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quarta-feira, 26 de março de 2025

Um primeiro beijo



Recordo agora

que é tempo de vindimas

os silvedos floriram

se emolduraram de botões de amora

doces

pequeninas

 

Recordo o ensejo do primeiro beijo

naquela manhã louçã

na verde verdade da mocidade

em que se não mente

e o amor arde

suave

 

Quando uvas, amoras, espigas e raparigas

amaduram simultaneamente

mas os rapazes só mais tarde

 

Ela colocou uma amora silvestre

aveludada

entre os seus lábios carnudos

carmim

e com o olhar lampejante de sedução

desafiou-me matreira

a que eu

com os meus lábios também

lhe roubasse a doce drupa

 

Percebi a brincadeira

não resisti

lancei-me de pronto

na inocente disputa

 

Mas aconteceu o inesperado

quando os lábios se tocaram

todos os sentidos falaram

soltando descargas eléctricas

magnéticas

por todo o lado

em catadupa

a própria alma voou de leveza

 

Segurei-lhe então a cabeça pela nuca

para a agarrar com mais firmeza

ela fez-me o mesmo a mim

donde resultou assim sem querer

e sem eu saber

naquela mesma hora

que se esborrachou a amora do amor

e os lábios

o rosto

o coração

se pintalgaram com o sumo da paixão

do ensejo de um primeiro beijo

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 24 de março de 2025

Valquíria Sigrdrifa



Sinto-lhe o sopro

Finjo-me morto

 

Beija-me a pele

Besunta-me de fel

 

Beija-me os pés

Para mos decepar

 

Beija-me as mãos

Rói-me os dedos

Rouba-me os segredos

 

Beija-me os ouvidos

Para me ensurdecer

 

Beija-me a boca

Para me emudecer

 

Beija-me o sexo

Para me capar

 

Beija-me o coração

Exangue

Chupa-me o sangue

 

Beija-me os olhos

Para as lágrimas

Me sugar

 

Beija-me a face

Para me desfigurar

 

Está escrito

Resisto

 

Beija-me de morte

Sem me matar

 

Quer-me vivo

Nem morto nem vivo

Seu quero ser

 

Vá para onde eu for

Sigrdrifa me persegue

Com ardor

 

Beija-me a alma

Sugar-me o espírito

Não consegue

 

Sou um guerreiro invicto

Jamais um proscrito

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 10 de Agosto de 2010

Henrique António Pedro 

in Mulheres de amor inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013) 

Copyright © Henrique Pedro

 

 

sexta-feira, 21 de março de 2025

Acordem os poetas!


O dia já é tarde
já o crepúsculo da noite envolve a Humanidade

Já o sol da Verdade se pôs
por detrás das montanhas da mentira


Por sobre toda a Terra

pairam o sofrimento e a morte

Já o ribombar das explosões
o fragor dos escândalos
os ecos da falsidade
toam mais alto que as vozes da Razão
e calam os acordes de Amor
os pedidos de perdão

Já a Paz se afunda
no mar da ambição e da guerra
já por sobre toda a Terra

imperam o vício e a miséria


Já o ar
a água
a luz natural
se aproximam da exaustão

Os homens já só carregam violência

e ilusões
dentro de si
sem saberem o que é paz interior
e a justiça já não mora nos seus corações

Já a Civilização se esgota no luxo
no fausto e libertinagem
de alguns
indiferentes à penúria e à miséria
de milhões

Triunfam os perversos
vampiros alados feitos anjos
que dominam todas a técnicas
todas as formas de poder
sugam tudo que o planeta tem
o sangue e o tutano da Humanidade
exangue
 

Exultam os corruptos
é a hora de despertar os justos

Acordem os poetas!


Vale de Salgueiro, 1 de Outubro de 2007

Henrique António Pedro

 


sábado, 15 de março de 2025

DO AMOR SAUDADE



Esqueço-me do tempo

presente ou passado

e da idade

 

Apenas sinto saudade

 

Esqueço-me do futuro

obscuro ou risonho

 

Apenas sonho

e sinto saudade

 

    Esqueço-me do espaço

não sei o que digo

ou faço

 

Apenas amo

e sinto solidão

 

Não sei o que são paixão

rancor

dor

penas

dilemas

ou compaixão

 

Apenas sei o que é amor

e nostalgia

 

Vivo num universo de fantasia

o mundo da poesia

 

Apenas sei e sinto no meu coração

saudade

    um amor imaculado

    uma forma amar em silêncio

    e na solidão

    o que ausente

    por agora ou para sempre

    ou está distante

    ou é passado

 

 Vale de Salgueiro, quinta-feira, 18 de Novembro de 2010

 Henrique António Pedro

 



sexta-feira, 14 de março de 2025

Quando o coração bate à porta da alma


Viver

é o fremente bater

do coração

à porta da alma

entrada da casa de Deus

que só se irá abrir

quando o coração morrer

 

É pura dor

puro pungir

 

Ou talvez não

 

Talvez a alma se abra

enquanto o coração viver

por força de tanto bater

amar e sofrer

se for o amor a acordar a razão

e a fazer o espírito despertar

 

Se o coração tocar

à porta da alma

sem fervor

sem fazer a alma acordar

mais vale deixar de bater

 

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 30 de Julho de 2012

Henrique António Pedro

quarta-feira, 5 de março de 2025

Regresso de para onde nunca parti



Devaneio

 regresso aonde nunca estive

de para onde nunca parti

de onde nunca ninguém veio

 

Regresso

aonde devo estar

para dentro de mim

que é o meu lugar

princípio e fim

 

Este desejo de partir

de ir e vir

é meu destino

 

Nunca parto

nunca parti

nunca estive aqui

 

Mas parto

torno a partir

e retorno

 

Me reparto entre mim e mim

entre o que sou e o que quero ser

entre eu e eu

sem nunca sair daqui

 

É uma forma de me evadir

de ser livre

e de me libertar

para me tornar a prender

 

E assim viverei

mesmo depois de morrer 

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Henrique António Pedro