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segunda-feira, 16 de março de 2026

Big Bang


Tudo está explicado

ou em vias disso

embora sem compromisso

algum

 

Uma grande explosão

Embora sem ruído nenhum

ao invés de nos matar

nos fez nascer

 

Mas como não havia Espaço

nem Tempo

ficamos sem saber quando

nem onde

tal explosão aconteceu

 

Muito menos o «porquê?»

ou o «para quê?»

a razão de ser de tal fenómeno acontecer

apenas o «como» nos é dado perceber

 

Terá sido o bíblico «fiat lux»

que nos poe os olhos em bico

nos faz explodir a razão

e nos leva a admitir

já no espaço e no tempo

com água, calor e vento

o big bang da Vida?

 

Porque não!

 

Só o big bang do Amor

porá fim à dúvida, por certo

e anulará toda a dor

por força da Iluminação

 

Entendo o esforço da Ciência

não como uma evidência

mas como um louvor

uma prece

a mais sublime oração

que bem merece

o Criador

 

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 30 de Março de 2010

Henrique António Pedro

 

 

sexta-feira, 13 de março de 2026

A Rosa de Verín


Um dia sorriu para mim

uma rapariga amorosa

que se chamava Rosa

e era de Verín

 

Encontrámo-nos amiúde

no idílico açude

praia do rio Tâmega

alfa e ómega

do amor transfronteiriço

 

Tanto que a raia, terra de ninguém

de alecrim e congossa engrinaldada

passou a ser a nossa mátria amada

 

Trocávamos beijos e abraços

desejos e promessas

laços de fraternidade

em derramado derriço

 

Com a língua galega

e a portuguesa

em meças de beleza

e irmandade

na alegria e na poesia

 

O meu coração se ouriçou de dor

porém

quando um dia, à catraia

não sei que lhe dou

outro amor entranhou

lá para os lados de Ourense

muito além da raia

 

Não sei que mais diga

ainda que mal não pense

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 10 de março de 2026

A mim dá-me para a poesia


A esta angústia maior que me aflige cada dia

respondo com poesia

 

Fico um tanto mais consolado

embora não de todo aliviado

 

Há quem fume e quem beba

mas porque tal me causa tão incómoda azia

a mim dá-me para a poesia

 

Para abafar angústias estranhas

ideias tresmalhadas

sensações entranhadas

cólicas nas entranhas

que me desassossegam por dentro e por fora

e que o vento as não leva embora

 

Para transformar medo em coragem

ódio em amor

prisão em liberdade

raiva em tranquilidade

fracasso em glória

mentira em verdade

saudade em presença

maldade em inocência

indiferença em solidariedade

vício em temperança

fome de sexo em paixão

para aliviar dores de coração

 

E para sufragar os gritos de milhares de irmãos cuja vida é uma mortalha

que sofrem e morrem sem que ninguém lhes valha

versos e mais versos a poesia me cicia

 

A mim dá-me para a poesia

como se vê!

 

Vale de Salgueiro, 5 de Fevereiro de 2008

Henrique António Pedro

 

domingo, 8 de março de 2026

Sopra o tempo como se fora o vento a soprar


Sopra o tempo…

como se fora o vento a soprar

do passado relembrado

para o futuro

obscuro

 

Sopra o tempo…

como se fora o vento a soprar

vendavais de História

que varrem da memória

a verdade

 

Sopra o tempo…

como se fora o vento a soprar

silêncio

soledade

quietude

queixume
nostalgia

no ouvido do poeta que de alma aberta

se devota

à virtude da poesia

 

Sopra o tempo…

como se fora o vento a sibilar

nas árvores frondosas

odes cósmicas melodiosas

miragens de eternidade

 

Melhor se ouve o vento do tempo

a enrolar no escuro

horas

minutos

segundos

na azafamada ida e vinda

no momento da despedida

na demora desmedida

na espera angustiada

na alegria da chegada

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

Henrique António Pedro 

imagem: La nevada (o El invierno) de Francisco de Goya, 1786

 

 

 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Enquanto houver morte haverá esperança


Mergulho no passado

nos tempos em que fui feliz

sem saber

o meu coração sente

e me diz

desolado

que não é futuro o presente

antes é para esquecer

 

Presente é perjuro

farsa

desesperança

desgraça

viver é sofrer e penar

e morrer poderá não ser

deixar de viver

 

Enquanto houver morte haverá esperança

de que nos podemos salvar

e nos vir a reencontrar

num mais amoroso devir

 

Esperança de viver

a sorrir

mesmo depois de morrer

 

Há que viver e acreditar

 

Vale de Salgueiro, sábado, 18 de Agosto de 2012

Henrique António Pedro 

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016” 

Copyright:  Henrique António Pedro

 

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

Genuflexão



Olho-me

 

A mim me vejo

em mim mesmo

 

Não careço de espelhos para me olhar

reflicto-me nas minhas angústias

no mar de amarguras que me inunda

por fora e por dentro

vivo o advento de um novo tempo

a espera de uma nova era

embora não saiba quem eu sou

 

Expedito

chapinho nos atoleiros que alagam o caminho

em que me reflicto

eu

o Sol

e o céu

quando por instantes a tempestade se amainou

 

O Sol assim reflectido é chama de esperança

é o meu rosto de criança

 

Sou eu que me vejo reflectido

nos atoleiros do caminho

na coragem e no cansaço

no sucesso e no fracasso

na água e na lama

em toda a condição humana

que chapinho

 

Grande é a minha impaciência

amarguram-me as falsas vitórias

as conquistas da Ciência sem tino

presentes envenenados que inovam a guerra

desumanizam a Humanidade

e destroem toda a Terra

 

São tão desmedidas as minhas ambições

que apenas cabem dentro de mim

único sítio com espaço para todos os corações

 

Oro

choro

ajoelho em oração

 

A poesia é a minha genuflexão

 

Vale de Salgueiro, 6 de Fevereiro de 2008

Henrique António Pedro

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Não chores por mim, Argentina



Não chores por mim

Argentina

 

Nem me digas que vais ficar

para sempre

à minha espera

 

A ti, eu jamais direi adeus

 

As lágrimas de amor

e de infundado temor

que vejo luzir em teus olhos

neste meu hesitante partir

sem te dizer se vou voltar

acendem saudades nos meus

 

Pensa antes, amor

nos molhos de poemas e de flores

que te irei ofertar

já na próxima Primavera

 

Mas não me digas, por favor

que vais ficar

para sempre

à minha espera

que me deixas desolado

a pensar

que poderei

não poder

voltar

jamais

 

E eu não quero que seja

assim tão demorado

o teu sofrer

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 3 de Março de 2010

Henrique António Pedro

 

In Mulheres de amor inventadas

Copyright © Henrique Pedro (prosaYpoesia)

1.ª Edição, Outubro de 2013

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O sexo dos anjos


Diz-me

para que mundo etéreo te evolaste

em que céu te refugiaste

também eu quero morrer

em anjo me transfigurar

 

Em que novo mundo te materializaste

em que alma de mulher te escondeste

em que nova forma encarnaste

porque também aí eu quero reencarnar

para te reencontrar

e não mais te perder

 

Nós, humanos

só aqui na Terra podemos namorar

sentir o coração bater

escrever poesia

sofrer de ansiedade

e de nostalgia

sem que saibamos porque sofremos

 

Os anjos, porém

poderão amar todo o tempo

em toda a parte

aqui e além

e sem penar

reflexo de não terem sexo

 

Diz-me

para que mundo etéreo te evolaste

em que céu te refugiaste

também eu quero morrer

em anjo sem sexo e sem nexo

me transfigurar

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 7 de Março de 2012

Henrique António Pedro

 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Da guerra


Ponho-me a filosofar sobre a guerra

que continua a grassar sem graça

por toda a Terra

ora aqui

ora além

 

Para desgraça de tantos

glória de uns quantos

e diria

vitória de ninguém

 

De Gaston Boutul vem-me à memória

a frase lapidar com a qual não concordo

por não querer a guerra branquear:

«Foi a guerra que gerou a História»

 

De outros fenómenos e factos

está a História prenhe:

De miséria, ambição e traição

também de Heroicidade

 e de estreme Santidade

 

Mas é dos instintos de posse e domínio

do vício e do prazer de matar e morrer

da mentira e da dor

da política mais sebenta

que a guerra se alimenta

 

Melhor me ocorre dizer

que a guerra é sem tino

a libido da Humanidade

no masculino

e no feminino

 

E que as sociedades

ainda em idade primária

quase animal

expressam na guerra todo o seu mal

para sobreviver

tirar prazer

se recriar e reproduzir

por espúrios processos de mentira

e de dor

 

Já que a Humanidade

ainda não encontrou melhor maneira

de se organizar na Verdade

E no Amor

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Só o amor se não perde se a vida se perder



Não pára o tempo se o relógio parar


Mas o tempo só tem sentido à medida que passa

o abraço quando se abraça

o fogo quando arde feito chama

e o amor quando se ama

 

Também a vida só tem sentido quando vivida

com amor

e dor

por alguém

 

Apaga-se a paixão quando o coração deixa de bater

perde-se o pensamento

se a razão enlouquecer

tudo se perde

na hora de morrer

 

Só o amor se não perde

se a vida se perder

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Henrique António Pedro

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Desde que passei a usar chapéu


Foi o sol de Verão, pois então

ao dardejar-me o crânio

e ao mordicar-me a pele

capaz de me estrelar os miolos

e de me toldar os olhos

que me impeliu a usar chapéu

ou boné, seu sucedâneo

 

Sou agora um homem diferente

mais aberto

o que aconteceu

recentemente

 

Já o vinha sendo antes, é certo

ainda que sem me dar conta

por cada cabelo que caía

sem me aperceber

é bom de ver

na medida desmedida

da tristeza do dia

em que nova ruga desponta

 

Mas se querem saber a verdade

a idade traz outra luz

novo conceito de beleza

mais respeito e lhaneza

vê-se a vida com outros olhos

se usamos chapéu a preceito

 

Livre de ilusões

o mundo já não me seduz

já não vou em sermões

sou mais fiel à minha fé

tudo se concerta e compõe

ainda assim

 

E a mim

já nada me põe os cabelos em pé

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 28 de Novembro de 2012

Henrique António Pedro


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Este infausto acontecimento de viver apaixonado


Ando a torcer

a retorcer

a espremer palavras

a bolsar ideias

iludido de que ando a pensar

mas não penso

 

Apenas sinto

a mim mesmo minto

e sôfrego

sofro

 

Dando asas a poemas

a este magno sentimento

infausto acontecimento

de viver apaixonado

 

Não de uma paixão qualquer

embora meta muito amor de mulher

quantas e quem nem eu sei bem

 

Apaixonado do amor que tenho à vida

da alegria de viver que ainda assim me angustia

e a mim me faz sofrer

 

Do medo da morte

do temor de não saber

do que por azar ou sorte

me espera no Além

 

 

 

 

Vale de Salgueiro, 17 de abril de 2017

Henrique António Pedro