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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

PALAVRAS QUE O VENTO TRAZ E LEVA


É ar a voar pelo ar

o vento

 

É sopro que atiça a brasa mortiça

 

É pensamento a soprar por nós adentro

instrumento de sopro a tocar

pulmão de soprano a cantar

perfume a atear o lume da paixão

 

É ar de aves de asas a adejar

 

É pente que de repente despenteia

a cabeleira da mulher

e que sem querer

lhe dá poético parecer

 

É pé de povo revoltado

balão de vaidade insuflado

até rebentar

 

É bafejo de desejo sem pejo

odre podre a peidar

bufo saído da boca do tartufo

 

É fole a soprar

sem ter nada dentro

 

É verdade

o vento

a varrer o lixo prolixo

das ruas do nosso viver

 

É nuvem de lágrimas

à procura de regaço

onde se verter

 

É respirar ofegante de quem quer vencer

 

É aragem de imagem de verdade e santidade

 

É ar em movimento

o vento

palavras de amor ou sofrimento

que traz leva  

conforme lhe apraz

 

 

 

Vale de Salgueiro, sábado, 24 de Janeiro de 2009

Henrique António Pedro


domingo, 25 de janeiro de 2026

Eu sabia que um qualquer dia


Eu sabia

que um qualquer dia

havia

de lá tornar

 

Era o coração que mo dizia

 

E que ao lá voltar

voltava a muitos mais lugares

separados no tempo

espalhados, mas ligados

pelo mesmo fio de sentimento

numa mesma conexão

que só mais tarde compreendi

 

Só não sabia

que seria

assim tão de repente

sem causa visível

ou aparente

 

Só não sabia

que encontraria

tudo assim tão diferente

tantos espaços desertos

tanta gente ausente

tantos silêncios abertos

 

Fiquei por isso parado

calado

no doce prazer de sofrer

a recordar

tomado de nostalgia

 

Daquela galega morrinha

que ainda agora

agorinha

me não mata

mas me mói

 

Doer

de verdade

dói a saudade

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 7 de Setembro de 2010

Henrique António Pedro

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A QUEM ME LÊ ME CONFESSO



Humilde poeta confesso

sempre falo de mim na poesia que escrevo

por não saber guardar segredo

 

Mesmo quando de mim nada digo

porque de mim nada sei

 

Mas mais de mim digo naquilo que de mim escondo

sem querer

do que naquilo que de mim tento não dizer

ou no que a mim mesmo escondo

sem saber

 

Mas quem me souber ler com perspicácia

vencerá a minha audácia em me esconder

e mais do que eu mesmo

de mim mais ficará a saber

 

De mim próprio apenas sei

confesso

que não sou não o poeta que penso

mas o poeta professo que ainda assim

gostaria de ser

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Henrique António Pedro

 

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Melhor é amar sem dar pelo tempo passar


As folhas do calendário

são o nosso fadário

diário

 

Registam os dias

os meses e os anos

as alegrias

os enganos

e o tempo de sofrimento

 

Os relógios contam as horas

e as demoras da felicidade a chegar

 

Não há tempo a perder

 

Melhor será mesmo esquecer

e parar de sofrer

 

Melhor é amar sem dar pelo tempo passar

 

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 31 de Dezembro de 2012

Henrique António Pedro

 

sábado, 17 de janeiro de 2026

O Deve e o Haver do Amor



O que é a Felicidade

na verdade

não sei

 

Também o que é a Verdade

não tenho a felicidade

de saber

 

Da Felicidade conheço, porém

o paladar

e da Verdade

o querer

 

Sei que o sabor da Felicidade é o Amor

e que o sentido da Verdade é o dever

 

Que a Verdade é o deve

a Felicidade o haver

 

Verdade e Felicidade

só podemos almejar

por via de amar

de sofrer

e de bem fazer

 

Deve amar

quem quiser amor haver

 

Vale de Salgueiro, 2017

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O depenar de uma paixão


Eu mal lia os poemas que lhe escrevia

de tão cego que andava

 

E ela mal ouvia as palavras que me dizia

de tão embevecida

com a emoção que sentia

 

Cada um a si mesmo se enganava

com a sua própria ideia de amor

por isso maior foi a dor

da separação

 

Tento agora

pela minha parte

varrer

em vão

as penas da recordação

fingindo que foram apenas poemas

 

Ela tenta juntá-las para que se não aparte

de nós

a paixão

 

Pura ilusão

 

Apenas andamos a depenar

o que resta dessa louca afectação

 

E mais o meu e o seu coração

se desdoura

com o vento da vassoura

que põe as penas a cirandar

ainda mais

no ar

  

Vale de Salgueiro, domingo, 16 de Setembro de 2012

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A minha ambição maior


A minha maior ambição

é poder expressar

este poema permanente

que desde sempre

trago no coração

 

Fora da disputa demente

da política e do poder

da história e da glória

e dos enredos da religião

sem me tornar proscrito

da fé em Jesus Cristo

 

Dando prioridade absoluta

e com infinita Humildade

à Verdade e ao Amor

a doutrina do Salvador

 

E ousar

mais do que tudo saber

alcançar a Iluminação

mesmo antes de morrer

 

Vale de Salgueiro, domingo de Páscoa, 8 de Abril de 2012

Henrique António Pedro

 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Os pardos pardais



São demais os pardos pardais

 

São mais que as mães e os pais

 

Não fazem os ninhos apenas nos beirais

como as andorinhas

 

São aves daninhas

como os estorninhos

que em ruidoso bando

mal poisando

devoram o trigo nos trigais

e as azeitonas nos olivais

 

De tudo fazem contrabando

os pardos pardais

sempre a manducar

e a chiar

que outro canto

não sabem cantar

 

São livres e imortais

os pardos pardais

 

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Por agora


Por agora

no presente

vivo de coisas pequenas

de pequenos poemas

de breves instantes

não de coisas desmedidas

grandes

 

Anima-me o bater compassado do coração

não o ruído histriónico da ambição

 

É o amor que permanece

não a paixão

que poderá ou não

acontecer

 

Por agora

o meu presente

acontece a cada instante


É abundante de coisas lindas

de amores

de flores

de frutos

de estrelas

de poesias

que sem que eu me aperceba

iluminam os meus dias

 

 

Vale de Salgueiro, sábado, 9 de Outubro de 2010

 

Henrique António Pedro

 

 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Coisas sem tino que a vida tem


Tantas coisas sem tino a vida tem!

 

Todas têm destino

porém

 

Na paz ou na guerra

cá na Terra ou lá no céu

sobretudo a morte

Deus meu!

 

Os golpes de má sorte

a dor que não acaba

a felicidade adiada

ou a paixão que chega ao fim

parecem não ter sentido

nem terem valido de nada

qual vozes que o vento leva

 

Mas será que é mesmo assim?

 

A lembrança delével que o tempo releva

e na memória se tolda

poderá bem ser a transformação indelével

que nos molda

definitivamente

 

Tantas coisas sem tino a vida tem!

 

Perceberemos com o tempo

porém

que tudo o que fica dentro nós

para sempre

tudo levaremos para o Além

a sós

certamente

 

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Deite-me a sua bênção, avô!



Este conto que aqui e agora lhes conto é breve porque é para ser lido por meninas e meninos que embora sejam ainda pequeninos de corpo têm a alma grande, do tamanho do amor que é a coisa maior que há.

Tudo se terá passado em Vale de Rosas, pequenina, mas formosa aldeia da Terra Quente transmontana aninhada entre olivais, vinhedos e searas. Ou terá sido numa aldeia da Terra Fria bem aconchegada entre soutos e lameiros verdejantes onde pastavam pachorrentos bois, ovelhas e vitelos? Não sei.

Sei, isso sim, que aconteceu numa qualquer aldeia transmontana, em tempos que já lá vão, embora não haja muitos anos, quando o Inverno era mais frio do que agora e que por isso em todas as casas crepitavam lareiras luminosas em que se aqueciam os pés, as mãos, o corpo todo, os rostos se afogueavam de serena alegria e as mães e as avós cozinhavam ceias deliciosas em pesadas panelas e potes de ferro.

Quando o Pai Natal ainda não tinha sido inventado porque as chaminés eram estreitas demais para nelas caber tão balofa e anafada figura.

 O Menino Jesus, porém, bem mais pequenino e leve, e que já havia nascido em Belém há mais de dois mil anos, cabia em qualquer lugar, mesmo nos corações mais apertados. Dizia-se que vinha do céu, envolto num sopro de luz e de amor, colocar prendas nos sapatinhos que os meninos e as meninas colocassem ao pé da chaminé, antes de se irem deitar. E que entrava de mansinho, pé ante pé, para os não acordar, não fosse interromper algum sonho lindo que estivessem a sonhar.

Ah! Mas já havia pobres e ricos naquele tempo, muito embora a miséria ainda fosse quase só de pão e desconforto e não composta dos males terríveis que hoje em dia muito fazem sofrer a Humanidade.

 Até havia ricos que eram uns desgraçados e pobres que eram afortunados, quando, nos tempos que correm, se diz que só a riqueza traz felicidade. Não era o caso da família de Artuzinho que vivia feliz com os pais e com o avô João, depois que a avó Rosalina falecera, apesar de não serem assim tão ricos.

Ora, em vésperas de Natal, os pais do Arturzinho recomendaram-lhe docemente que não esperasse prendas caras do Menino Jesus porque, foi a mãe que lhe explicou:

- Arturzinho, meu amor, olha que o Menino Jesus esgota os melhores presentes com os meninos ricos. Ainda assim, porta-te bem que a ti também alguma coisa te há-de tocar.

Um tanto triste, é certo, mas resignado, Arturzinho, como todas as noites fazia antes de ir dormir, abeirou-se do avô João que dormitava sentado no canto do escano mais próximo da lareira e tomou-lhe a mão enrugada, que beijou com delicadeza, dizendo docemente:

-Deite-me a sua bênção, avô!

Ao que o avô, abrindo os olhos respondeu com ternura, afagando a cabecita do menino:

- Que o Deus te abençoe querido netinho.

E foi assim que Arturzinho naquela noite de consoada, se foi deitar na enxerga de palha do costume, conformado, enquanto o avô se deliciava, em silêncio, com amor daquele netinho que lhe aquecia a alma ainda mais que as chamas rubras lhe aqueciam o corpo.

 Sabe-se lá porque mágica coincidência, Arturzinho sonhou, e logo naquela noite, com o pássaro de madeira que tinha rodinhas e batia as asas quando rodava e que vira na festa da Nossa Senhora do Amparo, no Verão passado.

Verdade seja dita que os pais do Arturzinho também não tardaram na cama, depois que a mãe arrumara a cozinha, terminada a ceia frugal, que nada mais teve que o tradicional bacalhau cozido e filhós pingadas de mel.

 Também eles entristecidos por não terem nada de jeito para colocar nos socos pequeninos que Artuzinho, mesmo assim, não deixou de colocar ao pé da lareira já enfraquecida.

O avô João, porém, que como São José fora hábil carpinteiro e que bem se apercebera de como o neto ficara encantado com o pássaro de madeira que batia as asas quando rodava e que vira na festa da Senhora do Amparo no Verão passado, fingiu que dormitava e não se apercebera de coisa nenhuma.

 Só quando se assegurou de que todos dormiam profundamente se deslocou silenciosamente à oficina em que durante dias trabalhara às escondidas, regressando com um tosco embrulho de papel de jornal.

Começa aqui o melhor da história!

 Imaginem, se puderem, a alegria do Arturzinho quando no dia seguinte se aproximou, ainda descalço, da chaminé e viu sobre os tamancos de todos dias, um grande pássaro de madeira, lindo, brilhante de verniz e matizado de mil cores.

 Por momentos pensou que ainda estava a sonhar nem se dando conta que o Menino Jesus, ou alguém por ele, também lá deixara as peúgas de lá que a mãe andara, afadigada, a tricotar nas horas vagas.

Mas mais encantado Arturzinho ficou quando empurrou o pássaro pelo chão e ele começou a bater a asas freneticamente e a tocar, estridente, a campainha.

Escusado será dizer que o Arturzinho ainda hoje acredita que aquele pássaro fantástico foi obra do Menino Jesus, apesar dos pais, que, entretanto, se renderam ao mito criado pelos publicitários, o tentarem convencer que não fora o Menino Jesus mas sim o Pai Natal que o presenteara. Pai Natal que não desceu pela chaminé, é claro, porque era gordo demais para tanto, mas entrou pela porta que por distração ficara mal fechada.

 Permitam-me que seja eu a esclarecer o dilema: foi sim a graça do Menino Jesus embora com a bênção do avô João que ofereceu a Arturzinho aquele mágico pássaro de madeira que batia as asas quando rodava.

O avô João continua a dormitar à lareira, feliz embora sem se manifestar. De vez em quando, porém, espreita pelo canto do olho não vá alguma rodas do pássaro se desprender de tanto bater as asas e interromper a felicidade do seu querido netinho.

(Do meu livro de contos inédito “Contos rurais transmontanos” )

 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Lágrimas de mãe



Dizem que as lágrimas mais não são que gotas de água

salgada

 

Mesmo se amorosas rolam pela face

silenciosas

produto de amor

de dor

ou de alegria

quando não são disfarce

teatro abstracto

pura poesia

 

E também dizem que não

que não nascem na alma

mas que vêm

quando muito

do coração

 

As lágrimas de uma mãe

essas

porém

sempre vêm de muito mais além

 

Nascem no fundo do devir

nas entranhas do ser

seja o que for que faz a mãe

sorrir

ou sofrer

antes mesmo de o filho nascer

 

E quando são lágrimas de dor

ilumina-as a mesma luz

o mesmo amor

das que chorou a Virgem Maria

aos pés da Cruz

 

Vale de Salgueiro, sábado, 14 de Novembro de 2009

Henrique António Pedro

 

 


sábado, 20 de dezembro de 2025

O QUE FALTA NESTE NATAL É O QUE MAIS FALTA FAZ!



Muito embora a noite fosse fria

havia muito amor e muita luz

no divino presépio de Belém

em que nasceu o Menino Jesus

iluminado pelo luar e pelas estrelas do céu

com anjos a cantar também

cânticos de Alegria

de Esperança

e de Fé

  

Também não faltou à Divina Criança

o calor do seio de Sua mãe, a Virgem Maria

e a companhia de Seu pai, São José

 

No Natal, de hoje em dia, porém

não faltam prendas, prebendas, sinecuras

tudo que o dinheiro atrai

 

O que há demais são luzes e molduras

enfeites de encanto a brilhar em cada canto

nos ares, nos lares, nas catedrais

e nos centros comerciais

 

O que falta faz neste Natal não são Pais Natais, não!

Isso é, até, o que há demais

 

O que falta neste Natal, hoje em dia, é Alegria

é a ternura das mães e dos pais!

 

É Amor e Paz o que mais falta faz, ainda assim

 

É o Menino Jesus, isso sim!

 

O que falta neste Natal é o que mais falta faz!

 

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 24 de Dezembro de 2012

Henrique António Pedro