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quarta-feira, 25 de março de 2026

Olho-me nu ao espelho



Dou comigo a olhar-me ao espelho

nu

de corpo inteiro

lavado

perfumado

depois do banho

ainda que sem querer assim me ver

 

Não por reflexo narcisista portanto

mas por reflexão demente do meu espírito sacrossanto

que a si mesmo tenta ver-se reflectido

nalguma bendita superfície espelhada

que o reflita

 

O corpo ali está visto por fora

na perspectiva em que o vejo

espelhado no espaço-tempo

na óptica do dia-a-dia

traduzido em anos e volumetria

que não desejo

 

O ventre ligeiramente obeso

as rugas pronunciadas

a calvície acentuada

os testículos túrgidos e descaídos

o pénis nédio e flácido

sinais evidentes de que com os anos

também a virilidade se vai adoçando

 

Olho-me olhos nos olhos e melhor me fixo em mim

e me fascino

com o caminho mental

corporal

mortal

que leva à alma

 

À alma só a alma a vê, porém

que melhor se percebe que existe

coexiste

resiste

e persiste

quando o corpo desiste

e a mente se esvai

 

 

É assim que a mim mesmo me olho

e que assim me vejo

nu

ao espelho

 

Que importância teria o Cosmos

sem mim?

 

 

Vale de Salgueiro, 31 de Julho de 2008

Henrique António Pedro

 

in Angústia, Razão e Nada (Editora Temas Originais-2009)

segunda-feira, 23 de março de 2026

A mulher que mais me diz


Pergunto-me: 

Porque a amo, eu?!

Nem bem sei

 

Ainda assim

direi!

 

Porque a luz do seu olhar

me ilumina por dentro

 

Porque o sopro do seu respirar

me inebria

e me dá alento

 

Porque a sua voz me desperta

o seu cheiro me incendeia

a sua presença me cativa

me liberta

me alivia

 

Porque o toque da sua mão

me arrepia

e me acelera o coração

 

Porque é a mulher que mais me diz

e que mais a mim me dá

sem nada de si me dizer

e nada de si me dar

 

Só por isso eu a amo

e nada dela reclamo

ainda que sem saber

se alguma divina razão

em surdina

haverá

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 17 de março de 2026

Escrevo poesia para me dar


Não escrevo poesia para me exibir

fingir

fugir

comprar ou vender

 

Para mostrar poderes que não tenho

glórias que não mereço

 

Para me libertar de taras ou manias

ou dar asas a vaidades ou fantasias

 

Escrevo poesia primeiro

para quem me ler

é bom de ver

e depois para mim

para que possamos reflectir

e nos divertir

por inteiro

 

Escrevo poemas que são dilemas

pelos quais espreito

me mostro

e me escondo

por entre sonhos e ilusões

 

Escrevo poesia para me enlaçar

com amor

com o Cosmos

e outros corações sentir

bater

 

Escrevo poesia para me dar

com alegria

a quem me quiser receber

mesmo sem nada

em troca

esperar

receber

 

Vale de Salgueiro, domingo, 30 de Novembro de 2008

Henrique António Pedro

 


segunda-feira, 16 de março de 2026

Big Bang


Tudo está explicado

ou em vias disso

embora sem compromisso

algum

 

Uma grande explosão

Embora sem ruído nenhum

ao invés de nos matar

nos fez nascer

 

Mas como não havia Espaço

nem Tempo

ficamos sem saber quando

nem onde

tal explosão aconteceu

 

Muito menos o «porquê?»

ou o «para quê?»

a razão de ser de tal fenómeno acontecer

apenas o «como» nos é dado perceber

 

Terá sido o bíblico «fiat lux»

que nos poe os olhos em bico

nos faz explodir a razão

e nos leva a admitir

já no espaço e no tempo

com água, calor e vento

o big bang da Vida?

 

Porque não!

 

Só o big bang do Amor

porá fim à dúvida, por certo

e anulará toda a dor

por força da Iluminação

 

Entendo o esforço da Ciência

não como uma evidência

mas como um louvor

uma prece

a mais sublime oração

que bem merece

o Criador

 

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 30 de Março de 2010

Henrique António Pedro

 

 

sexta-feira, 13 de março de 2026

A Rosa de Verín


Um dia sorriu para mim

uma rapariga amorosa

que se chamava Rosa

e era de Verín

 

Encontrámo-nos amiúde

no idílico açude

praia do rio Tâmega

alfa e ómega

do amor transfronteiriço

 

Tanto que a raia, terra de ninguém

de alecrim e congossa engrinaldada

passou a ser a nossa mátria amada

 

Trocávamos beijos e abraços

desejos e promessas

laços de fraternidade

em derramado derriço

 

Com a língua galega

e a portuguesa

em meças de beleza

e irmandade

na alegria e na poesia

 

O meu coração se ouriçou de dor

porém

quando um dia, à catraia

não sei que lhe dou

outro amor entranhou

lá para os lados de Ourense

muito além da raia

 

Não sei que mais diga

ainda que mal não pense

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 10 de março de 2026

A mim dá-me para a poesia


A esta angústia maior que me aflige cada dia

respondo com poesia

 

Fico um tanto mais consolado

embora não de todo aliviado

 

Há quem fume e quem beba

mas porque tal me causa tão incómoda azia

a mim dá-me para a poesia

 

Para abafar angústias estranhas

ideias tresmalhadas

sensações entranhadas

cólicas nas entranhas

que me desassossegam por dentro e por fora

e que o vento as não leva embora

 

Para transformar medo em coragem

ódio em amor

prisão em liberdade

raiva em tranquilidade

fracasso em glória

mentira em verdade

saudade em presença

maldade em inocência

indiferença em solidariedade

vício em temperança

fome de sexo em paixão

para aliviar dores de coração

 

E para sufragar os gritos de milhares de irmãos cuja vida é uma mortalha

que sofrem e morrem sem que ninguém lhes valha

versos e mais versos a poesia me cicia

 

A mim dá-me para a poesia

como se vê!

 

Vale de Salgueiro, 5 de Fevereiro de 2008

Henrique António Pedro