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domingo, 30 de agosto de 2026

Eu o poeta e ela a musa



Imagino poemas no seu rosto

 

Poemas que ela me inspira

Quando se insinua

E que eu versejo

Quando lhe sorrio

 

Poemas que ela declama quando fala

E que eu toco

Quando lhe acaricio os cabelos

 

Poemas que ela dança quando anda

E que eu coreografo

Quando afago o seu corpo

 

Onde está, então, a poesia?

 

Nela, musa, que ilumina

Declama

E dança

Os poemas que eu escrevo?

 

Ou será em mim, o poeta

Que retrato o seu rosto

Afago os seus cabelos

E lhe acaricio o corpo?

 

A fonte da poesia é ela

A musa

 

E o poeta sou eu

Que em verso a canto

 

A poesia somos nós

 

É a nossa voz

 


Vale de Salgueiro, quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

Henrique António Pedro

 

sábado, 29 de agosto de 2026

Monólogo luxurioso


Vem amada minha

Encosta a tua cabeça no meu peito

Deixa que o teu coração se abra

Ao concerto

Deste conceito

 

A libido

Lê-se no dicionário

É um fadário

 

É o desejo

A procura instintiva do prazer

A tentação de ter

A punção do sexo

Sem regra nem nexo

 

O amor

É o natural corolário

Da saudade de Deus

O desígnio

Que nos orienta na procura do divino

E a sua lógica é o Bem

 

O desígnio da libido é o gozo

Sem outro mal

Insere-nos no reino animal

E motiva-nos para a luta

Para a sobrevivência da espécie

 

Mais nos inebria o amor

Iluminado de verdade

Que a cega paixão

Acicatada pelo limão da opressão

 

Mais me encanta a luz dos teus olhos

Faiscantes de afecto

Que a sua cor verde-esmeralda

A queimar-me com o lume do ciúme

Ou a tentação do teu ventre aberto

 

Também quero provocar em ti o ciúme e o cio

Garantir contigo a sobrevivência da raça

Mas também quero que navegues comigo

Na graça da espiritualidade

À procura de Deus

 

Vê como os nossos beijos ganham outro fogo

Os nossos corações outro fôlego

A nossa paixão mais se inflama

E nos nossos espíritos

Se acende outra chama

 


Vale de Salgueiro, 29 de Novembro de 2007

Henrique António Pedro

 

domingo, 23 de agosto de 2026

Não sou poeta por mor de nada nem por amor a ninguém



Não sou poeta de nenhuma causa

De alguma musa encantada

Ou por mando de alguém

 

Muito menos por querer ser

Por vaidade

Ou por sede de poder

 

Sou poeta por ansiedade

Por força da angústia

E da verdade

 

Sou poeta por desejo de glória

E de mais saber

Por querer ir mais além

Por necessidade de ser feliz

Também

E porque à poesia tudo digo

E a poesia tudo me diz

 

Sou poeta porque é meu destino cantar

O amor

A verdade

A amizade

E o bem

 

Sou poeta porque amo

Sofro

E em mim mesmo sinto

Ainda que levezinho

Um certo sopro

Divino


Não sou poeta por mor de nada

Nem por amor a ninguém

Ainda que muito ame

E nem só a quem me quer bem

Vale de Salgueiro, sábado, 18 de Setembro de 2010

Henrique António Pedro

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Chamas de amor e saudade


Já as primeiras rugas e cabelos brancos

se desprendem como pétalas de poesia

expondo as minhas razões livremente

à Razão, ao Sol e à chuva

e me induzem na Alma uma nova alegria

 

Por isso me apraz caminhar alvorada adentro

como quando criança o fazia campos fora

rumo ao Sol

nas manhãs suaves e luminosas de Estio

na ilusória esperança de surpreender o Astro Rei

lá no sítio em que se acoita por detrás do horizonte

 

Mas era sempre o Sol que me surpreendia a mim

invariavelmente

iluminando sorridente todo o vale que se distendia

para lá da derradeira colina que me era dado alcançar

 

Extasiado deixava-me ficar por lá

indiferente

sem pressa nem angústias de espera

ausente da Terra

bem no centro do Universo

que

porque é infinito

tem por Centro qualquer sítio

 

O mesmo Sol me trazia de volta aonde eu dormia

sem me dizer onde pernoitava ele por detrás do horizonte

talvez porque ainda eu o não merecia

dado que apagava a luz mesmo antes de eu adormecer

 

Agora já Deus Nosso Senhor me dá o privilégio

de se sentar à minha mesa

para comigo comer o caldo quente ao fogo da lareira

esse pedaço de Sol que aprisionei com religiosidade

feito de chamas de amor e saudade

para converter as derradeiras quimeras do frio Inverno

nas alegrias e glórias de novas e calorosas Primaveras

 

Vale de Salgueiro, 6 de Janeiro de 2008

Henrique António Pedro

  

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Não!


Ela

de novo…

 

O mágico toque do feminino encanto

a preciosidade de um sorriso preciso

a irresistével simpatia ...

 

muita

tanta alegria ...

 

os lábios carmim

os seios cheios

torneados

os olhos doces

gaiatos

amendoados….

 

e eu

ainda

assim

afogueado

 

Refugio-me em mim

num tudo-nada de chuva e de vento

numa gota de amargura

num pozinho de angústia

numa raiva larvar

numa tristeza de calar

num silêncio de cismar

 

na vontade de voar para outro lugar para fugir do crepúsculo de outro amor que teima em não chegar ao fim…

 

E ela

de novo…

 

A tentadora tentação de voltar a amar…

 

Não

desta vez não!

não me vou deixar apaixonar

 

Vendas Novas, domingo, 6 de Julho de 1973

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Musse de angústia e chocolate, adoçada com ansiedade


Procurava a melhor rima para angústia

 

Fui encontrá-la

Pasme-se

Num livro de culinária

Escarlate

 

Perdida numa receita de musse de chocolate

 

Concluí que chocolate e angústia rimam bem

Numa receita de musse

 

Melhor do que com limão

Manga

Ananás

Ou mamão

 

No meu paladar

Zás-trás

 

Devem os ingredientes ser derretidos

Conjuntamente

Em lume muito brando

Mexendo

E remexendo

Sem cessar

Dando tempo para cantarolar

E assobiar

 

Sem esquecer de adicionar natas de ansiedade

Para que o chocolate fique mais espesso

E escuro

Sem cheirar a esturro

 

Convém molhar o dedo lavado

E chupar

Para se ter a certeza

Que o produto fica bem apalado

 

Verte-se, por fim, a sobremeza

Em sorrisos

E serve-se fria

À mesa

Com um cheirinho de uísque

Para afastar a tristeza

Da psique

 

Ah!

E uma cereja de alegria

Cristalizada

Não vá alguma alma penada

Ficar assombrada

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 9 de Abril de 2010

Henrique António Pedro

 

 

domingo, 16 de agosto de 2026

Pequei. Mea culpa



Mea culpa

 

Pequei

porque sem querer

me apaixonei

não há volta dar

 

Pequei ainda que em abstracto

por pensamento

palavra

desejo

e olhar

 

Ainda que não por acto

porque tal ensejo

me não foi dado consumar

 

Ela é por demais bela

insinuante

e sensual

de morrer só de se ver

 

Cruelmente tentadora

embora não livre de compromissos matrimoniais

e uma mulher assim

não me é dado a mim

amar

jamais

 

E também é pecadora

mais que eu

só porque se insinuou

abertamente me tentou

mas na hora da verdade

pede-me desculpa

diz que lamenta

e piedosamente se afasta

 

Mas a mim a minha falta me basta

por isso aqui venho pedir perdão

de alma aberta

e cumprir a minha pena

sob a forma de poema

 

Deus já relevou o meu pecado

certamente

atendendo à minha condição

de poeta

 

Sinto-me arrependido

desolado

de verdade

 

Espero não ser surpreendido

por uma segunda oportunidade

 

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 15 de Abril de 2010

Henrique António Pedro

 

 

sábado, 15 de agosto de 2026

Procuro-me a mim e encontro Deus


in Angústia, Razão e Nada (Temas Originais, Lda- 2009)

 

Procuro-me a mim

No fascínio do horizonte dalém

Composto das mesmas cristas de montanhas

De que é feito este horizonte daquém

Em que aqui me sento e reflicto

 

São montanhas de dúvidas e angústias

Organizadas em dentes de serras

Feitas de ansiedade e sofrimento

 

O mesmo silêncio e solidão

Me envolve em luz e som

Se fecho portas e janelas

Se me isolo e afogo

Na vertigem sem horizontes de uma discoteca

 

E a minha angústia se exacerba

Quando me dou conta que sou imortal

E me sinto acorrentado sem saber porquê

 

É então que Deus deixa de ser um pesadelo

Um novelo de angústia e ansiedade

Uma turva vidraça de dúvida e silêncio

 

Procuro-me a mim e encontro-O a Ele

A responder ao meu apelo

De esperança e verdade

 

E assim

Já não tenho espaço para morrer

O Cosmos inteiro não é suficientemente amplo

Para tanto


Vale de Salgueiro, 5 de Outubro de 2007

Henrique António Pedro

 

       

 

 

domingo, 9 de agosto de 2026

O imortal morreu



(Honni soit qui mal y pense)

 

O imortal morreu!

 

Foi a enterrar com pompa e circunstância

concorrido foi o funeral

 

Não consta que haja ressuscitado

pelo menos até ver

a menos que ande disfarçado

ou esteja escondido nalgum lugar

à espera de voltar a morrer

quando melhor lhe aprouver

 

O imortal morreu

contrariamente ao que se previa

tal era o seu brilho e vaidade

mas nenhum milagre

aconteceu

para tristeza dos seus

 

Persiste, contudo, a esperança

de que venha a ressuscitar

em mais asados tempos

quando os ventos

soprarem a desconfiança

de vir a vagar

o lugar

de Deus

 

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 24 de Junho de 2010

Henrique António Pedro

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

De gritos e de apitos


A gota da clepsidra
de areia ou de água
regula a vida
com alegria ou mágoa

O som do diapasão
afina o tom
do violão

O sinal do sino tem o dom
de convidar à oração

Já o longo ecoar do gongo
mais parece um lamento
a ecoar no tempo

 

A toque de caixa

todo o soldado se rebaixa

 

Só o som da vuvuzela
iguala o gazear da gazela

O rugido de leão
na savana
a ninguém engana

O barrido do elefante
que raspa o chão
tonitruante
deixa zunido enorme
no ouvido

mas não faz esquecer
o gemido de fome
seja de amor
ou de pão

 

Som que toa à toa

só mesmo o do coração

desafinado de paixão

 

Só o silêncio da morte

de todos o som mais forte

causa dor
e ecoa na Razão

 

A quem tem o dom

do grito, do apito e do assobio

ninguém tira o pio

 

Vale de Salgueiro, domingo, 20 de Junho de 2010

Henrique António Pedro

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Ser poeta não é profissão


Ser poeta não é profissão

não

 

É predisposição

estado de alma

forma de beleza

força da natureza

 

Ser poeta é como ser herói

santo

explorador

aventureiro

pioneiro da conquista do Everest

ainda que a sua poesia não preste

 

Ser poeta não é profissão

não

 

Nenhum poeta celebrado

se alimenta de pão

com poesia amassado

 

O poeta é um visionário diletante

para quem a vida é um fadário

um fluxo refluxo

constante

de tristeza

e de alegria

 

Ser poeta não é profissão

não

 

O poeta é um missionário

voluntário

com a poesia por missão

  

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 15 de Abril de 2010

Henrique António Pedro

 

 

 

 

domingo, 2 de agosto de 2026

Bem-aventurados


Bem-aventurados
são
hoje em dia
todos aqueles que vivem afastados
ou são ignorados pelos mass media
rádios, televisões, internet, jornais


Bem-aventurados
são
hoje em dia
todos aqueles que não são, jamais
dados nem achados
de escândalos, tragédias ou comédias
protagonistas de hipócritas obras de caridade


Bem-aventurados
são
hoje em dia
todos aqueles que vivem a vida com simplicidade
que granjeiam, com verdade, o pão do dia a dia
e amam e sofrem
no silêncio do seu coração

Bem-aventurados
são
hoje em dia
todos aqueles que morrem em silêncio

docemente
em discreta dignidade
chorados com sinceridade
por amigos e familiares
e sem pompa nem circunstância

 

Morte velada por santos e anjos

indiciando que a sua entrada no reino dos céus
não lhes será vedada

certamente


Vale de Salgueiro, quinta-feira, 13 de Novembro de 2008
Henrique António Pedro