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quarta-feira, 25 de março de 2026

Olho-me nu ao espelho



Dou comigo a olhar-me ao espelho

nu

de corpo inteiro

lavado

perfumado

depois do banho

ainda que sem querer assim me ver

 

Não por reflexo narcisista portanto

mas por reflexão demente do meu espírito sacrossanto

que a si mesmo tenta ver-se reflectido

nalguma bendita superfície espelhada

que o reflita

 

O corpo ali está visto por fora

na perspectiva em que o vejo

espelhado no espaço-tempo

na óptica do dia-a-dia

traduzido em anos e volumetria

que não desejo

 

O ventre ligeiramente obeso

as rugas pronunciadas

a calvície acentuada

os testículos túrgidos e descaídos

o pénis nédio e flácido

sinais evidentes de que com os anos

também a virilidade se vai adoçando

 

Olho-me olhos nos olhos e melhor me fixo em mim

e me fascino

com o caminho mental

corporal

mortal

que leva à alma

 

À alma só a alma a vê, porém

que melhor se percebe que existe

coexiste

resiste

e persiste

quando o corpo desiste

e a mente se esvai

 

 

É assim que a mim mesmo me olho

e que assim me vejo

nu

ao espelho

 

Que importância teria o Cosmos

sem mim?

 

 

Vale de Salgueiro, 31 de Julho de 2008

Henrique António Pedro

 

in Angústia, Razão e Nada (Editora Temas Originais-2009)

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