sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Mergulho fundo por mim a dentro
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Coisas de ontem fora do tempo
Há locais
grandes
pequenos
de somenos
objectos
tempos
templos
simples ventos ou pensamentos
rostos
instantes
gritos
melodias
cheiros
sabores amargos
e doces
objectos insignificantes
risos e choros
diabruras e maldades
passos encobertos
e gestos rasgados de caridade
ou coragem
afagados pela aragem da lembrança
que passaram a entidades reais
mesmo sem peso nem medida
cinzeladas na área de imagens do cérebro
com tonalidades de afecto
São coisas de dentro de ontem fora do tempo
e da memória próxima
de dentro de mim
do meu passado
encontradas no mundo exterior
e a quem a proximidade da saudade
conferiu existência gravada naquilo sou
e já não fui ou serei
coisas de dentro de ontem fora do tempo
de entre o Alfa e o Ómega
dentro da moral e dos afectos
do Bem e do Mal
Como aquele copo de vinagre
que bebi
quando criança
e mal sabia ainda que coisa era vinagre ou vinho
que encontrei abandonado na cozinha
de minha avó Alzira
e me soube a fel
mais amargo que a esponja com que martirizaram Cristo
agonizante na cruz
Foi um ápice de martírio o meu
um esgar de sorriso e dor
que por certo me lançou na vida dos sabores
nos reflexos por aí adiante
e me põe agora a olhar para trás
e quiçá poderá mesmo ser o garante da minha salvação
Ah!
E aquela imagem que retenho
de minha mãe a descer a escaleira da caridade
de almotolia na mão
para socorrer os mendigos andrajosos
que ousavam subir a escada da súplica
e no primeiro degrau da miséria
de lata pendurada ao pescoço
proferiam pai-nossos angustiados por alma de quem lá tem
pela santa que aí vinha
e era minha mãe que lá vinha de almotolia em riste
para que o seu triste irmão digno de dó
pudesse ter azeite para cozinhar a sua própria felicidade
e olear os pés gretados pelo pó do caminho
e reconfortar o estômago com batatas cozidas
em paga das orações doridas de verdade
E o lobo!
Recortado contra o luar de Janeiro
esfomeado
que saltava do colmo para o chão
e do chão para o colmo que cobria a manhosa cabana
armada na Casa do Seixo para guardar o meloal
capaz de me devorar o corpo e a alma
votado eu a defender o corpo
mais que a minha alma tão calma
de escopeta em riste
tão calma que me pus a pensar
se o mato serei eu o assassino
e será o lobo inimputável menino
E a indelével lembrança de cigano a fornicar cigana
na palha
de madrugada
quando eu criança
vencia a geada para ir mugir a vaca
e a desavergonhada sem se importar com nada
abria as pernas e o cigano a rugir
eu ficava parado
pasmado
sem ensejo de fugir
a olhar e a despertar
de desejo
e ficava a compreender então
a razão pela qual apenas era lícito naquele tempo
possuir mulheres virgens
embora não importasse quantas
e também porque razão as santas
o são!
E o cheiro ácido de África
que se entranhava nos corpos
e exalava suores
com sabores de sexo, de guerra e de espera de paz!
Desde aqui…
parto deste meu canto
reduto de memória de muitos amores
desejos e sabores
aromas de alfazema
e de azeitona fermentada
armazenada na garagem com portas de castanho
em que meu pai guardava o velho Austin
e que fora outrora moagem
tocada pela religiosidade e arte do velho moleiro Urbano
E calo as imagens de tantos amores
ázimos porque não tinham o fermento
do verdadeiro Amor
ainda que o amor seja ele qual for nunca deixa dor
Ante o destino frustrado
entristeço de tristeza amarga
calado
macambúzio
sorumbático
armado em vítima
esperando que alguém se apiede de mim
Talvez eu próprio
tenha compaixão de mim mesmo
e entre em contrição
Para concluir que Deus deverá ter corpo
olhos e ouvidos
pernas e braços
coração e cérebro
mas não é homem como eu
e que Cristo Jesus
apenas é Deus
a contraluz porque padeceu na Cruz
Mas se Deus tem corpo com olhos
ouvidos
pernas e braços
coração e cérebro como eu
então também eu poderei ser Deus
como Jesus a contraluz
Vale de Salgueiro, 12 de Maio de 2005
Henrique António Pedro
in Angústia, Razão e Nada (Editora Temas Originais – 2009)
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Palavras danadas de nadas
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Cigana parida na palha espalhada no chão do curral
In Minha Pátria Montanha (Ver o Verso Edições – Dezembro 2005).
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
“AMO-TE”
Há mil formas de
declarar o nosso amor a alguém
sem dizer “amo-te”
ou fazer uso de
qualquer outros modos e tempos do verbo amar
Poderemos mesmo
dizê-lo sem proferir a palavra “amor”
e ao arrepio das
regras gramaticais
ainda mais
e melhor
Se assim não for
como poderão os
surdos-mudos
dizer “amo-te”
às suas apaixonadas?
Ou os amantes de
língua chinesa
declarar o seu amor
às suas namoradas de
outras línguas
que não entendam o
mandarim
nem conheçam um só
carácter chinês?
Há mesmo
muitas outras formas
de dizer “amo-te”
sem ter que escrever
abraçar
ou beijar
Poderemos dizê-lo com
o olhar
oferecendo uma flor
dedicando um poema
ou simplesmente
ficando em silêncio ao lado de quem
a quem
queremos dizer
“amo-te”
De resto a palavra
“amo-te”
já está tão gasta
pelo uso
que perdeu a
originalidade
quiçá
a autenticidade
Poderá ser até um
abuso
aleivosia
despudor
Há
como vês
muitas outras formas
de dizer “amo-te”
sem do verbo amar fazer
uso
Como continuar a
escrever poesia
Apenas por amor
Vale de Salgueiro,
domingo, 7 de Março de 2010
Henrique António Pedro
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Porque não trocar de mulher?
(Epigrama)
A um
amigo do peito
com
faceta de poeta
e o
seu quê de machista
que a
legítima benquista se diverte a judiar
pergunto
eu a preceito
e na
hora certa:
«- Porque
não trocas de mulher?!
Tens
muito por onde escolher
e
uma poetisa de génio vinha-te mesmo a calhar»
Responde-me
ele de pronto
nada
tonto
e sem
se desmanchar:
«-
Porque não encontro outra igual
e
mal por mal
melhor
será com esta ficar.»
«Depois
já não tenho paciência
nem idade
para
outra mulher ensinar
e esta
já domina a ciência de bem me aturar»
«E,
para quê mentir?
Desta
iria sentir uma infinita saudade»
Vale
de Salgueiro, quarta-feira, 28 de Julho de 2010
Henrique
António Pedro
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Poeta aprendiz de como ser feliz
Sopro a sopro sopra o vento
chama a chama arde a fogueira
raio a raio estala o trovão
Monte a monte se ergue a montanha
grito a grito se espalha a revolução
sorriso a sorriso se acende a paixão
Grão a grão se semeia a seara
a galinha enche o papo
sara a ferida o esparadrapo
Dia a dia se ganha a vida
se esconjura a má sorte
e se adia a morte
Verso a verso se escreve o poema
nota a nota se compõe a canção
dúvida a dúvida se lança o dilema
O fogo como se apaga?
Como se amaina o trovão?
E como se ceifa a seara?
A verdade como se alcança?
Como se ganha a revolução?
E como se acalma a paixão?
O poema como se declama?
E a morte como se mata?
Como se vai ao além?
Tudo isto e mais a amar
ando eu a aprender
também
Poeta
mero aprendiz
de como ser feliz
Alguém me diz?
Vale de Salgueiro, terça-feira,
16 de Março de 2010
Henrique António Pedro
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Se acaso me ler
Se acaso me ler
tente me entender
Vivo num mundo de sonho
onde não há gestos
nem palavras
escritas ou faladas
para comunicar
Falo com o coração
por ideias
trago na mão uma lira
que ora canta
ora suspira
Sem espaço para mentira
ou traição
nem ódio para expressar
vivo em permanente
alegria
a meu contento
A minha poesia é fantasia
afecto
pensamento
Sou poeta
homem liberto
Vale de Salgueiro, domingo,
9 de Agosto de 2009
Henrique António Pedro
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Poema abandonado numa mesa de café
Uma flor
Uma rosa perfumada
que esmaeceu
abandonada numa mesa
de café
depois que se
consumou a longa espera
e a amada do poeta
não compareceu
Um poema
abandonado numa mesa
de café
por um poeta ferido
traído no seu amor
foi o que foi
é o que é
deu no que deu
Reticências
uma vírgula
um ponto final
gravados numa folha
de papel
em branco
numa mesa de café
sobre a qual repousa
uma flor
esmaecida
de um poeta
esquecido
traído no seu amor
É um poema de pranto
escrito numa folha de papel
em branco
Vale de Salgueiro, sábado,
18 de Maio de 2013
Henrique António Pedro








