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segunda-feira, 2 de março de 2026

Genuflexão



Olho-me

vejo-me em mim

a mim mesmo

 

Não careço de espelhos para me olhar

reflicto-me nas minhas angústias

no mar de amarguras que me inunda

por fora e por dentro

vivo o advento de um novo tempo

a espera de uma nova era

embora não saiba quem eu sou

 

Expedito

chapinho nos atoleiros que alagam o caminho

em que me reflicto

eu

o Sol

e o céu

quando por instantes a tempestade se amainou

 

O Sol assim reflectido é chama de esperança

é o meu rosto de criança

 

Sou eu que me vejo reflectido

nos atoleiros do caminho

na coragem e no cansaço

no sucesso e no fracasso

na água e na lama

em toda a condição humana

que chapinho

 

Grande é a minha impaciência

amarguram-me as falsas vitórias

as conquistas da Ciência sem tino

presentes envenenados que inovam a guerra

desumanizam a Humanidade

e destroem toda a Terra

 

São tão desmedidas as minhas ambições

que apenas cabem dentro de mim

único sítio com espaço para todos os corações

 

Oro

choro

ajoelho em oração

 

A poesia é a minha genuflexão

 

Vale de Salgueiro, 6 de Fevereiro de 2008

Henrique António Pedro