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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Bolhas de Amor




Os peixes nadam circunscritos ao meio aquático
soltando bolhas de ar sempre que vêm à superfície
e que se perdem na atmosfera

As aves voam nos céus agitando o ar com as asas
sem ousarem libertar-se da terra

Os humanos são mais que animais

São bolhas de vida
confinadas à campânula de ar que envolve a Terra
que soltam bolhas de ideias que se evolam
e se perdem no espaço

São ainda mais na verdade

São bolas de sabão insufladas de razão
a flutuar no ar

Bolhas de espírito preso a ideias e afectos 
a procurar libertar-se das teias da animalidade

Bolhas de amor
que explodem no seio do Criador

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 8 de Março de 2010
Henrique Pedro

domingo, 2 de dezembro de 2018

Em Dezembro





Em Dezembro o Inverno é um inferno
frio e cinzento
contratempo

A alegria é triste
e o silêncio é denso
pesado
compassado

As noites são longas
e os dias
longos crepúsculos
opúsculos de impaciência

É tempo de reflexão
hora de resistir à impaciência
de despir por dentro
e vestir por fora
como se nos estivéssemos a despedir
sem saber para onde ir

Em Dezembro
as abelhas dormem nas colmeias
em suas celas de cera e mel
à espera da Primavera

Já as primeiras flores de laranjeira
nascidas a destempo
foram sacrificadas o vento gélido
e à geada
do Inverno cruel

Como o primeiro amor
que ainda em flor
foi tolhido pela intempérie
e atirado ao vento
num insano gesto
impensado pensamento

Em Dezembro
o vento é um longo lamento


Vale de Salgueiro, sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
Henrique Pedro


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Fósforo




Cada poema que escrevo
é um fósforo que risco
na noite dos dias
sem luz

Ouço-lhe o ruído breve
característico da ignição
tento por proteger a chama
pequenina
com a concha da mão
o tempo suficiente para acender um círio
de amor sem martírio
num outro coração

Sonhando que arde
aquece
ilumina
anima
e já ninguém mais esquece
porque se ateia
se ata
a outra e outra candeia
em cadeia

É a fogueira da poesia
a chama da ideia
a iluminar a Terra inteira

Mas oh, Deus!
Quantas vezes cada poema que escrevo
é como se fora um fósforo que risco
para acender um cigarro
a que me amarro
para deixar arder
para esquecer

E que arde
sem se ver

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
Henrique Pedro

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O imortal morreu




(Honni soit qui mal y pense)

O imortal morreu!

Foi a enterrar com pompa e circunstância
concorrido foi
o funeral

Não consta que haja ressuscitado
pelo menos até ver
a menos que ande disfarçado
ou esteja escondido em algum lugar
à espera de voltar a morrer
quando melhor lhe aprouver

O imortal morreu
contrariamente ao que se previa
tal era o seu brilho e vaidade
mas nenhum milagre 
aconteceu

Persiste contudo a esperança
de que venha a ressuscitar
em mais asados tempos
quando os ventos
soprarem a desconfiança
de vir a vagar
o lugar de Deus

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 24 de Junho de 2010
Henrique Pedro

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Se pequei de amor contigo…





Se pequei de amor contigo
procurei no pecado
a virtude

Crente de que tomava a via do amor
para a verdade
de que o prazer induzia
espiritualidade
e por crer que jamais o amor
gerava dor
e a virtude ilicitude

Sou agora ciente
de que múltiplos são os caminhos da vida

mas um só o sentido da mais pura paixão

O sentido único da iluminação


Vale de Salgueiro, quinta-feira, 25 de Março de 2010
Henrique Pedro

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

50 Sonetos de Amor (XLVII Chegar, amar e partir)




XLVII
Chegar, amar e partir


Ela chegou sôfrega como ele imaginou!
Mas deram um só abraço, bem apertado, ardente…
Sentiam a sofreguidão do desejo pela frente
Assim, ele, como ela, paciente, esperou.

Aquela era, sim, a mulher com quem sempre sonhou
Não haveria razão para estar impaciente
Apenas deles dependia esse amor candente
Ela acreditava, também ele acreditou

E quando entendeu Deus, levá-la, contrariada
Ainda assim, resignada, a Deus ela sorriu
Mas partiu, triste, para sempre a ele abraçada

Mas se ao desejo da chegada dela resistiu
À trágica despedida da vida, inesperada
Agora, triste, para sempre só, ele sucumbiu

Vale de Salgueiro, sábado, 19 de Julho de 2008
Henrique Pedro