Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se. Deixe, por favor, uma breve mensagem. Poderá fazê-lo para o email: hacpedro@hotmail.com. Bem haja. Please leave a brief message. You can do so by email: hacpedro@hotmail.com. Well done.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Dou-me conta de que estou a levitar

(in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016))

Agora mesmo

como se não houvesse amanhã

nem tivesse havido ontem

 

Como se não tivesse existido a hora passada

e vivesse ausente do presente

há já uma eternidade desmemoriada

 

Agora mesmo

sem um relevante pensamento

um apetite evidente

uma ideia emergente

 

Na tranquilidade absoluta

de quem não vai nem vem de nenhuma luta

 

Sem dar conta do tempo passar

sem um zunido sequer que me possa enervar

fora ou dentro dos ouvidos

 

Com todos os sentidos a funcionar esplendidamente

tanto que nem eles se dão conta de si

por nada terem que a mim me dizer

 

De corpo relaxado

e de espírito enlevado

de cérebro todo tomado pela consciência

e a consciência a monitorizar apenas a alma

 

Sem amor

sem ódio

fantasia ou contrição

tristeza ou alegria

teoremas ou dilemas

sem motivos de glória ou de frustração

 

Em puro estado de graça de poesia

de cordão umbilical bamboleante preso a este poema

 

Agora mesmo

dou-me conta de que flutuo

 

Concluo que estou a levitar 

 

Vale de Salgueiro, sábado, 5 de Maio de 2012

Henrique António Pedro