Poema-conto-cântico
de Natal
(Revisto)
A noite
passada nevou
na Terra
Quente Transmontana
e por toda a
Montanha
circundante
Há neve por
todo o lado!
Oh que
alegria tamanha!
Que manhã surpreendente!
Encantada!
Rutilante!
E tudo tão comovente!
Fico mudo
contudo
calado
porque sinto no ar gelado
o frio da natureza humana
porque sinto no ar gelado
o frio da natureza humana
E também cai
neve
em mim…
também me
neva na alma
ainda assim
Porque me lembro dos desgraçados
dos infelizes desabrigados
que andam de
pés ao léu
e não têm como eu
cama quente para dormir
um lar onde se abrigar
e não têm como eu
cama quente para dormir
um lar onde se abrigar
do frio, da
fome e do sofrimento
do desumano
alvedrio
Uma mão amiga sequer
para os
consolar
fazer sonhar e sorrir
fazer sonhar e sorrir
vencer com
alegria
o triste
descontentamento
A neve é
fofa e feérica
embora fria
para quem não lhe sente o sopro
para quem não lhe sente o sopro
frio
na alma e no corpo
na alma e no corpo
Poderá até ser poética e bela
para quem tiver um lar para se aquecer
e agasalho para dela se abrigar
Mas é
patética para quem não a vê cair
ao som de música suave
nem tem comida e bebida
ao som de música suave
nem tem comida e bebida
para bem comer
melhor beber
e paz para usufruir
Ponho-me a
deambular
taciturno
mergulhando na neblina de silêncio
que cobre toda a Natureza
apenas rasgada aqui e além
pelo bater de asas de uma ave
fantasmagórica
mergulhando na neblina de silêncio
que cobre toda a Natureza
apenas rasgada aqui e além
pelo bater de asas de uma ave
fantasmagórica
que foge de
mim
como se eu fora um fantasma
como se eu fora um fantasma
diurno
Só paro ao cair da tarde
Só paro ao cair da tarde
numa
planície erma
gelada
o meu
coração ferve
a minha imaginação
arde
a minha alma
pasma
Tudo em
redor é branco e frio
a própria atmosfera cinzenta
a própria atmosfera cinzenta
mal se
distingue da terra dormente
nevoenta
Especa o negro mastim
atrás de mim
de orelhas espetadas que nem lobo
a farejar algum gesto suspeito
de orelhas espetadas que nem lobo
a farejar algum gesto suspeito
talvez um engodo
a olhar-me fixamente
em canina expressão de fidelidade
e de angustiada interrogação
sobre o que fazemos ali
a olhar-me fixamente
em canina expressão de fidelidade
e de angustiada interrogação
sobre o que fazemos ali
de verdade
na tristeza da noite antecipada
na tristeza da noite antecipada
Acendo uma fogueira no descampado
aclara-se a
escuridão
alegra-se o
meu coração
derrete-se a neve a toda volta
e o espectáculo fica mais belo
e quente
mais digno de gente
De pronto se aproximam os sem-abrigo
os desamparados
os mal-amados da Terra
derrete-se a neve a toda volta
e o espectáculo fica mais belo
e quente
mais digno de gente
De pronto se aproximam os sem-abrigo
os desamparados
os mal-amados da Terra
refugiados
de guerra
novos, velhos e crianças
humanos de todas as cores
dores e sofrimentos
novos, velhos e crianças
humanos de todas as cores
dores e sofrimentos
de
diferentes andanças
Que rodeiam o fogo, receosos
tímidos, silenciosos
enquanto eu gesticulando
Que rodeiam o fogo, receosos
tímidos, silenciosos
enquanto eu gesticulando
vou convidando
para que não esmoreçam:
-Venham! Venham! Se aqueçam!
Em breve uma multidão enorme
estende as mãos para as chamas
que lhe lustram os rostos
sofridos de frio, de fome
para que não esmoreçam:
-Venham! Venham! Se aqueçam!
Em breve uma multidão enorme
estende as mãos para as chamas
que lhe lustram os rostos
sofridos de frio, de fome
e de
indiferença
Dou-lhes de comer do fumeiro
alheiras, linguiças e salpicões
os biscoitos que encontro na dispensa
reparto todo o pão da arca
sirvo taças de vinho fino
para que vençam a apatia
e nos seus corações
Dou-lhes de comer do fumeiro
alheiras, linguiças e salpicões
os biscoitos que encontro na dispensa
reparto todo o pão da arca
sirvo taças de vinho fino
para que vençam a apatia
e nos seus corações
se instale a
alegria
É então que um velho de barbas brancas
já mais alegre e jovial
falando alto abre o coração:
- Viva o nosso Pai Natal!
Não permito que a turba replique
sou eu que contraponho
antes que seja
tarde
e se instale
o sonho:
- O Pai Natal não existe!
- O Pai Natal não existe!
É um logro!
Mas o velho não desiste:
- «Dizem que é o que há demais
nas superfícies comercias
e que vende de tudo
ceroulas, sobretudos e postais»
Todos riem estrondosamente!
Mas de novo se instala a dúvida
e a tristeza,
naquela gente
mais crente nas chamas crepitantes
que em quimeras distantes
Mas eis que de repente
mais crente nas chamas crepitantes
que em quimeras distantes
Mas eis que de repente
uma criança
magra e
macilenta
faz ouvir a sua voz inocente
e apontando-me o seu alvo dedinho
no qual a fogueira reflecte luz
proclama, pura e fagueira:
- «Se não és o Pai Natal…
faz ouvir a sua voz inocente
e apontando-me o seu alvo dedinho
no qual a fogueira reflecte luz
proclama, pura e fagueira:
- «Se não és o Pai Natal…
então és o Menino Jesus!»
E eu…
E eu…
apanhado de
surpresa
envergonhado e comovido
envergonhado e comovido
com tanta
pureza
respondo irreflectido:
- «Também não sou o Deus Menino!
Dizem até que foi raptado do Presépio
que anda por aí perdido
respondo irreflectido:
- «Também não sou o Deus Menino!
Dizem até que foi raptado do Presépio
que anda por aí perdido
nu
e que Nossa Senhora e São José
andam aflitos à Sua procura!
Acaso não serás tu?»
E a criancinha modelar
de voz tão suave e condoída
que mais parecia ser ela, sim, o meigo Jesus
responde baixinho, a contraluz:
- Mas eu não tenho prendas para dar!
É nesta altura que sua mãe
uma mulher jovem e bela
apesar de tamanha miséria
exclama erguendo o filho no ar:
- «És sim! Tu és o Menino Jesus
e tens o Sol para nos dar»
Naquele mesmo instante abre-se o astro rei
flagrante de alegria, calor e amor
a Natureza alumia-se em todo o redor
e a fria neve acende-se de verdade
feérica e linda pelo reflexo da luz solar
e pelo calor da mais pura solidariedade
e que Nossa Senhora e São José
andam aflitos à Sua procura!
Acaso não serás tu?»
E a criancinha modelar
de voz tão suave e condoída
que mais parecia ser ela, sim, o meigo Jesus
responde baixinho, a contraluz:
- Mas eu não tenho prendas para dar!
É nesta altura que sua mãe
uma mulher jovem e bela
apesar de tamanha miséria
exclama erguendo o filho no ar:
- «És sim! Tu és o Menino Jesus
e tens o Sol para nos dar»
Naquele mesmo instante abre-se o astro rei
flagrante de alegria, calor e amor
a Natureza alumia-se em todo o redor
e a fria neve acende-se de verdade
feérica e linda pelo reflexo da luz solar
e pelo calor da mais pura solidariedade
E por toda a
Terra Quente Transmontana
e pela
circundante Montanha
ecoa um coro
de anjos desabrigados:
- “Gloria in excelsis Deo…
e paz na Terra aos homens por Ele amados”
- “Gloria in excelsis Deo…
e paz na Terra aos homens por Ele amados”
in Anamnesis (Janeiro
de 2016)
