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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Luxo, lixo, luz



Há biliões de estrelas cujo brilho não chega até nós

toneladas de gemas preciosas

que nunca serão arrancadas às entranhas da Terra

plêiades de pérolas escondidas nas profundezas do mar

que jamais brilharão em colares de encantar

milhares de mulheres lindas que nunca se vestiram de luxo

que nunca ganharam concurso de beleza algum

e divas maviosas a quem nunca ninguém ouviu a voz

 

Há milhares de heróis esquecidos que a pátria esmorece

e infinitos santos que Roma desconhece

 

Milhares de poetas que mal sabem ler ou escrever

mas que guardam em si as poesias mais belas

 

Há milhões de poemas geniais

que nunca foram lidos nem premiados

que não são notícias dos jornais

nem fazem parte de qualquer antologia

embora sejam declamados

dia-a-dia

 

Vou continuar a sondar o Universo sem fim

a vasculhar o lixo da História

a começar por tudo que existe dentro e fora de mim

e na minha memória

 

Vou continuar a ler os poetas menos lidos

a vitoriar os heróis vencidos

a escutar as verdades dos humildes

a invectivar a vaidade e a guerra

a remexer o húmus da terra

a ouvir e a cantar as canções que mais me apraz

a afastar de mim ilusões

faça sol ou faça vento

 

A procurar a semente pequenina

da verdade

da liberdade

e da alegria

que germina pela Primavera

com a graça de Cristo Jesus

floresce por todo o tempo

acima do lixo e do luxo

em paz e poesia

e explode em luz 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Henrique António Pedro