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terça-feira, 9 de junho de 2026

Sonho acordado

 


XXXI

Sonho acordado

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Sonho acordado

ausente

 

Deixo-me levar pelo vento

no voo do tempo

imaturo

desasado

cada momento do presente

fecha-se em passado

e abre-se em futuro

 

Rasgo a bruma da ilusão

escrevo poemas de espuma

inseguro

voo fascinado

com a leveza duma pluma

 

O sonho é uma ideia oca

mas é esperança

é procura da verdade

é pulsar do coração

ar da Razão

pão da boca

é a próxima realidade

 

 

Deus só não nos deu asas

para que sejamos nós

a aprender a voar

e a sonhar

 

A despertar

pela contemplação

 

Henrique António Pedro

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Se eu não tivesse alma

 


XXX

Se eu não tivesse alma

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Paro

escuto

fixo o olhar

sem olhar para nenhum lugar

 

Sinto o tempo correr

em silêncio

ouço o relógio do cosmos

a tiquetaquear

o cronómetro da vida

a gemer

 

A pedra em que reclino a cabeça

trilha-me a pele do crânio

o coração

espontâneo

entra a fibrilar

 

Porque se não liberta já a minha alma?

Porque não saio eu de mim?

Será que alma não tenho?

 

Porque continuo assim

prisioneiro de ossos e músculos

glândulas e vísceras

de ideias abstrusas

e sem nexo?

 

Porque me amarro ao espaço

e ao tempo

se o espaço se limita no infinito

e o tempo se esgota na eternidade?

 

Se eu não tivesse alma

existiria um buraco enorme

no meu corpo

em seu lugar

  

Se eu não tivesse alma

também o meu corpo não tinha dono

e andava ao abandono

ao Deus dará

 

Henrique António Pedro

domingo, 7 de junho de 2026

Quem sou, não sei, nem sou

 


XXIX

Quem sou, não sei, nem sou

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

Sou

Isso sei

fogo-fátuo

fagulha a cruzar o céu da vida

e do mundo

por entre miríades de estrelas

 

Um grão de areia perdido no areal

de uma praia sem fim sem ser eterna

 

Uma bolha de ar que rebenta

na espuma efémera

quando as ondas do mar deixam de bater

as arribas

ou os desejos de amar arrefecem

 

Uma folha que vicejou

e acabou por tombar

amarelenta

levada no vendaval

por entre milhares de folhas iguais

e que o jardineiro a arrasta para o monturo

pelo Outono

 

Sei que não vivo sempre

ainda assim vivo para sempre

sem limites

porque o meu limite

está além do Universo

do verso do sentir

do reverso do devir

da razão do dever

e do ter que ser

 

Quem sou

não sei

nem sou

Serei eu?!

 

Henrique António Pedro

sábado, 6 de junho de 2026

Que seja já amanhã o futuro


XXVIII

Que seja já amanhã o futuro

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Males e vícios

perdem-se

na origem dos tempos

 

As virtudes

já só se encontram

nos confins do futuro

 

O presente

exacerba-se

 

Sinais claros

de que a Civilização caminha

para o fim

 

Que seja já amanhã

o futuro

 

E o passado

logo depois

 

Ou melhor será

olvidar

Henrique António Pedro

 


Que sei eu, da vida?

 


XXVII

Que sei eu, da vida?

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Que sei eu, da vida?

Que sei eu, de mim?

O pouco que a vida me ensina

que muito é

ainda assim

 

E que sei eu da morte?

Nada, por sorte!

Tudo a vida me esconde

viver tenho vivido

morrer nunca morri

 

Em cada acto do viver

seja a vida feia ou bela

de amor ou de mal querer

de dor ou de prazer

de dúvida ou de fé

sempre o corpo se descobre

mas o espírito nem sempre se revela

muitas vezes mais se encobre

até

Henrique António Pedro

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Que outro atributo poderá ter, o Além?

 


XXVI

Que outro atributo poderá ter, o Além?

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Recosto-me no tronco de uma tília perfumada

que a aragem do fim da tarde abana

e me embala

 

Adormeço e sonho

como se acordado

enlevado em bátegas de amor

como se o meu berço fosse um barco

uma pluma

uma flor

que as ondas do cosmos fazem vogar

livremente

em liberdade

perdido

na bruma

do destino

 

Como se eu fora uma pétala perfumada

que se desprendeu da árvore mãe

e demorará uma eternidade

oscilando no ar

até pousar

no Absoluto

 

Que outro atributo

poderá ter

o Além?

 

Henrique António Pedro