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sábado, 21 de março de 2020

Poeta não é profissão





Poeta não é profissão
Não

É predisposição
Estado de alma
Força da natureza
Forma de beleza

Ser poeta é como ser herói
Santo
Explorador
Aventureiro
Pioneiro da conquista do Everest
Ainda que a sua poesia não preste

Nenhum poeta se alimenta
Do pão amassado com os poemas
Que escreve

O poeta acende o espírito
Com a poesia
De que se veste
Com fantasia

O poeta é um visionário diletante
Porque a vida é um fluxo
E um refluxo
Constante
De poesia
E vento

Poeta não é profissão
E a poesia não é entertenimento
Ou ocupação

O poeta é missionário
Voluntário
E a poesia
Missão


Vale de Salgueiro, quinta-feira, 15 de Abril de 2010
Henrique Pedro

sexta-feira, 13 de março de 2020

Deitei-me nu com a minha amada nua


(Desenho de carvão em papel, intitulado e datado de 1939, Almada Negreiros)


Naquela leda madrugada

deitei-me nu

com a minha amada

nua

despidos de tudo

vestidos de nada

 

O amor nos despiu de nós

a sós

a sonhar

e a Lua nos vestiu

de luar

 

Ela me envolveu e fascinou

com sua pele

de mel

e eu cobri-a com a minha

empoada de pós de brilhantina

fluorescência

da inocência

que toda a noite nos iluminou

em eterna fantasia

 

E o Sol não se pôs

nesse dia

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 2 de março de 2020

O Deve e o Haver do Amor



O que é a Felicidade

na verdade

não sei

 

Também o que é a Verdade

não tenho a felicidade

de saber

 

Da Felicidade conheço, porém

o paladar

e da Verdade

o querer

 

Sei que o sabor da Felicidade é o Amor

e que o sentido da Verdade é o dever

 

Que a Verdade é o deve

a Felicidade o haver

 

Verdade e Felicidade

só podemos almejar

por via de amar

de sofrer

e de bem fazer

 

Deve amar

quem quiser amor haver

 

Vale de Salgueiro, 2017

 

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Luar de saudade





Vivo voando no tempo
no seio da saudade

Ventos de amor suavizam a dor
e assim o afastamento
não me dói tanto
tão pouco há lugar para pranto
apenas espaço para recordar

Ainda que a verdade
seja nua e crua
como a Lua
que me encanta
só de a ver
mas que de tão distante
me quebranta

Contenta-me contemplar o luar
a sofrer
de saudade

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
Henrique Pedro

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Em decúbito dorsal




Acordo mas deixo-me ficar deitado
absorto
desperto
enlevado

Em posição de decúbito dorsal
de mãos atrás da nuca 
a olhar o tecto
sem nada ver
nem sofrer de qualquer mal
apenas a pensar
porque magia
se dormia 
porque despertei

Apenas à espera
que o despertador toque 
à hora para que o regulei
antes de me deitar

Já a obscuridade do quarto
é rasgada pelos raios da aurora
já lá fora se ouvem chilreios
tomado eu dos anseios
da saudade
não sinto pressa de me levantar

E porque haveria eu
de sentir pressa de me levantar
antes do despertador
tocar?

Só porque acordei antes da hora para que o regulei?

É assim o amor
é assim a saudade
assim é o dom de amar

Um despertador que nos desperta sem hora certa
estejamos ou não acordados
só com pressa de regressar


in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)


quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Uma solução sem Deus




Para tudo que me rodeia
E não compreendo
E mais me angustia
Procuro uma explicação
Uma solução sem Deus
E sem mais fantasia

Para o Universo 
Próximo e distante
Para o Cosmo que pressinto
Em cada gota
Em cada verso
Em cada célula

No aroma da flor
No arco-íris das asas da libélula
No fel das folhas do absinto
Nas modalidades do amor

Procuro uma solução sem Deus
Para a angústia atroz que me atormenta
Sem perceber porque sofro
Nem a razão de ser e de estar aqui
E não além
E de a vida ser
Nada mais que um sopro
Uma causa perdida

Procuro uma solução sem Ética 
Ou Estética
Sem Moral
Sem Mal
E sem Bem

Uma solução que ignore a Razão
Porque raciocinar
Não me impede de morrer

Procuro
Não encontro
Mas também não esmoreço

Esboroo-me em dor
Como a pedra de xisto
Percebo que só no amor
De Deus
Me restabeleço

Com a mediação
Da palavra
De Jesus Cristo
 
Vale de Salgueiro, quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009
Henrique Pedro