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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Levanto-me e caminho…

 


XLV

Levanto-me e caminho…

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Sozinho

levanto-me e caminho

levado pelo vento

da verdade

que sopra de todo o lado

a todo o tempo

 

Paixão que me assola

saudade que me consola

milagre que já tarde

tarda

 

Absorto na lembrança do futuro

no desejo imaturo

de ser feliz

 

Abjuro o poder

anelo a glória

agarro-me à raiz

recuso ir-me embora

 

Vou andar por aí

mundo fora

vou ficar por aqui

ao lado dos meus

 

Caminhando por mim adentro

para onde mais forte sopra o vento

na procura de Deus

 

O Cosmos é o meu Templo

Henrique António Pedro

Impossível é viver sem sonhar

 


XLIV

Impossível é viver sem sonhar

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Caminho

calado

para lado nenhum

 

Percorro com a vista tudo que me rodeia

sem nada ver

ouço ruídos de fundo

sem perceber qualquer som

 

Embora mantenha os olhos

e os ouvidos abertos

todos os sentidos despertos

 

Calo também o coração!

Deixo-me de sonhos

e de afectos

 

Passo horas esquecidas assim

a vaguear por tudo quanto é sítio

fora de mim

sem passar por sítio algum

 

Há um instante em que paro, porém

ouço passos atrás de mim

 

Há uma pedra em que tropeço

um raio de luz que me induz

uma voz que me desperta

 

Sou eu que a mim mesmo me persigo

e que a mim mesmo me diz:

- Não! Tu não me podes fugir, assim!

Impossível será viveres sem sonhar

sem amar

sem acreditar

 

Sem ter fé

 

Henrique António Pedro

domingo, 14 de junho de 2026

Ideias que não me saem da cabeça

 


XLIII

Ideias que não me saem da cabeça

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

Ainda assim

mais vivo dentro de mim

ainda que não pareça

 

Na miríade de ideias que não me saem da cabeça

que se ficam pelo pensamento

me dilaceram

e que me abrem por dentro

 

Que afectam cada órgão

e cada célula

a cada instante

e fazem de mim um mutante

 

Ainda mais

do que aquelas que hora a hora

se convertem em olhares

palavras

sorrisos

actos

gestos abstractos

 

Com as quais me abro para fora

mas me fecho por dentro

 

Henrique António Pedro

Ápex

 


XLII

Ápex

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Passo horas assim

 

Quieto

 

Bem desperto

 

Em decúbito dorsal

fitando o tecto

do Firmamento

 

A brisa suave que me afaga por fora

transforma-se em vento

por dentro

mesmo com o céu encoberto

 

Embrenho-me em recordações

em dilações do tempo

dou volta ao mundo

em torno da vida

 

Uma estrela candente

perdida

passa célere

ante meus olhos

 

Num ápice

mergulho no ápex

arrastando comigo todo o Sistema Solar

 

Até que ouço alguém chamar

a dizer-me que são horas de dormir

a pedir-me para voltar

antes que me perca

 

Mas eu já não estou ali

nem lá

nem além

nem aqui

nem cá

 

Estou inteiro dentro de mim

onde também cabe o Cosmos

 

É de lá que vejo

sinto

e ouço

o mundo que me cerca

Henrique António Pedro

Eu não moro na Terra

 


XLI

Eu não moro na Terra

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Eu não moro na Terra

nem no Espaço

ou no Céu

 

Moro dentro de mim

 

Aqui sim

eu nasci

vivo

morro

ressuscito

e habito

 

Daqui parto

à descoberta do Universo

mergulho no mar

voo no ar

procurando descobrir quem sou

encontrar a quem amar

 

Aqui sim

e onde moro

e me encontro

 

Na Terra sou um proscrito

um condenado à morte

 

Para onde vim

destinado a sofrer

a morrer

a tentar melhor sorte

 

Henrique António Pedro

sábado, 13 de junho de 2026

Eu admitiria morrer sem redenção

 


XL

Eu admitiria morrer sem redenção

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Se eu sentisse que a razão de ser do meu viver

se limitava à vida do meu corpo

 

Se me não perpassasse um sopro

de ansiedade

quando pelo cair da tarde

sobre mim

e a natureza envolvente

de repente

se abate um silêncio de morte

que é estranhamente

quando mais me sinto viver

então

eu admitiria morrer

 

Se não houvesse também amor

e dor

boa e má sorte

 

Se viver fora só ter prazer

sem sofrimento

ou contradição

então

eu admitiria morrer

evolar-me

sem redenção

 

Mas existe a dúvida

sobre o que somos

e quem nos governa

 

Existe o sonho também

há amar e sofrer

há acreditar

 

Então

creio no Além

e na vida eterna

  

Henrique António Pedro

Estado de alma estranho ao sentir

 


XXXIX

 

Estado de alma estranho ao sentir

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

Há um certo estado de alma estranho ao sentir

espécie de efervescência anímica

que ainda não sei definir

 

Estado ainda não catalogado no léxico corrente

que não foi tratado na revisão ortográfica vigente

nem consta de nenhum tratado de psicologia clínica

 

Não se trata de angústia

nem de ansiedade

não é dúvida

nem falta de vontade

dor interior ou exterior

 

Não é aborrecimento nem saudade

contentamento ou felicidade

náusea ou fastio

alegria ou desilusão

medo da morte ou vontade de morrer

premonição ou alvedrio

 

É uma espécie de apatia activa

uma alegoria de iluminação

 

Um desejo de fugir daqui

e de mim

sem saber para onde ir

 

Henrique António Pedro

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Entre mim e mim

 


XXXVIII

Entre mim e mim

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

A minha vida é um monólogo constante

entre mim e mim

um diálogo surdo permanente

entre mim e Deus

 

E quem mais fala é Deus

ainda que eu tudo a mim me diga

e Deus

a mim

não me diga nada

 

Com os outros

e com o mundo

o meu diálogo é ruidoso de palavras

e de emoções

de interacções de toda a substância

forma

e condição

ainda que nem sempre se fale com o coração

entre nós

 

Por isso ando desconfiado

de que Deus comigo se mantém calado

e que opta por falar comigo

pela voz de outros

e do mundo

 

Mas lá bem no fundo

o que eu queria

mesmo

era ouvir Deus

directamente

 

Transformar o solilóquio

em colóquio

 

Ouvir Deus falar

de viva-voz

dentro de mim

Henrique António Pedro

Enquanto houver morte haverá esperança

 


XXXVII

Enquanto houver morte haverá esperança

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Mergulho no passado

nos tempos em que fui feliz

o meu coração sente

e me diz

desolado

que não é futuro

o presente

 

Antes é perjuro

farsa

desesperança

desgraça

e viver é sinónimo de morrer

 

Mas enquanto há morte

há a esperança

de que nos podemos salvar

e vir a reencontrar

em amoroso devir

 

Esperança de viver

antes e depois de morrer

 

Não importa viver

para sofrer

e penar

nem morrer

para deixar de viver

 

Há que viver e acreditar

Henrique António Pedro

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Em mim não acredito e de Deus desconfio que só Ele me poderá valer

 


XXXVI

Em mim não acredito e de Deus desconfio que só Ele

me poderá valer

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

O Cosmos de meu avô João

era toda a terra em que à luz das estrelas

semeava pão

 

O meu

é todo o espaço-tempo

em que planto poemas

eivados de dilemas

e de contrição

 

Cosmos infinito

mas pequenino

o meu!

 

Do tamanho do silêncio

indiferente

de Deus

 

Magistério de mistério

que professo como monge

porfiando poesia

 

A gritar poemas sem tino

e a acenar

a acenar

na esperança de que alguém

me virá salvar

 

Se é que não ando a deitar

tudo a perder

 

Em mim não acredito

e de Deus desconfio

que só Ele

me poderá valer

 

Henrique António Pedro

A mim Deus nada me diz

 


XXXV

A mim Deus nada me diz

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Angustia-me o dia-a-dia

aborrece-me a vida

temo a morte

 

Deus diz-me silêncio

somente

 

A mim Deus nada me diz

 

O rufar do trovão

o fragor do mar

o rugir do vulcão

o vento norte

metem-me medo

mas nada mais me dizem

 

Também nada me diz

o que os outros

de Deus

me dizem em segredo

 

Que tem Deus a ver com a minha dor

a minha angústia

o meu temor

se Deus a mim nada me diz?

 

Ou será que Deus a mim tudo me diz

porque não me diz nada de nada?

 

Então Deus alguma coisa me diz

sim

 

É que a minha fé é pura esperança

e a Deus tudo de mim eu digo

 

A mim Deus nada me diz

tão pouco permite que O veja

 

Tenho pena que assim seja

 

Eu O bem-digo

 

Henrique António Pedro

Dentro de mim não há céus nem infernos

 


XXXIV

Dentro de mim não há céus nem infernos

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Dentro de mim não há céus

nem estrelas

nem galáxias

nem infernos

 

Dentro de mim

sob a minha pele

há apenas ossos

músculos

vísceras

veias

nervos

e nada mais

 

No meu coração flui apenas sangue

e não ódio

ou paixão

 

No meu cérebro nem uma agulha se intromete

tão pouco o vazio

o nada

de que nada sei

 

Mas dentro de mim abre-se uma janela larga para Deus

por onde o espírito

entra

e sai

mesmo de olhos fechados

de ouvidos tapados

e de tacto entrapado

 

Deus mora dentro de mim

e não no céu

Henrique António Pedro

De Deus nada mais sei

 


XXXIII

De Deus nada mais sei

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Haverá quem de Deus

tudo saiba

 

Mais que Ele próprio

 

Quem Lhe conheça os gostos

e os desejos

a Sua ira e a Sua graça

e Sua faça

a sua própria vontade

e quem proclame ser essa a Verdade

 

Eu de Deus nada sei

e de Deus apenas posso dizer

o que Deus me inspira

pela vida e morte de Jesus Cristo

que resumo a isto

 

Ao sentido de amar

ao resgate do acto de morrer

à ânsia de imortalidade

 

Henrique António Pedro