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domingo, 31 de maio de 2026

Porque não dá a cara, Deus?

 


XXI

Porque não dá a cara, Deus?

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Porque não é categórico, Deus

e prefere manter-nos na dúvida?

 

Porque não nos diz o que quer

de uma vez por todas?

Porque não nos livra em definitivo

de tanta dor, tragédia e miséria?

 

Porque não se mostra

e se esconde no Cosmos

por de trás dos astros

e apenas nos fala sibilinamente

por sinais interiores ditos de fé

pelo cintilar das estrelas

ou pelo rugido dos trovões?

 

Porque se oculta em igrejas e religiões

e só timidamente se revela no mistério dos santos

e nessa Sua maior manifestação que é o Amor?

 

Porque entendeu transfigurar-se

numa Sua humana criatura

na pessoa de Jesus Cristo

e O pôs a sofrer tamanha agrura?

 

Porquê?

 

Talvez…

(Também eu não quero ser categórico

nem definitivo…)

 

Talvez porque se assim não fosse

não teria sentido

o Seu projecto da Criação

 

E o ser humano mais não seria

que um epifenómeno

um ser telecomandado

embora animado

energúmeno

incapaz de se autodeterminar

e de em Espírito se reconstruir

de condicionar o devir

para a Ele retornar

Henrique António Pedro

sábado, 30 de maio de 2026

Poeta protótipo de anjo



XX

Poeta protótipo de anjo

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Algo eu sou

e sou eu

não sou fidalgo

centauro

ou plebeu

simplesmente sou

 

Não sou omisso

não sou nada disso

 

Sou crente

não sou demente

 

Sou homem

não sou mulher

não um animal qualquer

 

Não sou alto nem sou baixo

sou branco não de cor

não sou nada

sou alguém

 

Ando e corro

não voo

choro e rio

caminho de pé

 

Não me evadi

não fugi

de ninguém

 

Cidadão

artista

não sou concertista

não sou artesão

tocador de banjo

contrabaixo

doutor

 

Sou esteta

de mente aberta

ténue de esperança

de frágil fé

 

Sou poeta

protótipo de anjo

tão só

Henrique António Pedro

 

Ossos carcomidos, pó, terra, cinza, nada

 


XIX

Ossos carcomidos, pó, terra, cinza, nada

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Nestes dias de chuva aborridos

desta Primavera tardega

tenho os passos pela Natureza

entorpecidos

com o Sol a caminho do crepúsculo

que tarde chega

 

Já as tílias exalam o seu perfume adocicado

que penetra livremente

pela janela escancarada do meu ser

aumentando a incerteza

de ser

de nada ser

ou de ser nada

 

Sou dúvida

duvido do que sou

tenho a certeza

não sei que ser sou eu

 

Se cheiro de terra ressequida

…fertilizada pela chuva abençoada

 

Se lama do caminho

…poeira mais tarde

agitada pelo vento

em pulverinho

 

Se sonho que se evola em nuvem

…para chover poesia

 

Depois se verá

se serei apenas ossos carcomidos, pó, terra, cinza, nada

se espírito triunfante

no seio de Deus

 

Mais seguro será

para já

acreditando

continuar a duvidar

 

Henrique António Pedro

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Os cinco entes que sou

 


XVIII

Os cinco entes que sou

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Afectado de soledade

fascinado de quietude

essa virtual virtude

que leva o corpo a espairecer

diluo-me no tempo

ao entardecer

 

Mergulho o cérebro no éter

que adormece

 

E enquanto o corpo desfalece

e a alma se banha no luar

o espírito põe-se a divagar

 

Assim dividido

melhor me diviso

nos cinco entes distintos que sou

e que andam amarradas à vida

e à sorte:

 

- O corpo que sente

- A razão que raciocina;

- A alma que paira para a morte;

- E o espírito que livre,

 vive

 mas não morre

 

E o outro, ainda

que não sou

mas quero ser

 

Henrique António Pedro

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Vazio de alma

 


XVII

Vazio de alma

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Há momentos de desânimo

de desalento

e de crise de fé

em que me esvazio da alma

me oco por dentro

e mal me consigo

manter-me de pé

 

(E quem

Se não eu

se poderia esvaziar de si?)

 

Momentos em que a angústia

me assalta a Razão

a ansiedade me toma o coração

e o meu espírito nele próprio se comprime

 

Já não é dor exterior

que sinto

é sim sofrimento

interior

 

Então o maior grito

grito-o em silêncio

porque a maior dor

a sinto por dentro

 

Só assim o espírito se redime

Henrique António Pedro

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Um quantum espiritual

 


XVI

Um quantum espiritual

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Desdobro-me

saio de mim

e assim

me vejo por fora

 

Viajo para outro sítio

permanecendo aqui

 

Salto no tempo

mudo de espaço

e vou-me embora

sempre e agora

preso a mim

enredado na ilusão

que me enleia

 

Penetro no meu próprio corpo

viajo por cada artéria e veia

nado nas aurículas e ventrículos

pulmões e testículos

banho-me no coração

 

Balanço-me nos axónios

do meu próprio cérebro

salto de neurónio em neurónio

feito ideia e afecto

homem completo

 

Sou uma ínfima parte de mim

que se não dissocia

 

Um quantum espiritual

uma centelha de bem

outra de mal

 

Uma boa sensação

que me percorre por dentro

me visiona por fora

e viaja pelo Cosmos além

mas não tem dimensão

 

Henrique António Pedro

terça-feira, 26 de maio de 2026

Por vezes carrego o meu corpo às costas

 


XV

Por vezes carrego o meu corpo às costas

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Não raras vezes decido gestos

passos

actos

atitudes

vícios e virtudes

sem bem saber porque o faço

 

É o meu corpo que me leva

e sou eu que me deixo ir

por prazer

por medo

por dor

por fantasia

 

Outras vezes, porém

sou eu que carrego o meu corpo às costas

e o forço a ir comigo

se acaso ele se recusa a ir

pelos caminhos do amor

da verdade

da poesia

e das normas a que me obrigo

 

É o sopro do espírito que sou

sobre o corpo que é meu

mas não sou eu

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Fim do infinito, princípio da eternidade

 


XIV

Fim do infinito, princípio da eternidade

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Só tem sentido a Eternidade

porque há relógios a contar o tempo

sem cessar

 

Só tem sentido o Infinito

porque há réguas a medir o comprimento

sem se esgotar

 

Poderá o início do tempo

e o princípio do espaço

o homem sincronizar

jamais seu fim determinar

 

O fim da dúvida

é o princípio da verdade

e o fim da dor

o início da felicidade

 

O Absoluto

é instituto de anjos

atributo de Deus

no qual crentes e ateus

infinito e eternidade

dúvida e verdade

amor e dor

acabarão por se consumar

 

E o fim do Infinito é o princípio da Eternidade

 

Henrique António Pedro

domingo, 24 de maio de 2026

Quando a minha alma se ausenta para viajar

 


XIII

Quando a minha alma se ausenta para viajar

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Há momentos em que nada sinto a doer

nenhuma espécie de dor

nem frio nem calor

nenhum desejo

nenhum motivo de prazer

nenhuma angústia

nenhuma ansiedade

nem antevejo nenhuma contrariedade

 

Momentos em que a minha proverbial amargura

anda fora

pela rua

e eu desisto de encontrar a verdade

 

Momentos em que a minha indiferença é tamanha

que me chega a parecer estranha

 

Que será que aconteceu?

Que estará para acontecer?

Não sei nem quero saber

 

A envelhecer ando desde que nasci

morrer ainda não morri

e a vida até me sorri

 

Talvez seja isso mesmo

      isso tudo

nada de isso

ou não seja coisa nenhuma

 

Talvez seja só espuma de poesia

nem tristeza nem alegria

pura fantasia

sem os habituais dilemas

 

Talvez seja só a minha alma

que se ausenta para viajar

mas deixa a consciência em “stand by”

 

E como nada entra ou sai

do coração

a razão põe-se a regurgitar poemas

 

Henrique António Pedro

sábado, 23 de maio de 2026

Quando a hora da minha morte chegar

 


XII

Quando a hora da minha morte chegar

in Introdução à Eternidade 

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Quando a hora da minha morte chegar

se é que algum dia eu vou morrer

 

Quando o sangue se me esfriar nas veias

mais vivas e ardentes se revelarão as ideias

 

Entregarei o corpo com o coração na mão

à Mãe-Natureza para reciclar

que dele melhor fará

o que bem lhe apetecer

 

Serei húmus, seiva, sangue

vinho

aroma de pinho

erva aromática

papel de gramática

grão de jade

 

Ou tão só

 

 Quem sabe?!

 

Por mim

ainda assim

gostaria de me transformar em pinheiro

viçoso

frondoso

altaneiro

novo ser no seio do novo pinhal

que plantei com as minhas próprias mãos

ao sol do sonho

e sem sombra de mal

 

Mãos e braços que se converterão

em ramos

e os pés em raízes

arreigadas bem fundo nas entranhas da terra

já preparada

à minha espera

saradas as cicatrizes

 

E o suor que transpirei agarrado à enxada

será a resina perfumada

que purificará o ar

e dará nova cor e vigor

a novos pulmões

e a outros corações

que pulsarão do mesmo Amor

 

Mais vivas e ardentes se revelarão

então

as ideias

 

Elas serão o germe de novos sonhos

as sementes de novas poesias

de mais lúcidos dias

de mais clara Verdade

as palavras-chave da eterna Eternidade

 

Quando a hora da minha morte chegar

se é que algum dia eu vou morrer…

 

Quem sabe?!

 

Melhor será esperar

para ver

Henrique António Pedro

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Pudesse eu parar o tempo

 


XI

Pudesse eu parar o tempo

 in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Se eu pudesse parar o tempo

parava-o já

neste momento

não deixaria que seguisse adiante

fá-lo-ia voltar para trás

a cada instante

 

Para o início de um novo beijo

de um mais melodioso harpejo

de outro terno olhar

para assim poder amar

pela eternidade

 

Pudesse eu parar o tempo

e parava-o já

para tudo fazer recomeçar

com renovado ardor

num eterno terno único acto de amor

num permanente

amar

 

Henrique António Pedro

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Projecto-me no Espaço, precipito-me no Infinito

 


X

Projecto-me no Espaço, precipito-me no Infinito

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Tão confinado é o espaço

em que me é dado viver

 

Tão angustiante a dúvida que me aflige

que nem capaz sou de a exprimir

 

Tão atroz a dor que sou forçado a sofrer

sem o consentir

 

Tão doce e fugaz o sabor

do amor

que me é dado degustar

 

Tão luminosa a réstia de luz

que me é dado vislumbrar

que me projecto

no Espaço

para lá dos limites do planeta

e das estrelas do céu

 

Para lá das glórias da Terra

da ilusão dos dias

das fantasias do coração

 

Precipito-me no Infinito

no Absoluto

na Eternidade

 

Henrique António Pedro