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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Sou um nada ninguém



in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

 

Sou um nada

ninguém

 

Alguém que caminha ao cair da tarde

por chão atapetado de pétalas de flores de tílias

perfumadas

a derramar paz e amor por onde passa

à procura de deixar de ser

um nada ninguém

num amanhã

que tarda

 

Maior glória ninguém poderá sentir

que derramar paz e amor por onde passa

e ainda acrescer o silêncio do mundo

num silencioso devir

 

Só assim

livre

a minha angústia poderá partir

e voar

e me deixar não ser

amanhã

um nada ninguém

 

E nada mais me poder perturbar

ainda mais

 


Vale de Salgueiro, domingo, 27 de Junho de 2010

Henrique António Pedro

 

sábado, 10 de outubro de 2026

A minha alma tal qual eu me sinto



A minha alma tal qual eu me sinto

me ouço e me vejo

não é um louco desejo

 

A minha alma tal qual eu me sinto

não é branca ou negra

etérea ou transparente

deliquescente

ou vaporosa sequer

 

Tão pouco é uma luz interior

magenta

alada

prateada

cor-de-rosa

ou cinzenta

 

É um vórtice de amor dentro de mim

que anseia tudo ao redor envolver

ao som da melodia cósmica sinfónica

 

É a vontade de a Terra inteira abraçar

o Céu, Estrelas e Galáxias

o Universo intemporal

e tudo à vida devolver

em explosão de amor sideral

 

A minha alma tal qual me sinto

e me pressinto

é um sopro de sentimentos

um emaranhado novelo de desvelos

afectos e pensamentos

 

É a radiação do meu cérebro que afago com a mão

ao ritmo do pulsar do meu coração

 

É o meu eu que anima o meu corpo

a voar para Deus

Universo fora

Espírito adentro

feito vento

 

A minha alma tal qual eu me sinto

é o tudo todo que sou eu

 

A minha alma tal qual eu me sinto

sou eu

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Henrique António Pedro

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

De nada serve a luz do dia quando nos amamos à noite



Fecho os olhos

para melhor a ver

com as minhas próprias mãos

 

Guardo no cérebro o seu olhar sedutor

e para melhor a perceber

também abro olhos em cada dedo das mãos

em cada poro da pele

 

Os meus ouvidos ouvem tudo o que tem para me dizer

diga-o ou não

mesmo quando em silêncio

se entrega à devassa dos meus braços

ao esquadrinhar dos meus dedos

 

Ademais o seu corpo ganha fluorescência de tanto prazer

acaba por iluminar o meu

e flutuar no céu

 

Até nada mais haver para ver

ouvir

dizer

apenas e só

sentir

 

Senti-la

eu

a ela

sentir-me

ela

a mim

 

De nada serve a luz do dia quando nos amamos à noite

na doce obscuridade da mais estreme intimidade

e em silêncio

com esfuziante alegria interior

fora do tempo

 

Em transe de êxtase

 

Em arrebatamento de amor

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

Henrique António Pedro

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Poema erudito


A ideia deste poema é nada dizer a ninguém

não obstante quem o ler

seja livre de o interpretar como lhe aprouver

e melhor lhe convém

 

Pretende ser um poema erudito

não há como o contornar

embora o léxico não seja académico

muito menos jargão

não disseque a alma de ninguém

não verbere o acordo ortográfico

nem diga mal de nada

ou fique de boca calada

 

Embora seja assintomático

não respeita o modismo endémico

não segue qualquer corrente literária

muito menos a política agrária

nem é escrito à mesa de café

 

Pode muito bem ser, porém

declamado

e aplaudido de pé

até

como tantos da sua igualha

de muito poeta consagrado

 

Este poema é erudito

sim

mesmo sendo ruim

não fala de coisa nenhuma

nem diz coisa com coisa

 

Quem o ler

nada ficará a saber

embora fique a pensar

e sabe-se lá o quê…

 

…de mim

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 26 de Agosto de 2008

Henrique António Pedro

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Rio Atlântico



Foi outrora um mar

um oceano distante

o Atlântico

 

Que as caravelas do Infante

de seu alvedrio

ousaram devassar

a domar tempestades

a povoar de ilhas

a inundar de lágrimas

e a pescar saudades

 

Não passa, agora, de um rio

de nostalgia

que a toda a hora

o homem insano devassa

 

Embora nas suas margens haja poetas a pescar

poesia

e a acenar

amizades

 

Agora é um cântico

o Atlântico

um rio florido de letras

de rosas e de violetas

de poemas de todo o ano

 

Que poetas a toda a hora

ousam atravessar

tão só para se abraçar

 

Vale de Salgueiro, sábado, 30 de Janeiro de 2010

Henrique António Pedro

 

domingo, 27 de setembro de 2026

Assim desponta Deus


Dúvidas

Dores

Sofrimentos

Dores de corpo

Dores de espírito

E lamentos

 

Angústias e dúvidas

Golpes de boa e má sorte

Temperados de prazeres fugazes

De alegrias efémeras

De esperanças fagueiras

 

Prazeres e sofrimentos que se sentem por todo o corpo

Angústias e dúvidas que espevitam o espírito

 

Amores que se supostamente alegram o coração

Alegrias que não sabemos de onde são

 

Dúvidas que perturbam a Razão

Mas é a morte certa

Grito inaudito

Que mais nos confrange e aperta

 

Uma certeza maior, porém

Advém da Fé

Se o homem de bem se levanta

E caminha de pé

 

É Deus que desponta!

 


Vale de Salgueiro, sábado, 31 de Janeiro de 2009

Henrique António Pedro