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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Apalpando a alma



Afago a cabeça

 

Mimoseio-me

numa tentativa de me encontrar

mas não me encontro

nem é a mim que tacteio

 

Não me enxergo

no crânio escalvado

acabado de sair do barbeiro

 

Mas sinto uma sensação

suprema

que me percorre o corpo inteiro

me pacifica

e me acalma o coração

embora esprema

a Razão

 

Transfiro-me para as cabeças dos dedos das mãos

com que apalpo a caixa craniana

em que se aloja o encéfalo

 

Sinto-me

no curto-circuito que se estabelece

entre a pele dos dedos

e a Mente

sucedânea

 

E dá-me prazer ficar assim

por momentos

a andar à roda

atrás de mim

como pescadinha de rabo na boca

de olhos vendados

a jogar comigo

à cabra-cega

 

Que melhor prova posso querer

da existência de mim

se é a minha alma

que a si própria

se apalpa?!

 

Henrique António Pedro

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

 

 

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