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segunda-feira, 8 de julho de 2024

A rosa e o rouxinol


Astuciosa é a rosa

que se oferece perfumada

a gritar aos sete ventos

estar ali para ser amada

 

Quando não pica

matreira

insinuante

langorosa

 

Sagaz é o rouxinol

que faz o ninho na roseira

sem, contudo, se picar

e assim poder ter

espinhos para o defender

e rosas para namorar

 

E pobre é o rouxinol

que pelo arrebol

segura uma rosa no bico

 

Tem no coração um pico

que o não deixa cantar

 

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 30 de Junho de 2009

Henrique António Pedro

 

domingo, 30 de junho de 2024

Adeus, adeus, adeus


Penoso era, para mim, seguir viajem

Para a outra margem

Do meu amado rio Rabaçal

Mal chegavam ao fim

As férias de Carnaval

 

Deixava por isso a folia

Com cara de quem partia

Triste, desencantado

Tendo pela frente o além

 

Era assim que me despedia

Quando a montada já seguia

Em passo estugado

 

Aperta, aperta!

O tempo escasseia

Fique para trás a aldeia

Adeus, adeus, adeus minha mãe

 

Até breve oliveiras cinzentas

Tristes, meigas e serenas

Minhas partidas são lentas

Pois me custa partir

Vendo as sombras das penas

A toldarem o porvir

 

Aperta, aperta!

O tempo escasseia

Fique para trás a aldeia

Adeus, adeus, adeus minha mãe

 

Vale de Salgueiro, Carnaval de 1959

Henrique António Pedro

 

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Dentro de mim não há céus nem infernos


Dentro de mim não há céus

nem estrelas

nem galáxias

nem infernos

 

Dentro de mim

sob a minha pele

há apenas ossos

músculos

vísceras

veias

nervos

e nada mais que releve

 

No meu coração flui apenas sangue

e não ódio

ou paixão

 

No meu cérebro nem uma agulha se intromete

tão pouco o vazio

o nada

de que nada sei

 

Mas dentro de mim abre-se uma janela larga para Deus

por onde o espírito

entra

e sai do meu eu

mesmo de olhos fechados

de ouvidos tapados

e de tacto entrapado

 

Deus mora dentro de mim

e não no Céu

 

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

Henrique António Pedro 

in Introdução à Eternidade (1.ª Edição, Outubro de 2013)

 

 

domingo, 23 de junho de 2024

Ela pareceu-me um belo mote de poema


O olhar

o porte

o decote

as narinas ferinas

a formosura

a postura

ecoaram no meu espírito em  rimas ricas

deixando imaginar um belo mote de poema

talvez um perfeito soneto de amor

 

Até o “olá” com que se insinuou

me soou a verso de encantar

 

Seria ela a borrar a pintura

porém

 

Só os dois sabemos porquê

 

Que seja ela a contá-lo a toda a gente

mas só depois de ter lido este poema

 

É pena

 

Ela nada tinha de poesia

era tão somente fantasia

 

Qualquer poeta sabe que muitas vezes

é pior a emenda que o soneto!

 

Vale de Salgueiro, sábado, 3 de Setembro de 2011

Henrique António Pedro

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Retrato de uma mulher qualquer


Airosa

de lábios cor de rosa

cintura adelgaçada

veste vestido encarnado

com decote bem decotado

e de manga arregaçada

 

Para a vida preparada

relógio no antebraço

trança atirada para a frente

muita coisas me diz de si

a mim

e muito mais

a muita a gente

 

Mesmo se seus lábios carnudos

sensuais

permanecem mudos

 

Quase tudo

ou quase nada

fica exposto

de permeio

neste seu público retrato

de corpo inteiro

 

Adivinho que não é uma qualquer mulher

 

Perscruta poemas

e amores

infindos

com seus olhos lindos

   que adoro vê-los

   mas  a mim não me ouve nem me lê

 

Ainda assim

coloco novelos flores

nos seus cabelos

já se vê


Vale de Salgueiro, sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 18 de junho de 2024

Ao deus-dará



Adrede

caminho a esmo

 

Deixo que seja o vento

a traçar-me o caminho

a tecer a rede

a tramar-me o destino

 

Avanço

assim mesmo

sem rumo

 

Ora por veredas que caiem a prumo

nas arestas da montanha

ora em terreno plano

 

Interno-me na floresta

do que me resta

de espírito lhano

 

A minha alma não sei por onde anda

à minha vontade

tanto se lhe dá

 

Caminho por aí

sem sair daqui

nem por ir além

 

Ao deus-dará

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

Henrique António Pedro

In “Anamnesis” (1.ª Edição: Janeiro de 2016)