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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Húmus


Hoje

vou caminhar adrede

campos fora

noite a dentro

atolar-me na lama dos caminhos

 

Vou esquecer que existo

votar-me ao abandono

diluir-me na Natureza

não responder a ninguém

fintar o sono

tratar as ideias com desdém

 

Vou deixar que a minha angústia

se misture com a água da chuva

em húmus de poesia

que as raízes das plantas a absorvam

e a convertam em seiva

 

Para desabrochar em flores de alegria

já na próxima Primavera

e florir em fruto lá mais para o Outono

 

Hoje

vou caminhar adrede

campos fora

noite a dentro

até entrar em transe

e explodir em êxtase

quando o Sol raiar

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Henrique António Pedro

 

In Anamnesis  (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

 

 

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A CANÇÃO DE AMOR DE DORES ROHA


Apenas tu ser amado

não duvido

tens a ver com a felicidade

que vivo a teu lado

 

Se me assalta a angústia da separação

qual vento desalmado

te digo do fundo do meu coração

o sofrimento que adviria

nada teria a ver contigo

 

Porque ninguém ama por obrigação

ou continua a amar

por gratidão

 

Depende de mim continuar

a apertar as tuas mãos

e de ti continuar a beijar

com teus lábios os meus

mas é no amar e desamar

que mais dependemos de Deus

 

Não deixaria de te amar

nem que te afastasses de mim

ainda que o amor fosse então

uma saudade sem fim

 

Henrique António Pedro, in Códice da Pátria Luanca (Ver o Verso Edições, 2006)

 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

É sempre de mim que eu falo



Quando escrevo poesia

e lanço meus versos ao vento

 

Por demais que me esconda

ou me disfarce

me liberte ou me embarace

é sempre de mim que eu falo

a todo o tempo

 

De mim a mim

e de mim aos outros também

sem constrangimento

é sempre de mim que eu falo

e de mais ninguém

 

Na esperança de que as aves do céu

e as bocas do mundo

leiam os meus versos e ponham ao léu

o mais profundo da minha alma

que vagueia pelos universos

 

À procura de novos juízos

afectos e sorrisos

 

A dilatar a alegria de viver

e força de acreditar

num único amor

numa só forma de amar

sem sofrer

sem ilusão

 

No qual

todos nós

poetas ou não

acabaremos

um dia

por nos reencontrar

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

Henrique António Pedro

domingo, 16 de novembro de 2025

E a si, que lhe diz este poema?



Escrevo este poema deliberadamente

sem nada ter em mente

sem nada ter que dizer

sem querer dizer nada

 

Eu não quero dizer mesmo nada

acredite

tão pouco nada quero desdizer

leia

aceite o meu convite

e dê o seu palpite

 

Escrevo este poema só para dar o prazer

de ler o que lhe apetecer

a quem o quiser ler

 

Só para lhe dizer o quanto podemos dizer

sem dizer nada

ou nada dizer

ainda que quem diz

também se desdiz

 

Este é o dilema!

 

Este poema a mim não me diz nada

mesmo nada

nada me diz

diz-me nada

 

Mas se digo que este poema a mim nada me diz

já me estou a desdizer

 

Que lhe diz, a si, este poema

ainda assim?

 

Muito

pouco

tudo

ou nada?

 

É que a si algo lhe disser

dalgo a mim me há-de dizer

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 3 de Junho de 2010

Henrique António Pedro

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

UMA MALA DE VIAGEM CHEIA DE SONHO E SAUDADE


Viajo para lá do destino

regresso de além

de para onde nunca parti

mesmo se não saí

daqui onde estou

 

A minha mala de viagem

imagem daquilo que sou

leva e traz poemas e dilemas

cama, pijama e roupa lavada

liberdade e farnel

nunca como ou durmo em hotel

 

Sou um viajante inveterado

sempre viajo sem rumo

acompanhado de gente amada

mesmo se viajo só

só para sentir saudade

 

A minha mala de viagem

feita de sonho e de vento

não é fantasia é poesia

mais real que a realidade

com ela viajo no tempo

no espaço da eternidade

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

Henrique António Pedro

 

 

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Escrever poesia é assim como lavrar a Terra


Escrever poesia é assim como lavrar a Terra

para semear pão

tanger docemente o Coração

para encantar amores

vivenciar a Vida em verso

e ficar à espera

de que as dores desapareçam

 

Escrever poesia é tocar com arte e melodia

ouvidos e demais sentidos

iluminar a vista

apurar o olfacto

afagar o tacto

e aguçar a Razão

 

Escrever poesia é estender a mão aberta

para dar e receber

nunca o punho fechado para bater

ou abrir a boca para declamar

nunca para insultar

 

Escrever poesia é amar de amor apenas

com todos os sentidos e dilemas

 

É assim como arar a Terra

lavrar poemas nas pedras do caminho

pegadas destinadas a serem apagadas

ou imortalizadas conforme o destino

 

Vale de Salgueiro, domingo, 25 de Julho de 2010

Henrique António Pedro