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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Do divino fulgor



Quando, num só tempo, sofremos e amamos

E o coração nos dói do mais puro amor

Ou ainda mais amamos quem está com dor

E a essa mesma dor também nos entregamos

 

Ou quando de quem amamos nos separamos

E mergulhamos na tristeza e no torpor

Ou quem bem nos ama nos recebe com calor

Se nós de um longo afastamento regressamos

 

Ou se a morte, a mais cruel realidade

Nos obriga a um definitivo adeus

A quem também nós muito queremos de verdade

 

Se ainda assim damos louvores aos céus

Será quando com a maior claridade

Em nós sentimos o divino fulgor de Deus

 

Vale de Salgueiro, sábado, 13 de Setembro de 2008

Henrique António Pedro

 

 

                                                                                      

sábado, 12 de setembro de 2026

A minha sina é amar


Caros

e raros

contrários

 

Dois ou três

não mais

 

Pessoas com quem não me dou bem

não nomeio

nem reclamo

não estimo nem odeio

de uma certa forma até amo

 

Contam-se pelos dedos dos pés

porque os pés servem para trepar

e andar

e as mãos

guardo-as para coisas mais belas

como escrever

apertar

orar

acariciar

 

Bizarra é esta inimizade

de pouca monta

que vem de gente a quem nunca fiz mal

o que não é normal

 

Gente louca que não se contém

que gosta de ser bajulada

e quando se lhes diz a verdade

respondem à canelada

 

Cegos de cegueira

de orgulho

ambição

e vaidade

só olham para os seus umbigos

 

Já os amigos de verdade

esses

são tantos

que nem com os dedos das mãos se contam

porque a amizade não tem conta

nem contabilidade

 

Lá bem no fundo

o ânimo que me anima

a minha sina

é amar e fazer bem

mesmo aos meus raros e caros contrários

 

Vale de Salgueiro, sábado, 28 de Agosto de 2010

Henrique António Pedro

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Que mil bombas de amor deflagrem sobre a Terra



Calar a verdade é pior que mentir

 Mentir é explorar e subtrair

Dar para receber é comprar e vender

Amar sem amor é uma forma de odiar

Que os vírus malditos sejam de pronto circunscritos

Que o ódio e o terror não vençam o amor

Urge libertar a Humanidade do vício e da animalidade

Proclamar a paz a pensar na guerra

é uma forma de guerrear

Que os donos do mundo reflictam

para que Hiroxima e Nagasaki se não repitam

 

Que mil bombas de amor deflagrem sobre a Terra

para que a Paz triunfe sobre a guerra

 

Vale de Salgueiro, 1 de Setembro de 2007

Henrique António Pedro

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A solidão maior


A solidão maior não mora além

lá no deserto

quando em redor de nós

nem sentimos ninguém

 

A solidão maior

não a sofremos na dor

quando longe ou perto

ninguém sofre como nós

 

A solidão maior

não a vivemos no silêncio da noite

quando gritamos

e ninguém nos ouve

 

A solidão maior

sentimo-la na alegria

quando mais ninguém

como nós

sorri

 

Sofremo-la à luz do dia

que nos obriga a esconder

um grande amor


A solidão maior é 

viver

sem amor e sem fé

 


Vale de Salgueiro, domingo, 19 de Fevereiro de 2012

Henrique António Pedro

 

 

domingo, 6 de setembro de 2026

Parti, de mansinho, para não a acordar


Parti

de mansinho

para não a acordar

porque percebi que sonhava comigo

 

Sorri

aconcheguei-lhe a roupa

beijei-a na testa

e escrevi este poema balsâmico

na sua agenda aberta

sobre a mesinha de cabeceira

mesmo à beira do despertador

 

Para que quando o alarme tocar

e a fizer acordar

sinta o meu amor

e não entre em pânico

por não me encontrar deitado a seu lado

 

Também

para lhe dizer

que por nenhuma razão

a quero perder

e que estará sempre presente no meu coração

 

E que enquanto eu estiver ausente

por obrigação

andarei sempre a penar de paixão

deserto de desejos dela

do seu carinho

e dos seus beijos

 

Por isso parti

assim devagarinho

sem a acordar

porque percebi

que sonhava comigo

 

 

Vale de Salgueiro, sábado, 27 de Setembro de 2008

Henrique António Pedro

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Será que ando a enganar toda a gente, sem querer?


Por mais que tente

não consigo escrever com verdade

mesmo o que agora escrevo aqui

no poema vertente

 

Será que minto

então

e ando a enganar toda a gente

sem querer?

 

A questão é que quem lê

sempre lê de forma diferente

 

Mesmo se a minha vida fosse filmada

se a minha alma fosse fotografada

se registassem em banda sonora fidedigna

o bater do meu coração

cada qual visionaria

ouviria

e raciocinaria

na sua própria perspectiva

 

Razão pela qual, também eu, quando leio

nunca espero ler a verdade

apenas um arranjo poético

do muito que permanece encoberto

 

A isto se resume

toda a beleza e doçura da poesia

 

Porque poeta que se assume

por mais que se reserve

sempre fala e escreve

de coração aberto

 

Vale de Salgueiro, Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Henrique António Pedro