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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Porque cintilam as estrelas?

 


LIV

Porque cintilam as estrelas?

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

Quando

 

a minha deslumbrada

lembrança de criança

se inicia…

 

Ainda a minha família ceava

à sombra da luz da candeia

e tudo que se comia

era meu pai que o colhia

 

Pão, vinho, mel, azeite e leite

tudo era dádiva de Deus

pelas mãos de meu pai

aceite

 

Também na penumbra mística

da igreja lá da aldeia

uma lampadazinha ardia

quer de noite quer de dia

 

E seria essa luzinha

bruxuleante

pequenina

a lançar a primeira grande interrogação

na minha rutilante

Razão

 

Porque ardia

e tremeluzia ela

como se fosse uma estrela

à luz do dia?

 

Foi minha mãe que me explicou

e com tanto amor o fez

que ainda hoje aceito a explicação

certo de que assim é

com verdadeiro fervor

acendrada chama de fé

 

Disse-me ela

numa encantada noite de Verão

estreitando-me contra o seu coração

que as luzinhas que brilham no céu

são a luz de estrelas

que há muito tempo se apagaram

mas que só agora chega até nós

trazida pelo vento divino

 

Assim como um grande amor

que já se foi mas continua a brilhar

noite e dia

sem nunca se apagar

 

Assim é esse o nosso destino!

 

 (Amor já eu sabia o que era

porque muito a amava a ela)

 

Por isso também em minha casa ardia

noite e dia

com deleite

como na igreja da freguesia

uma luzinha de azeite

 

Por todos que amávamos

mortos ou vivos

porque acreditávamos

que a luz do nosso amor

como a da lamparina

e a da estrela mais pequenina

continuaria a piscar

Cosmos fora

mesmo depois de se apagar

 

E que será guiados por essa luz

que um dia

nos voltaremos a encontrar

agora já sem que o nosso amor

se possa mais apagar

 

Henrique António Pedro

No imo de mim

 


LIII

No imo de mim

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

No silêncio absorto

de meu cérebro

no sopro sáfaro

de meu coração

o meu “eu”

é ainda embrião

 

No âmago do meu corpo

ébrio

a minha alma se acomoda

e se acalma

 

No imo da minha alma

o meu espírito

espreita

 

O corpo me prende à Terra

ao Cosmos

e aos meus

a alma me liga ao Além

 

O espírito me envolve

e devolve a Deus

Henrique António Pedro

Quando o homem era só projecto de Humanidade

 


LII

Quando o homem era só projecto de Humanidade

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Só no imo da alma

se experimenta a solidão

e implode o amor

 

Mas é na flor da pele

que se aprende a amar

e se sente a dor

 

Retorno ao ponto sem matéria

ao momento sem tempo

em que o Criador entendeu provocar

o big-bang original

 

Antes que a vida explodisse em criatividade

e quando ainda se não percebia

que coisa era bem

ou era mal

mentira ou verdade

prazer ou dor

nem havia ansiedade

 

Quando o homem era só

projecto de Humanidade

 

Henrique António Pedro

A minha alma mora no meu coração

 


LI

A minha alma mora no meu coração

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

A minha alma não reside no meu cérebro

como cheguei a pensar

ou em qualquer outro órgão

glândula ou apófise

como pus a hipótese

 

A minha alma mora no meu coração

 

É lá que passa a maior parte do tempo

entretida a deixar-se emocionar

 

De onde apenas sai

levada pelo vento

quando o pensamento

se põe a divagar

 

E quando encontra coisas que a fazem sofrer

ou a mente é incapaz de compreender

é ainda a alma a se angustiar

e é no coração que acaba por se refugiar

 

Henrique António Pedro

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Nada em lado nenhum

 


L

Nada em lado nenhum

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

 

Adormeço profundamente

e tão pouco sonho

 

Por tempo indeterminado passo a ser nada

em lado nenhum

 

Deixo de existir

 

Depois que abro os olhos

acordo serenamente

sentado na erva

encostado ao tronco de um freixo

enquanto as ovelhas continuam a pastar

placidamente

no lameiro

com César

o cão pastor

a vigiar

 

De nada me queixo

sinto-me bem

inteiro

sem qualquer dor

 

Será que a minha alma também dormiu?

 

Mas como pode o espírito dormir?

 

Só pode ter andado a vogar

por outro espaço

noutro tempo

sem eu saber

e sem que mo queira dizer

 

Certo que o espírito

não é

sonho

 

Tão pouco é realidade

Henrique António Pedro

Morto ou absorto?!

 



XLIX

Morto ou absorto?!

 

in Introdução à Eternidade

1.ª Edição, Outubro de 2013

Copyright © Henrique Pedro (prosa Y poesia)

 

Não raras vezes vivo momentos assim

que de tão absorto

e enlevado

embora vivo

mais pareço morto

 

De olhar fixo no ar

parado

sem nada ver

nem ouvir

com o pensamento sem nada a pensar

mais pareço uma pudica estátua viva

numa praça pública

 

Deixo de sentir o próprio coração bater

não sonho

tão pouco durmo

 

Sou mesmo levado a julgar

ser capaz

de deixar de sentir

e de pensar

embora continue a viver

 

Porque há um instante

encantado

ainda que fugaz

em que percebo o espírito

a respirar

 

Não tem sentido

portanto

morrer

 

Um morto

não é um absorto prolongado

 

Henrique António Pedro