 

Som que toa à toa

só mesmo o do coração

desafinado de paixão

 

Só o silêncio da morte

de todos o som mais forte

causa dor
e ecoa na Razão

 

A quem tem o dom

do grito, do apito e do assobio

ninguém tira o pio

 

Vale de Salgueiro, domingo, 20 de Junho de 2010

Henrique António Pedro

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Ser poeta não é profissão


Ser poeta não é profissão

não

 

É predisposição

estado de alma

forma de beleza

força da natureza

 

Ser poeta é como ser herói

santo

explorador

aventureiro

pioneiro da conquista do Everest

ainda que a sua poesia não preste

 

Ser poeta não é profissão

não

 

Nenhum poeta celebrado

se alimenta de pão

com poesia amassado

 

O poeta é um visionário diletante

para quem a vida é um fadário

um fluxo refluxo

constante

de tristeza

e de alegria

 

Ser poeta não é profissão

não

 

O poeta é um missionário

voluntário

com a poesia por missão

  

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 15 de Abril de 2010

Henrique António Pedro

 

 

 

 

domingo, 2 de agosto de 2026

Bem-aventurados


Bem-aventurados
são
hoje em dia
todos aqueles que vivem afastados
ou são ignorados pelos mass media
rádios, televisões, internet, jornais


Bem-aventurados
são
hoje em dia
todos aqueles que não são, jamais
dados nem achados
de escândalos, tragédias ou comédias
protagonistas de hipócritas obras de caridade


Bem-aventurados
são
hoje em dia
todos aqueles que vivem a vida com simplicidade
que granjeiam, com verdade, o pão do dia a dia
e amam e sofrem
no silêncio do seu coração

Bem-aventurados
são
hoje em dia
todos aqueles que morrem em silêncio

docemente
em discreta dignidade
chorados com sinceridade
por amigos e familiares
e sem pompa nem circunstância

 

Morte velada por santos e anjos

indiciando que a sua entrada no reino dos céus
não lhes será vedada

certamente


Vale de Salgueiro, quinta-feira, 13 de Novembro de 2008
Henrique António Pedro

 

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

Entre ler e escrever


Quem escreve na alma lê

quem lê na alma escreve

 

Palavras partilhadas

ideias aladas

que voam para fora do espírito

e entram espírito adentro

trazidas e levadas

pelo vento do pensamento

que escreve e não prescreve

enquanto durar o sentimento

 

Entre ler e escrever

é tempo de acreditar

de amar e sofrer

de nada deitar a perder

na arte de bem viver

 

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 11 de Junho de 2012

Henrique António Pedro

domingo, 26 de julho de 2026

Nasci nu



Nasci nu

descalço

num dia frio de Dezembro

ao que me disseram

se bem lembro

 

Sem anéis iguais

aos que usam os filhos de reis

e que tais

 

Agasalhado pelo amor de minha mãe

roupa que Deus lhe deu

graças a Deus

 

Nasci nu

sem percalço

 

Aprendi a sofrer, a amar, a ter esperança e a acreditar

com todo o meu ser


Aprendi que dor e amor

são pétalas e espinhos da mesma flor

a flor da verdade

imagem que guardo do meu viver

no mais fundo do meu ser

 

Um dia me despedirei do mundo

para renascer

nu

como nasci

embora sem saber

em que espaço

tempo

ou localidade

 

Quem sabe?

 

Vale de Salgueiro, 15 de junho de 2019

Henrique António Pedro

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Antes que eu me esqueça



Ironia do destino

 

Vivia no receio obsessivo

Talvez por apenas olhar para o seu umbigo

De que eu me esquecesse dela

 

Acabou

Sim

Ela

Por esquecer-se do receio que tinha

De que eu dela me esquecesse

E foi ela a esquecer-se de mim

O que eu nunca imaginei

 

Mas eu quero agora lembrar-lhe

Antes que eu me esqueça

Agora que já ela se esqueceu do receio que tinha

De que eu dela me esquecesse

Que eu jamais a esquecerei

 

Vale de Salgueiro, domingo, 8 de Março de 2009

Henrique António Pedro