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sábado, 20 de julho de 2019

Ora abóboras…




Este poema sensaborão

é a primeira abóbora que despontou na minha horta

neste Verão

 

Que eu ofereço com alegria aos deuses da poesia

para que jamais me falte a inspiração

para cozinhar

saborosas sopas de versos

 

É uma abóbora amarelada

rechonchuda

com um pequeno pedúnculo que o ligou à erva mãe

para se alimentar

e que agora apenas serve para se lhe pegar

 

Assim sendo nem os mais perversos se atreverão a dizer

que este poema

não tem ponta por onde se lhe pegue

 

Até porque também tem o coração repleto de sementes

as pevides

que depois de secas e de novo lançadas à Terra

irão reproduzir novos poemas

com que se poderão cozinhar

novas saborosas sopas de poesia

 

A primeira abóbora que despontou na minha horta

neste Verão

é este poema sensaborão que só não aplaudirá

quem não gostar de sopa de abóbora

ou não perceber pevide

de poesia

 

Ora…

abóboras

  

Vale de Salgueiro, terça-feira, 16 de Junho de 2009

Henrique António Pedro

 

sábado, 29 de junho de 2019

A mulher é mais mulher…



Poderá a mulher que me encanta
ser santa
cientista
poeta
analfabeta
actriz
feliz
infeliz
artista
heroína
grande ou pequenina
governante
amante
capitalista
proletária
revolucionária
ou o que calha

Poderá a mulher que me atrai 
ser um amor
seja ela qual for
e amar alguém
rir ou chorar
ou mesmo nem a ninguém amar

A mulher é mais mulher
porém
quando ama o homem
e é mãe

E o homem é mais homem também
quando ama a mulher
e é pai


Vale de Salgueiro, quarta-feira, 12 de Agosto de 2009
Henrique Pedro

quarta-feira, 26 de junho de 2019

AQUI…







Aqui, cume do monte dominante
De um reticulado curvilíneo
De colinas moldadas no fascínio
Da alma do poeta diletante

Aqui, nasceu, em mim, a poesia
Pela magia do amanhecer
Com reflexos de fé e bonomia
Que também brilham ao entardecer

Aqui, sempre me quedo, radiante
À hora que o Sol se põe, sanguíneo
Por detrás do horizonte distante

Aqui, face ao Mundo a sofrer
Ao Senhor dos Aflitos eu pedia
Não deixasse, Ele, de lhe valer…

Vale de Salgueiro, domingo, 10 de Agosto de 2008
Capelinha do Senhor dos Aflitos (Alto da Serrinha)
Henrique António Pedro

domingo, 16 de junho de 2019

Nasci nu



Nasci nu
e descalço
num dia de Dezembro frio se bem lembro
sem anéis como os filhos dos reis
apenas agasalhado pelo amor de minha mãe
que me vestiu com a roupa que Deus lhe deu
graças a Deus

Nasci nu
sem percalço
com pernas para andar
braços para abraçar
pulmões para respirar
cérebro para reflectir
e coração para me emocionar

Ainda criança
aprendi com as pernas caminhar
com os olhos ver
com os braços abraçar
com coração sentir
e com todo o meu ser
a sofrer, a amar, a ter esperança e a acreditar

Ainda não parei, porém, de aprender
mas já deu para perceber
que dor e amor são pétalas e espinhos da flor
da verdade

Esta é a imagem que guardo da vida
no mais fundo do meu ser
é o sentido do meu viver

Um dia me despedirei do mundo
para renascer
com a alma cheia de amor
e o espírito pleno de eternidade

Vale de Salgueiro, 15 de junho de 2019

sexta-feira, 24 de maio de 2019

À janela do avião



Ainda hoje me considero criança
sempre me sento à janela do avião
para poder vê-lo correr
com confiança
ainda no chão
veloz
potente
a sugar voraz tudo que encontra pela frente

E a ouvi-lo roncar
e a gemer para se erguer 
e depois voar 
suave
sobre as nuvens

Só não tomo os comandos
com o receio de que me tomem a mim
por terrorista
quando eu nunca deixei de ser
uma criança com medo da cadeira de dentista

Mas que solta o coração no interior do avião
e deixa a alma saltar de nuvem em nuvem
irreal
a disparar relâmpagos
para combater o medo e o mal
como São Miguel Arcanjo

Mas que acaba por adormecer
a sonhar
como um anjo
até o avião pousar


quarta-feira, 15 de maio de 2019

Pára-brisas partido



Chove
Suavemente por agora
Conduzo estrada fora com velocidade moderada não vá a viatura esbarar na estrada molhada
Mais apressadas, gostas de chuva delicadas, deslizam subindo no para-brisas contrárias à lei da gravidade 
Deixam rastos rectilíneos, efémeros, como se de cometas líquidos se tratasse.
Como sonhos que fossem e já não sejam
Também no pára-brisas partido da minha alma há partículas de saudade liquefeitas que sobem velozmente na minha mente qual antolhos que me humedecem os olhos, toldam a visão e encharcam o coração
Quando a chuva aumenta de intensidade acciono o limpa pára-brisas e deminuo a velocidade
Em plena trovoada de Maio acabo por estacionar num desvio de saudade dos tempos em que fui feliz sem o saber.
A imaginar imagens imprecisas
Caio em mim sem querer volto a ser o que sou a estar onde estou
A poesia é o limpa-pára-brisas da minha alma que me ajuda a melhor ver o caminho sempre que caminho sozinho

Vale de Salgueiro, 15 de Maio de 2019