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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Apalpando a alma



Afago a cabeça

 

Mimoseio-me

numa tentativa de me encontrar

mas não me encontro

nem é a mim que tacteio

 

Não me enxergo

no crânio escalvado

acabado de sair do barbeiro

 

Mas sinto uma sensação

suprema

que me percorre o corpo inteiro

me pacifica

e me acalma o coração

embora esprema

a Razão

 

Transfiro-me para as cabeças dos dedos das mãos

com que apalpo a caixa craniana

em que se aloja o encéfalo

 

Sinto-me

no curto-circuito que se estabelece

entre a pele dos dedos

e a Mente

sucedânea

 

E dá-me prazer ficar assim

por momentos

a andar à roda

atrás de mim

como pescadinha de rabo na boca

de olhos vendados

a jogar comigo

à cabra-cega

 

Que melhor prova posso querer

da existência de mim

se é a minha alma

que a si própria

se apalpa?!

 

Henrique António Pedro

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

 

 

sábado, 11 de julho de 2026

CHARLOTTE (Os sofrimentos do jovem Werther)


in Mulheres de amor inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013)

 

Na fase mais romântica da minha vida

Em plena alvorada da minha afirmação social

No amor como em tudo

No bem e no mal

Todas as minhas opções de futuro

Devidas e indevidas

Eram romanescas e puras

 

Aquele amor era mútuo

Tão profundo e desmedido

Quanto louco e imprevisível

Mas… oh mor crueldade!

Dolorosamente impossível!

 

Eu descobria o Wherther de Goethe em mim

Ela a Charlotte nela percebia

Eu sofria e ela também sofria

Porque esta minha Charlotte

Com idêntico amor me correspondia

 

Forçados pelas circunstâncias

Acordamos que cada um nós

Calaria aquele amor dentro si

Deixando que o fogo da paixão

Ardesse lentamente no segredo do coração

A coberto de toda a gente

Sem outro confidente

Nem o mais leve grito de razão

 

Assim nos vingaríamos do destino

Das mentalidades sem tino

E da cruel sociedade a quem repugna a verdade

 

Parti sem lhe dizer adeus

Para fugir à dor da despedida

Por não suportar a saudade

De a saber e sentir ao pé de mim

De a amar sem o poder

Nem tão pouco a poder ver

Entristecida

 

Afastado de Charlotte desde então

Vá eu para onde for agora

Lá está ela

Sempre

A arder na minha lembrança

E como eu a sofrer calada

Resignada

Um amor que a ambos consome

Cada vez mais ardente e silente

Mas que ninguém mais pressente

 

Sofro os mesmos sofrimentos do jovem Wherther de Goethe

Mas não cometerei suicídio

 

Embora maior martírio do que assim morrer

E sentir Charlotte a sofrer

Do mesmo amor

A viver uma vida de dor

 

Aborrida

 

Henrique António Pedro

Vale de Salgueiro, 4 de Março de 2008

 

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A minha dor


Mil vezes me ponho a pensar

na minha humildade de poeta

homem que mal sabe caminhar

e já quer voar

 

De mente mal entreaberta

e o coração angustiado

de quem

por vezes

por Deus

se sente mal-amado

 

Mil vezes me ponho a cismar

ser demasiado grande

e pesado

o Cosmos

se a ideia for me castigar

 

Basta o espinho de uma rosa me picar

a dor de uma criança me pôr a chorar

a saudade duma boa lembrança

para me fazer sofrer

e me aniquilar

 

Mil vezes me ponho a pensar

na minha humildade de poeta

que mal sabe amar

e já sonha ser

anjo

quiçá arcanjo

 

Com o coração deslumbrado

de quem

por Deus

se sabe

bem-amado

 

Mil vezes me ponho a pensar

na minha humildade de poeta

que bastaria o sorriso de uma criança

a beleza de uma flor

o despertar de um amor

para me dar a Esperança

de na Cruz de Cristo Jesus

de todo o sofrimento me libertar


Porquê tamanha dor?

 

 

Vale de Salgueiro, domingo, 13 de Março de 2011

Henrique António Pedro

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Quatro metáforas de amor

 


Quatro metáforas de amor

I

Primeiro amor

 

O sorriso tímido

da mulher virgem

que pela manhã

se abre fresca e louçã

como uma flor

 

O véu que esvoaça

agitado pela graça

do desejo dum primeiro beijo

qual rubor cristalino de romã

em face seráfica

A vertigem do amor

no coração inteiro

É o primeiro amor

II

Amor saudade

 

Pétalas

que se evolam das corolas
das flores
em suave definhar


Penas
que se soltam das asas
das aves
sem nenhuma brisa perturbar

o seu voar

Dilemas

que voam livremente
ao sabor da gravidade

É o amor saudade

 

III

Amor sedução


Amada

e amante

envoltos em doce bruma

 

Garrafa de espumante

a explodir

em espuma

 

Ela

enlevada

que se limita a sorrir

a ouvir

e a incendiar

com o olhar

 

Os olhos de amante

impaciente

que faíscam de desejo

 

As mãos que se enlaçam

com presteza

os joelhos que roçam

sob a mesa

 

O jacto efervescente

de lascívia e paixão

que transborda as taças de cristal

 

Os lábios electrizados

que logo se colam

para o bem e para o mal

 

É o amor sedução

  

IV

Amor traição

 

Os picos disfarçados

nos ramos

aculeados

daquela rosa

esplendorosa

que o picou

 

Ela

que continua a sorrir

despudorada

à espera de novo namorado

a quem picar

 

E ele

que sem mentir

pois então

do veneno doloroso

daquela rosa maldosa

ficou vacinado

 

É o amor traição

 

 

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 26 de Abril de 2010

Henrique António Pedro

 

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Ninguém comanda o coração



Ousa persuadir-me que a ame

com gestos ousados

de sedução

 

E eu tento outrossim

 dissuadi-la

com gestos de desdém

que ela me ame a mim

e de que pretenda

e se arrependa

que eu a ame

a ela também

 

Nem ela

nem eu

porém

sabemos como este jogo termina

 

No amor não existe persuasão

nem dissuasão

ninguém o determina

 

Apenas há um momento certo

imprevisto

de bem amar

alguém

 

Ninguém comanda o coração

nem de longe

nem de perto

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

 Henrique António Pedro

 

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Profissão de fé

 


LXII

Profissão de fé

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Esta certeza interior

é do tamanho da minha própria Fé

 

Nem o Pai

nem o Filho

nem o próprio Espírito Santo

me darão tratamento preferencial

na Terra como Céu

nem me tornarão imune a qualquer doença

tragédia, calamidade ou mal

nem me nomearão para um cargo governamental

 

Nem me libertarão de ser eu

a ganhar o meu próprio pão

com o suor do meu próprio rosto

e não deixarão de me olhar

como a todos os mortais

com a mesma distância cósmica

 

Mesmo que muitos achem ridícula

esta minha Fé

não deixarei de acreditar no Pai

no Filho

no Espírito Santo

em Jesus Cristo

na Virgem de Fátima e nos Santos

 

Nem deixarei de respeitar

outras crenças ou indiferenças

de manter uma esperançosa espera

na afirmação da Paz, do Amor e da Verdade

sobre toda Terra

 

Sem fanatismo ou acintoso proselitismo

sem subserviência a igrejas ou ritos

sem procurar conflitos

 

Porque sinto que só pela via da Fé

sem condição

a mim me poderei transformar

e assim cumprir a divina vocação

de me aproximar do Absoluto

Henrique António Pedro