Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se. Deixe, por favor, uma breve mensagem. Poderá fazê-lo para o email: hacpedro@hotmail.com. Bem haja. Please leave a brief message. You can do so by email: hacpedro@hotmail.com. Well done.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Ora aqui, ora além, a orar

 


 


Por veredas e caminhos rurais

pedregosos

que ora sobem

ora descem

sinuosos

exercito músculos

tendões

e articulações

 

Caminho

com o cérebro a comandar

e lembranças da infância

em surdina

a chamar

 

Com o espírito ora aqui

ora ali

ora além

a orar

saudade

 

Por sítios do passado

a que voltarei

sempre

nunca

nem sei

jamais

 

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016) 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 23 de Julho de 2009

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

No centro do Universo


Ao cair da tarde

levantou-se docemente

uma brisa suave

para embalar a Natureza

e convidar humanos e animais

seus iguais

a adormecerem

serenamente

 

Ergueu-se no horizonte, de repente

a Lua cheia

grávida

resplandecente

em perseguição do Sol

que se escondia por entre nuvens

para se não deixar apanhar

por não querer assumir

a paternidade

 

Até que a noite caiu, suavemente

e a Lua abriu o regaço diáfano

polvilhando o Firmamento

com as estrelas cintilantes

que salpicam com fantasia

o humano entendimento

 

Tudo isto aqui na Terra

bem o centro do Universo

em que a Humanidade

continua a adormecer

e a acordar

na paz e na guerra

até um dia poder compreender

porque se esconde a Verdade

em tão sigilosa poesia

 

Vale de Salgueiro, Domingo, 31 de Agosto de 2009

Henrique António Pedro

 

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Este meu canto é um pranto


Este meu canto é um pranto

que canto para me olvidar

daquela vez que sorri

sem saber o que fazia

tão pouco que me perdia

 

Agora sei que me perdi

porque de amor me prendi

muito embora todavia

continue a cantar

este meu canto que é um pranto

 de amor e saudade

 

Não por gosto de penar

ou por gozo de sofrer

tão só para esquecer

este amor que é dor

tão dolorosa verdade

 

Já me dói o peito

deste meu modo de cantar

deste meu jeito de amar

 

Vale de Salgueiro, domingo, 8 de Novembro de 2009

Henrique António Pedro

 

 

 


terça-feira, 21 de abril de 2026

TÂO FELIZES QUE ELES ERAM!


Sim

eram felizes

apenas

e só

porque se amavam

 

E que tão felizes eles eram

embora sem o saber!

 

Deixaram de o ser

quando deixaram de se amar com pureza

procurando a felicidade noutras paragens

deslumbrados por outras imagens

miragens de prazer

poder

e riqueza

 

Pretendendo ser mais felizes do que eram

recorrendo a artifícios

e sacrifícios

infelizes

que desvirtuaram a felicidade

com que Deus os bafejara

 

Iludindo a poesia

adulterando-lhe o sabor

convertendo a vida em futilidade

deixando de viver o amor

com verdade

 

Tudo deitaram a perder!

 

Ainda lhes resta

uma réstia de felicidade

porém

 

Na saudade que agora

com dó

sim

lhes assola o coração

 

Ainda bem!

 

Poderão voltar a ser felizes

ainda assim

a reviver com verdade o romance

que continua ao seu alcance

apesar da idade

 

Basta voltar a se amar

apenas

e tão só

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Henrique António Pedro


 

domingo, 19 de abril de 2026

Revelação


Sem terra nem mar

fora do espaço

e do tempo

sem rumo

ou norte

não sei que faço

 

Caminho por mim adentro

de ambição perdida

o meu destino é amar

ir além da vida

e da morte

 

Por entre rasgos da Razão

e da sorte

a minha vida avança

no terreno árduo

do sentir

 

Ainda assim

porém

ouso ir

mais além

em meus sonhos de criança

 

Reconhecer-me no espírito desperto

que me anima a alma

e me habita o corpo

de que me liberto

por sopro do vento de verdade

na esperança da eternidade

 

Transfigurar-me na lógica do amor

tese do bem

antítese da dor

práxis de revelação

 

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Henrique António Pedro

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Sangue, suor e sémen


Fogo, terra, ar e água

concertam o ambiente

no qual ao homem é dado viver

crescer

se reproduzir

e moldar a mente

enquanto tal

 

O vigor da vida, porém, vem do sangue

que se transmuta em suor e sémen

por força de trabalhar

amar e sofrer

e de ter prazer

Ser humano que no barro foi bafejado

por obra e graça do Criador

para nascer

crescer
evoluir
aprender a amar

ser amado

e conscrito por Jesus Cristo

o sentido da vida descobrir


Mas é o divino magistério do Redentor
que na obra da Criação

opera a divina transdução

do Amor em Espírito

mistério da Salvação

 

Vale de Salgueiro, domingo, 12 de Julho de 2009

Henrique António Pedro

 

 

 

 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Platónica Paixão



Trago o meu pobre coração a arder

É tão triste a minha condição

Tão abrasadora esta paixão

Que o desfecho não posso prever

 

A essa mulher não passo sem ver

Embora forçado pela Razão

A conter-me e a dizer que não

Senão, tudo deitarei a perder

 

Mas ela, com sorrisos e perfume

Com seu doce jeito de me olhar

Mais não faz que mais atear o lume

 

Apaixonado, já não sei parar

Como sair deste amor incólume

Sem queixume, sem dor, sem me queimar

 

Vale de Salgueiro, sábado, 19 de Julho de 2008

Henrique António Pedro

 

 

 

sábado, 11 de abril de 2026

O problema é que …


O problema é que …

 

nem sempre soletramos a palavra paz

em paz

nem a palavra amor

com o amor que ela requer

e à palavra verdade

a interpretamos como melhor nos aprouver

 

O problema é que …

 

nem sempre amamos com o coração

quem nos ama

nem apertamos a mão

com a força devida

a quem nos estende a mão amiga

e nem sempre respondemos a quem nos chama

com a necessária prontidão

 

O problema é que …

 

apenas vemos problemas nos outros

nunca em nós

e muitas vezes nos isolamos

tentando assim vencer

a nossa própria solidão

sem darmos ouvidos a outra voz

ignorando a solidão de outrem

também

 

O problema é que …

 

só damos quando recebemos

com cinismo

sem que nos apercebamos

que o problema…

 

é o egoísmo

 

 

Vale de Salgueiro, domingo, 27 de Dezembro de 2009

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

O vinho da paixão


Tem a doçura do mel

a amargura do fel

e o travo de pecado

o vinho da paixão

diz quem o provou

amou

e pecou

 

Bebe-se até à última gota

com sofreguidão

pela taça da tentação

sem conta ou nota

 

Embriaga num ápice

tolda a razão

e só acaba quando se esgota

 

Mais sóbrio se fica ainda assim

quando de ressaca

desapaixonado

prostrado

sofrido

desiludido

desenganado

arrependido

qual querubim de via-sacra

 

Pai!

Afastai de mim esse cálice!

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 13 de Abril de 2010

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Versos de ler reversos de reler


Eu

vagabundo

que muito mundo já viveu

amou

e sofreu

a ninguém enganou

 

Aqui

ali

além

a si

a mim

a ninguém

continuo a não entender

porém

 

Nem sei

sequer

se o Cosmos não será um caos

a vida uma frustração

a felicidade uma nostalgia

a gloria uma ilusão

e o Universo de tão enorme e disforme

mais nada é que pura poesia

 

Sei

isso sei

que a dor é aberração

o sofrimento contratempo

e a paixão fugaz fantasia

mera mania

de que nada de bom se espera

 

O amor é uma flor

que mal desabrocha logo murcha

a Terra o paraíso perdido

e o Além o céu prometido

 

A mim

gemebundo

ainda assim

nada mais resta que mais viver

mais amar e mais sofrer

e a vida alegrar

com versos de ler

e reversos de reler

 

E a crer

por querer

 

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Henrique António Pedro

 

 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

"Ecce Homo"


Há pouco mais de dois mil anos

Pilatos tresloucado

por sinistros enganos

entregou Jesus à multidão

dizendo de coração empedrado

 "Ecce Homo". "Eis o Homem!"

 

E sentenciou com indiferença

demente

a mais injusta sentença de sempre

que converteu o bom Jesus

no Cristo crucificado

 

Que hoje

ressuscitado

coroa Lisboa

no santuário de Almada fronteiro

que postado no morro do Corcovado

abençoa o Rio de Janeiro

que consola a Dili martirizada

desde o monte Futumada

E que no Arkansas

o Cristo dos Ozarks

tem artes de dar melhores esperanças

às americanas más andanças

 

Jesus que debruçado por toda a parte

sobre o Mundo ensandecido

por mil gemidos de dor

ilumina com Sua chama

a desumana Humanidade

e de braços soltos da cruz

proclama:

“Ego sum amor!”

 

Vale de Salgueiro, 16 de Março de 2008

Henrique António Pedro

segunda-feira, 30 de março de 2026

Um clamor de amor interior


A felicidade

na verdade

é um clamor de amor interior

que vista de fora

embora

à luz do dia

se chame alegria

 

Poderá perceber-se num olhar

num sorriso

numa imperceptível expressão facial

num abraço

num amoroso embaraço

num enlace nupcial

num aperto de mão

no bater do coração

numa expressão de fé

nas notícias dos jornais

numa lágrima até

tantos são os seus sinais

 

Muitos a procuram nos bares

nos estádios

no sossego dos lares

na religiosidade de um templo

na aspereza da Natureza

na destreza de seus gládios

nunca num contratempo

 

Poderá andar por esses lados, sim

se por lá houver amor, verdade e virtude

mas não é aí que a felicidade

mora por fim

em plenitude

 

Na verdade

a felicidade é contentamento

é um clamor de amor interior

se percebida por dentro

à luz de quem a induz

com serenidade

 

É dentro de nós que a devemos procurar

porque só a nós

em nós e nos outros

nos é dado despertar

 

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

Henrique António Pedro

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

Olho-me nu ao espelho



Dou comigo a olhar-me ao espelho

nu

prazenteiro

de corpo inteiro

lavado

perfumado

depois do banho

ainda que sem querer assim me ver

 

Não por reflexo narcisista portanto

mas por reflexão demente do meu espírito sacrossanto

que a si mesmo sempre tenta ver-se reflectido

nalguma bendita superfície espelhada

que o reflita

 

O corpo ali está visto por fora

na perspectiva em que o vejo

espelhado no espaço-tempo

na óptica do dia-a-dia

traduzido em anos e volumetria

que não desejo

 

O ventre ligeiramente obeso

as rugas pronunciadas

a calvície acentuada

os testículos túrgidos e descaídos

o pénis nédio e flácido

sinais evidentes de que com os anos

também a virilidade se vai adoçando

 

Olho-me olhos nos olhos e melhor me fixo em mim

e me fascino

com o caminho mental

corporal

mortal

que leva à alma

 

À alma só a alma a vê, porém

que melhor se percebe que existe

coexiste

resiste

e persiste

quando o corpo desiste

e a mente se esvai

 

 

É assim que a mim mesmo me olho

e que assim me vejo

nu

ao espelho

 

Que importância teria o Cosmos

sem mim?

 

 

Vale de Salgueiro, 31 de Julho de 2008

Henrique António Pedro

 

in Angústia, Razão e Nada (Editora Temas Originais-2009)

segunda-feira, 23 de março de 2026

A mulher que mais me diz


Pergunto-me: 

Porque a amo, eu?!

Nem bem sei

 

Ainda assim

direi!

 

Porque a luz do seu olhar

me ilumina por dentro

 

Porque o sopro do seu respirar

me inebria

e me dá alento

 

Porque a sua voz me desperta

o seu cheiro me incendeia

a sua presença me cativa

me liberta

me alivia

 

Porque o toque da sua mão

me arrepia

e me acelera o coração

 

Porque é a mulher que mais me diz

e que mais a mim me dá

sem nada de si me dizer

e nada de si me dar

 

Só por isso eu a amo

e nada dela reclamo

ainda que sem saber

se alguma divina razão

em surdina

haverá

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Henrique António Pedro