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segunda-feira, 24 de março de 2025

Valquíria Sigrdrifa



Sinto-lhe o sopro

Finjo-me morto

 

Beija-me a pele

Besunta-me de fel

 

Beija-me os pés

Para mos decepar

 

Beija-me as mãos

Rói-me os dedos

Rouba-me os segredos

 

Beija-me os ouvidos

Para me ensurdecer

 

Beija-me a boca

Para me emudecer

 

Beija-me o sexo

Para me capar

 

Beija-me o coração

Exangue

Chupa-me o sangue

 

Beija-me os olhos

Para as lágrimas

Me sugar

 

Beija-me a face

Para me desfigurar

 

Está escrito

Resisto

 

Beija-me de morte

Sem me matar

 

Quer-me vivo

Nem morto nem vivo

Seu quero ser

 

Vá para onde eu for

Sigrdrifa me persegue

Com ardor

 

Beija-me a alma

Sugar-me o espírito

Não consegue

 

Sou um guerreiro invicto

Jamais um proscrito

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 10 de Agosto de 2010

Henrique António Pedro 

in Mulheres de amor inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013) 

Copyright © Henrique Pedro

 

 

sexta-feira, 21 de março de 2025

Acordem os poetas!


O dia já é tarde
já o crepúsculo da noite envolve a Humanidade

Já o sol da Verdade se pôs
por detrás das montanhas da mentira


Por sobre toda a Terra

pairam o sofrimento e a morte

Já o ribombar das explosões
o fragor dos escândalos
os ecos da falsidade
toam mais alto que as vozes da Razão
e calam os acordes de Amor
os pedidos de perdão

Já a Paz se afunda
no mar da ambição e da guerra
já por sobre toda a Terra

imperam o vício e a miséria


Já o ar
a água
a luz natural
se aproximam da exaustão

Os homens já só carregam violência

e ilusões
dentro de si
sem saberem o que é paz interior
e a justiça já não mora nos seus corações

Já a Civilização se esgota no luxo
no fausto e libertinagem
de alguns
indiferentes à penúria e à miséria
de milhões

Triunfam os perversos
vampiros alados feitos anjos
que dominam todas a técnicas
todas as formas de poder
sugam tudo que o planeta tem
o sangue e o tutano da Humanidade
exangue
 

Exultam os corruptos
é a hora de despertar os justos

Acordem os poetas!


Vale de Salgueiro, 1 de Outubro de 2007

Henrique António Pedro

 


sábado, 15 de março de 2025

DO AMOR SAUDADE



Esqueço-me do tempo

presente ou passado

e da idade

 

Apenas sinto saudade

 

Esqueço-me do futuro

obscuro ou risonho

 

Apenas sonho

e sinto saudade

 

    Esqueço-me do espaço

não sei o que digo

ou faço

 

Apenas amo

e sinto solidão

 

Não sei o que são paixão

rancor

dor

penas

dilemas

ou compaixão

 

Apenas sei o que é amor

e nostalgia

 

Vivo num universo de fantasia

o mundo da poesia

 

Apenas sei e sinto no meu coração

saudade

    um amor imaculado

    uma forma amar em silêncio

    e na solidão

    o que ausente

    por agora ou para sempre

    ou está distante

    ou é passado

 

 Vale de Salgueiro, quinta-feira, 18 de Novembro de 2010

 Henrique António Pedro

 



sexta-feira, 14 de março de 2025

Quando o coração bate à porta da alma


Viver

é o fremente bater

do coração

à porta da alma

entrada da casa de Deus

que só se irá abrir

quando o coração morrer

 

É pura dor

puro pungir

 

Ou talvez não

 

Talvez a alma se abra

enquanto o coração viver

por força de tanto bater

amar e sofrer

se for o amor a acordar a razão

e a fazer o espírito despertar

 

Se o coração tocar

à porta da alma

sem fervor

sem fazer a alma acordar

mais vale deixar de bater

 

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 30 de Julho de 2012

Henrique António Pedro

quarta-feira, 5 de março de 2025

Regresso de para onde nunca parti



Devaneio

 regresso aonde nunca estive

de para onde nunca parti

de onde nunca ninguém veio

 

Regresso

aonde devo estar

para dentro de mim

que é o meu lugar

princípio e fim

 

Este desejo de partir

de ir e vir

é meu destino

 

Nunca parto

nunca parti

nunca estive aqui

 

Mas parto

torno a partir

e retorno

 

Me reparto entre mim e mim

entre o que sou e o que quero ser

entre eu e eu

sem nunca sair daqui

 

É uma forma de me evadir

de ser livre

e de me libertar

para me tornar a prender

 

E assim viverei

mesmo depois de morrer 

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Henrique António Pedro

segunda-feira, 3 de março de 2025

Benilde

 



Benilde

(No jardim das paixões desfalecidas)

 

Benilde jaz agora

pálida, silenciosa e fria

num cemitério vivo

mundo de mármore e granito

onde mal se ouve um grito

o jardim das paixões desfalecidas

 

Para onde se remetem

os amores que arrefecem

ou são esquecidos

mas não morrem por completo

 

Não passa agora de uma estátua vazia

nua e fria

uma lembrança esculpida

petrificada

sem calor, cor ou sentimento

sem um único lamento

nem mais nada

 

Não obstante continuar viva

e a cruzar-se comigo no dia-a-dia

distante

e arredia

nem ela respira

nem eu transpiro

 

Mas não lhe quero mal

nem me inspira dó

nem raiva

tristeza ou alegria

 

Apenas e só

esta banal

poesia

 

Henrique António Pedro

in Mulheres de Amor Inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013)