Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se. Deixe, por favor, uma breve mensagem. Poderá fazê-lo para o email: hacpedro@hotmail.com. Bem haja. Please leave a brief message. You can do so by email: hacpedro@hotmail.com. Well done.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Benilde

 



Benilde

(No jardim das paixões desfalecidas)

 

Benilde jaz agora

pálida, silenciosa e fria

num cemitério vivo

mundo de mármore e granito

onde mal se ouve um grito

o jardim das paixões desfalecidas

 

Para onde se remetem

os amores que arrefecem

ou são esquecidos

mas não morrem por completo

 

Não passa agora de uma estátua vazia

nua e fria

uma lembrança esculpida

petrificada

sem calor, cor ou sentimento

sem um único lamento

nem mais nada

 

Não obstante continuar viva

e a cruzar-se comigo no dia-a-dia

distante

e arredia

nem ela respira

nem eu transpiro

 

Mas não lhe quero mal

nem me inspira dó

nem raiva

tristeza ou alegria

 

Apenas e só

esta banal

poesia

 

Henrique António Pedro

in Mulheres de Amor Inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Ando a ler o livro da minha vida



Ando a ler o livro da minha vida

sofrida

de alma aberta

a tentar compreender

o que Deus lá escreveu

que ainda ninguém leu

e porque fez de mim poeta

 

Folheio com alegria cristã

as folhas do dia a dia

tentando adivinhar o amanhã

e até quando

esta história de glória

irá durar

 

Os meus poemas são anotações à margem

a minha poesia uma pálida imagem

do que sou e não sei

pobre marginália

parafernália de emoções

com que tento interpretar

a razão de ser de tanto sofrer

e de muito mais amar

 

São dúvidas

interrogações

hinos de louvor ao Criador

desejo de não morrer

  

São o antecipar do devir

a marca do meu ser

o timbre do meu sentir

 

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 16 de Março de 2010

Henrique António Pedro

 

 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Só porque sonhar é viver


Sonhamos quando dormimos

adormecidos de amor

sonhamos acordados

despertados de saudade

 

Sonhamos quando voamos

numa anelada realidade

diferente daquela que a vida

demente

nos consente

 

Sonhamos se somos felizes

sem adormecer

por não acreditarmos

que tal nos está a acontecer

 

Sonhamos sem querer

e sem ensejo

sonhos súcubos e íncubos

se adormecemos com desejo

e acordamos com ansiedade

 

Sonhamos mil ideias em atropelo

se a vida é pesadelo

só porque sonhar é viver

 

Vale de Salgueiro, 22 de Maio de 2008

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

No arrebol do pôr do sol


Em tarde calma

deixo-me ficar

langoroso

abandonado de corpo e alma

mergulhado no arrebol do pôr do sol

a reviver o meu passado amoroso

sem vontade dali sair

 

A melhor memória

a que mais me faz sentir

ainda assim

aquela que mais me seduz

não é nenhum feito glorioso

mas tudo que se traduz

em poesia

 

A nenhum passado quero voltar

ao presente estou circunscrito

de nenhum futuro proscrito

 

Trago as lembranças até mim

em contida alegria

fascinante frenesim

ainda assim

 

Que ecoa no espírito

em estuante sinfonia

 

Vale de Salgueiro, sábado, 17 de Abril de 2010

Henrique António Pedro

 

 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Gipsófila


Iludida

Anda perdida

Demente a mentir

A saltitar de pedra em pedra

A navegar de mar em mar

De fantasia e imaginação

Quando sabe faltar amor

Em tanto lar

E pão

Em tantas mesas

 

Espera

Ansiosa

A floração da gipsófila

Mais dia menos dia

A florir

Em molhos de alegrias

 

A dores

As suporta melhor

A sorrir

 

Então que sejam as flores

A alegrar

Tamanhas tristezas

 

Até quando

Lhe for dado sofrer

Com algum prazer

 

Até quando vai tendo

Amores e dores

 

Nunca fiando

 

Vale de Salgueiro, sábado, 7 de Maio de 2011

Henrique António Pedro

 


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Porque se concertam em poemas certas palavras?



Poderiam não ser mais que gritos

grunhidos

sussurros

arrulhos

insultos

lamentos

chamamentos

apelos de poetas aflitos

 

Poderiam ser apenas expressões de cor

de dor

e de dó

de medo

maldade

fome

desejo

tão só

teia de intriga

que se maldiga

 

Porque se concertam em poemas

então

certas palavras

e outras não

e as não leva o vento

como às demais?

 

Porque consubstanciam ideia

e ideal

fantasia e melodia

 

Porque são poesia

intemporal

e trazem apelos de amor

na raiz

 

Porque mesmo se falam de sofrimento

sempre fazem alguém feliz

 

 

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 11 de Junho de 2012

Henrique António Pedro