A
esta angústia maior que me aflige cada dia
respondo
com poesia
Fico
um tanto mais consolado
embora
não de todo aliviado
Há
quem fume e quem beba
mas
porque tal me causa tão incómoda azia
a
mim dá-me para a poesia
Para
abafar angústias estranhas
ideias
tresmalhadas
sensações
entranhadas
cólicas
nas entranhas
que me
desassossegam por dentro e por fora
e que
o vento as não leva embora
Para
transformar medo em coragem
ódio
em amor
prisão
em liberdade
raiva
em tranquilidade
fracasso
em glória
mentira
em verdade
saudade
em presença
maldade
em inocência
indiferença
em solidariedade
vício
em temperança
fome
de sexo em paixão
para
aliviar dores de coração
E
para sufragar os gritos de milhares de irmãos cuja vida é uma mortalha
que
sofrem e morrem sem que ninguém lhes valha
versos
e mais versos a poesia me cicia
A
mim dá-me para a poesia
como
se vê!
Vale de Salgueiro, 5 de Fevereiro de 2008
Henrique António Pedro

ResponderEliminarQuerido Poeta Henrique António Pedro,
A sua poesia chegou até mim como um sopro de verdade — dessas verdades que não se escondem, que não se enfeitam, que simplesmente se dizem porque precisam de existir.
Li cada verso como quem escuta uma confidência, uma ferida, uma coragem.
A forma como transforma angústia em palavra, dor em ritmo, inquietação em beleza, é um dom raro.
A poesia, nas suas mãos, não é fuga: é resistência, é respiração, é caminho.
Obrigada por partilhar comigo este texto tão profundo, tão humano, tão seu.
Recebo-o com respeito, com emoção e com gratidão.
Também a mim, muitas vezes, “dá-me para a poesia” — para transformar saudade em presença, silêncio em gesto, e a vida em algo que se possa tocar com a alma.
Continue a escrever, Poeta.
O mundo precisa dessa luz que nasce precisamente onde dói.
Com estima e amizade,
Luísa