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quarta-feira, 17 de julho de 2024

Mirandela cidade


                                                             ( ilustração Dacosta)

T r á s o s M o n t e s

eco vindo da origem dos tempos

sinfonia de montes

vales

e ventos

 

Minha Mátria Terra Quente

minha palavra ardente

 

Minha Mátria Terra Quente

Mirandela cidade

jóia postada no tórax de Trás-os-Montes

dependurada mundana

em colar de prata líquida

feito de Tuela e Rabaçal

vulva telúrica da imortal pátria transmontana

a escorrer em Tua de vaidade

e formosura

 

Mirandela cidade

provocante e bela

tronco de oliveira coroada nua

com diademas de xisto

e racimos de roseira

reflectida no espelho do Tua

e oferecida em feiras de vaidade

sob o halo da Senhora do Amparo

romaria de alegria e piedade

foguetes de lágrimas e de estalo

 

Henrique António Pedro

 in Minha Mátria Terra Quente (Ver O Verso -2005)


segunda-feira, 15 de julho de 2024

Hoje, vou andar por aí, a sonhar


Vou andar por aí

caminhar pelos campos

longe do asfalto das estradas

 

Tropeçar nas pedras dos caminhos à procura de poemas

e de searas ondulantes ao vento

que me tragam esperanças

de que não irá faltar o pão nas mesas

nem sorrisos nas bocas das crianças

 

Vou ouvir o chilreio das aves nas devesas

seguir com o olhar o seu voo no céu

rezar para que não sejam sugadas pelas turbinas dos aviões

nem que sobre a Terra caiam mais maldições

antes a cubra um véu

de verdade

 

Vou implorar a Deus que não haja mais almas presas

nas cadeias do esquecimento

e do abandono

e que antes possam usufruir a velhice

com alegria

poesia

e a meiguice

do sonho

da saudade

 

Hoje

vou andar por aí

caminhar pelos campos

longe do asfalto das estradas

para ter a certeza de que ainda é possível sonhar


Vale de Salgueiro, quarta-feira, 11 de Abril de 2012

Henrique António Pedro

 

segunda-feira, 8 de julho de 2024

A rosa e o rouxinol


Astuciosa é a rosa

que se oferece perfumada

a gritar aos sete ventos

estar ali para ser amada

 

Quando não pica

matreira

insinuante

langorosa

 

Sagaz é o rouxinol

que faz o ninho na roseira

sem, contudo, se picar

e assim poder ter

espinhos para o defender

e rosas para namorar

 

E pobre é o rouxinol

que pelo arrebol

segura uma rosa no bico

 

Tem no coração um pico

que o não deixa cantar

 

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 30 de Junho de 2009

Henrique António Pedro

 

domingo, 30 de junho de 2024

Adeus, adeus, adeus


Penoso era, para mim, seguir viajem

Para a outra margem

Do meu amado rio Rabaçal

Mal chegavam ao fim

As férias de Carnaval

 

Deixava por isso a folia

Com cara de quem partia

Triste, desencantado

Tendo pela frente o além

 

Era assim que me despedia

Quando a montada já seguia

Em passo estugado

 

Aperta, aperta!

O tempo escasseia

Fique para trás a aldeia

Adeus, adeus, adeus minha mãe

 

Até breve oliveiras cinzentas

Tristes, meigas e serenas

Minhas partidas são lentas

Pois me custa partir

Vendo as sombras das penas

A toldarem o porvir

 

Aperta, aperta!

O tempo escasseia

Fique para trás a aldeia

Adeus, adeus, adeus minha mãe

 

Vale de Salgueiro, Carnaval de 1959

Henrique António Pedro

 

domingo, 23 de junho de 2024

Ela pareceu-me um belo mote de poema


O olhar

o porte

o decote

as narinas ferinas

a formosura

a postura

ecoaram no meu espírito em  rimas ricas

deixando imaginar um belo mote de poema

talvez um perfeito soneto de amor

 

Até o “olá” com que se insinuou

me soou a verso de encantar

 

Seria ela a borrar a pintura

porém

 

Só os dois sabemos porquê

 

Que seja ela a contá-lo a toda a gente

mas só depois de ter lido este poema

 

É pena

 

Ela nada tinha de poesia

era tão somente fantasia

 

Qualquer poeta sabe que muitas vezes

é pior a emenda que o soneto!

 

Vale de Salgueiro, sábado, 3 de Setembro de 2011

Henrique António Pedro

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Retrato de uma mulher qualquer


Airosa

de lábios cor de rosa

cintura adelgaçada

veste vestido encarnado

com decote bem decotado

e de manga arregaçada

 

Para a vida preparada

relógio no antebraço

trança atirada para a frente

muita coisas me diz de si

a mim

e muito mais

a muita a gente

 

Mesmo se seus lábios carnudos

sensuais

permanecem mudos

 

Quase tudo

ou quase nada

fica exposto

de permeio

neste seu público retrato

de corpo inteiro

 

Adivinho que não é uma qualquer mulher

 

Perscruta poemas

e amores

infindos

com seus olhos lindos

   que adoro vê-los

   mas  a mim não me ouve nem me lê

 

Ainda assim

coloco novelos flores

nos seus cabelos

já se vê


Vale de Salgueiro, sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

Henrique António Pedro