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terça-feira, 10 de março de 2026

A mim dá-me para a poesia


A esta angústia maior que me aflige cada dia

respondo com poesia

 

Fico um tanto mais consolado

embora não de todo aliviado

 

Há quem fume e quem beba

mas porque tal me causa tão incómoda azia

a mim dá-me para a poesia

 

Para abafar angústias estranhas

ideias tresmalhadas

sensações entranhadas

cólicas nas entranhas

que me desassossegam por dentro e por fora

e que o vento as não leva embora

 

Para transformar medo em coragem

ódio em amor

prisão em liberdade

raiva em tranquilidade

fracasso em glória

mentira em verdade

saudade em presença

maldade em inocência

indiferença em solidariedade

vício em temperança

fome de sexo em paixão

para aliviar dores de coração

 

E para sufragar os gritos de milhares de irmãos cuja vida é uma mortalha

que sofrem e morrem sem que ninguém lhes valha

versos e mais versos a poesia me cicia

 

A mim dá-me para a poesia

como se vê!

 

Vale de Salgueiro, 5 de Fevereiro de 2008

Henrique António Pedro

 

1 comentário:


  1. Querido Poeta Henrique António Pedro,

    A sua poesia chegou até mim como um sopro de verdade — dessas verdades que não se escondem, que não se enfeitam, que simplesmente se dizem porque precisam de existir.
    Li cada verso como quem escuta uma confidência, uma ferida, uma coragem.

    A forma como transforma angústia em palavra, dor em ritmo, inquietação em beleza, é um dom raro.
    A poesia, nas suas mãos, não é fuga: é resistência, é respiração, é caminho.

    Obrigada por partilhar comigo este texto tão profundo, tão humano, tão seu.
    Recebo-o com respeito, com emoção e com gratidão.

    Também a mim, muitas vezes, “dá-me para a poesia” — para transformar saudade em presença, silêncio em gesto, e a vida em algo que se possa tocar com a alma.

    Continue a escrever, Poeta.
    O mundo precisa dessa luz que nasce precisamente onde dói.

    Com estima e amizade,
    Luísa

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