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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Vejo-me nos olhos dela e ela nos meus se vê


Eu vejo-me nos olhos dela

e ela nos meus

a si

se vê

 

Melhor assim ela a mim se mostra

e se denuncia

e melhor eu a ela a vejo

e com mais blandícia a desejo

 

Ela vê-se nos meus olhos

e nos seus

eu

a mim

me vejo

 

Melhor assim eu a ela me mostro

e me denuncio

e melhor ela a mim me vê

e com mais meiguice me deseja

 

Vejo-me nos olhos dela

 

Ela nos meus se vê

 

Eu vejo nos olhos dela o que a ela lhe vai na alma

e tudo que os seus lábios

e palavras

silenciam

 

Ela vê nos meus olhos o que a mim na alma me vai 

e tudo que de meus lábios

e palavras

não sai

 

Ouço o seu silêncio

ela ouve o meu

só os corações falam

na linguagem da imaginação

pelo sopro da paixão

 

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 2 de Junho de 2009

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Uma doce, terna e triste alegria


in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

 

Nunca se faz silêncio

dentro de mim

 

Acontece

por vezes

ser tão estridente o ruído interior

que o mundo exterior se silencia

ainda assim

 

Ou talvez seja eu que deixo de ouvi-lo

por mais que ele continue a invetivar-me

a chamar-me à luta

à disputa de troféus que não me interessam

e que jamais serão meus

 

Os ruídos fragorosos desta minha batalha

começam na surdina do passado

e ecoam

ribombando

futuro adentro

no mais estreme silêncio

 

Embala-me a terra

na ausência de minha mãe

 

Amparo-me às árvores que meu pai plantou

agora que partiu

 

E aqueço-me à lareira da poesia

na qual a minha alma eterna arde

em doce, terna e triste alegria

acesa de saudade

 

Vale de Salgueiro, sábado, 28 de Janeiro de 2012

Henrique António Pedro

 

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

AVES EM DEBANDADA A DIZEREM ADEUS



Viviam os dias

leves

livres

felizes

quais aves a voar em bando

 

De asas a adejar

a acenar

amando

 

E as noites pousados nos ramos das árvores paternais

a sonhar

 

Era assim o seu brando viver

a voar em bando

sem imaginar

jamais

o que seria

emigrar

 

Até que um dia cada um rumou para seu lado

por força de futuro mais ambicionado

qual debandada de aves a voar

de asas a adejar

a acenar

 a dizerem adeus

aos seus


Para não mais voltarem ao lar

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 16 de Março de 2010

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Labaredas de lembranças


Fito a lareira bruxuleante

de coração ao fogo exposto

com as labaredas as lambem-me o rosto

com seu morno calor

 

São raízes que ardem

e me aquecem sem me queimar

 

São lembranças de amantes

que me enlaçam

inebriantes

e uma após outra me vêm

beijar

 

São labaredas de lembranças

quimeras de amor

que aparecem e me aquecem

mas de pronto se esquecem

fugaz é o seu fulgor

 

Estendo-lhes a mão

ainda assim

sem dilema

para as acariciar

 

Guardo para mim este poema

que é cinza tépida

prateada pela recordação

que de pronto sopro

do coração

 

Vale de Salgueiro, Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2012

Henrique António Pedro


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Um nada ninguém



in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

 

Sou um nada

ninguém

 

Alguém que caminha ao cair da tarde

por chão atapetado de pétalas de flores de tílias

perfumadas

a derramar paz e amor por onde passa

à procura de deixar de ser

um nada ninguém

num amanhã

que tarda

 

Maior glória ninguém poderá sentir

que derramar paz e amor por onde passa

e ainda acrescer o silêncio do mundo

num silencioso devir

 

Só assim

livre

a minha angústia poderá partir

e voar

e me deixar não ser

amanhã

um nada ninguém

 

E nada mais me poder perturbar

ainda mais

 


Vale de Salgueiro, domingo, 27 de Junho de 2010

Henrique António Pedro

 

sábado, 10 de outubro de 2026

A minha alma tal qual eu a sinto



Tal qual eu me sinto

me ouço e me vejo

a minha alma é muito mais que um louco desejo

 

Ademais, não é branca ou negra

etérea ou transparente

deliquescente

ou vaporosa sequer

 

Tão pouco é uma luz interior

magenta

alada

prateada

cor-de-rosa

ou cinzenta

 

Ainda assim

é um vórtice de amor dentro de mim

que anseia tudo ao redor envolver

ao som da melodia cósmica sinfónica

 

É a vontade de a Terra inteira abraçar

o Céu, Estrelas e Galáxias

o Universo intemporal

e tudo à vida devolver

em explosão de amor sideral

 

A minha alma tal qual a sinto

e pressinto

é um sopro de sentimentos

um emaranhado novelo de desvelos

afectos e pensamentos

 

É a radiação do meu cérebro que afago com a mão

ao ritmo do pulsar do meu coração

 

É o meu eu que anima o meu corpo

a voar para Deus

Universo fora

Espírito adentro

feito vento

 

A minha alma tal qual eu me sinto

é o tudo todo que sou eu

 

A minha alma tal qual eu me sinto

sou eu

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Henrique António Pedro

 

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

De nada serve a luz do dia quando nos amamos à noite



Fecho os olhos

para melhor a ver

com as minhas próprias mãos

 

Guardo no cérebro o seu olhar sedutor

e para melhor a perceber

também abro olhos em cada dedo das mãos

em cada poro da pele

 

Os meus ouvidos ouvem tudo o que tem para me dizer

diga-o ou não

mesmo quando em silêncio

se entrega à devassa dos meus braços

ao esquadrinhar dos meus dedos

 

Ademais o seu corpo ganha fluorescência de tanto prazer

acaba por iluminar o meu

e flutuar no céu

 

Até nada mais haver para ver

ouvir

dizer

apenas e só

sentir

 

Senti-la

eu

a ela

sentir-me

ela

a mim

 

De nada serve a luz do dia quando nos amamos à noite

na doce obscuridade da mais estreme intimidade

e em silêncio

com esfuziante alegria interior

fora do tempo

 

Em transe de êxtase

 

Em arrebatamento de amor

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

Henrique António Pedro

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Poema erudito


A ideia deste poema é nada dizer a ninguém

não obstante quem o ler

seja livre de o interpretar como lhe aprouver

e melhor lhe convém

 

Pretende ser um poema erudito

não há como o contornar

embora o léxico não seja académico

muito menos jargão

não disseque a alma de ninguém

não verbere o acordo ortográfico

nem diga mal de nada

ou fique de boca calada

 

Embora seja assintomático

não respeita o modismo endémico

não segue qualquer corrente literária

muito menos a política agrária

nem é escrito à mesa de café

 

Pode muito bem ser, porém

declamado

e aplaudido de pé

até

como tantos da sua igualha

de muito poeta consagrado

 

Este poema é erudito

sim

mesmo sendo ruim

não fala de coisa nenhuma

nem diz coisa com coisa

 

Quem o ler

nada ficará a saber

embora fique a pensar

e sabe-se lá o quê…

 

…de mim

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 26 de Agosto de 2008

Henrique António Pedro

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Rio Atlântico



Foi outrora um mar

um oceano distante

o Atlântico

 

Que as caravelas do Infante

de seu alvedrio

ousaram devassar

a domar tempestades

a povoar de ilhas

a inundar de lágrimas

e a pescar saudades

 

Não passa, agora, de um rio

de nostalgia

que a toda a hora

o homem insano devassa

 

Embora nas suas margens haja poetas a pescar

poesia

e a acenar

amizades

 

Agora é um cântico

o Atlântico

um rio florido de letras

de rosas e de violetas

de poemas de todo o ano

 

Que poetas a toda a hora

ousam atravessar

tão só para se abraçar

 

Vale de Salgueiro, sábado, 30 de Janeiro de 2010

Henrique António Pedro

 

domingo, 27 de setembro de 2026

Assim desponta Deus


Dúvidas

Dores

Sofrimentos

Dores de corpo

Dores de espírito

E lamentos

 

Angústias e dúvidas

Golpes de boa e má sorte

Temperados de prazeres fugazes

De alegrias efémeras

De esperanças fagueiras

 

Prazeres e sofrimentos que se sentem por todo o corpo

Angústias e dúvidas que espevitam o espírito

 

Amores que se supostamente alegram o coração

Alegrias que não sabemos de onde são

 

Dúvidas que perturbam a Razão

Mas é a morte certa

Grito inaudito

Que mais nos confrange e aperta

 

Uma certeza maior, porém

Advém da Fé

Se o homem de bem se levanta

E caminha de pé

 

É Deus que desponta!

 


Vale de Salgueiro, sábado, 31 de Janeiro de 2009

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Luxo, lixo, luz



Há biliões de estrelas cujo brilho não chega até nós

toneladas de gemas preciosas

que nunca serão arrancadas às entranhas da Terra

plêiades de pérolas escondidas nas profundezas do mar

que jamais brilharão em colares de encantar

milhares de mulheres lindas que nunca se vestiram de luxo

que nunca ganharam concurso de beleza algum

e divas maviosas a quem nunca ninguém ouviu a voz

 

Há milhares de heróis esquecidos que a pátria esmorece

e infinitos santos que Roma desconhece

 

Milhares de poetas que mal sabem ler ou escrever

mas que guardam em si as poesias mais belas

 

Há milhões de poemas geniais

que nunca foram lidos nem premiados

que não são notícias dos jornais

nem fazem parte de qualquer antologia

embora sejam declamados

dia-a-dia

 

Vou continuar a sondar o Universo sem fim

a vasculhar o lixo da História

a começar por tudo que existe dentro e fora de mim

e na minha memória

 

Vou continuar a ler os poetas menos lidos

a vitoriar os heróis vencidos

a escutar as verdades dos humildes

a invectivar a vaidade e a guerra

a remexer o húmus da terra

a ouvir e a cantar as canções que mais me apraz

a afastar de mim ilusões

faça sol ou faça vento

 

A procurar a semente pequenina

da verdade

da liberdade

e da alegria

que germina pela Primavera

com a graça de Cristo Jesus

floresce por todo o tempo

acima do lixo e do luxo

em paz e poesia

e explode em luz 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Henrique António Pedro