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segunda-feira, 19 de junho de 2023

O TEU SILÊNCIO, SAUDADE

 


O TEU SILÊNCIO, SAUDADE 

in Mulheres de Amor Inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013)


O teu silêncio, Saudade

distende a distância

faz da pequenez da nossa cidade

um mundo de afastamento

tão grande é o sofrimento

de ti nada saber

 

O teu silêncio, Saudade

dilata o tempo

transforma os dias em eternidade

 

Que importa saber-te próxima

aqui mesmo ao lado

se te sinto distante

e me angustia

não te poder ver

doravante

 

Estou desolado!

 

O teu silêncio, Saudade

é um ruído importuno

feito de angústia

e de infortúnio

que não me deixa dormir

e me põe desassossegado

quando estou acordado

 

Diz-me algo, Saudade!

Um gesto que seja

que eu veja

ou consiga ouvir

 

Não tens que me gritar

acenar

olhar

ou sorrir

sequer

 

Poderás mesmo nem me falar

nada me dizer

mas passa por mim

deixa-te ver

ainda que assim

mais me faças sofrer

 

Vale de Salgueiro, sábado, 14 de Junho de 2008

Henrique António Pedro


quinta-feira, 15 de junho de 2023

MARIA PAPOILA

 


MARIA PAPOILA

in Mulheres de Amor Inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013)

 

Não!

 

Não és tu que voltas

nem é a ti que reencontro

 

É a minha memória

que ainda te não deitou porta fora

que ainda te não pôs na rua

 

A ti nunca te conheci

assim

como

hoje

és

 

Nem eu sou o que fui

outrora

 

Hoje sou outro

sou diferente

 

Tu és o passado

eu sou o presente

 

Nós nunca nos conhecemos

e dificilmente nos voltaremos a conhecer

 

Nem vamos reiniciar

nada de novo

não importa chorar

 

Agora

és só actriz secundária de um filme mudo

de reposição

em que o matraquear da máquina

manual

é o bater surdo

do teu coração

 

Um filme que revejo

na pequena sala de cinema

da minha lembrança

mergulhada na obscuridade

e na solidão

 

Pediste-me a verdade

sem fantasia

 

Dou-te a versão

nua e crua

da poesia

 

Henrique António Pedro

Vale de Salgueiro, 8 de Dezembro de 2013



terça-feira, 30 de maio de 2023

POEMAS DA GUERRA, DE MIM E DE OUTREM (A monção não traz a paz)

 



POEMAS

DA GUERRA, DE MIM E DE OUTREM

 A monção não traz a paz)

 

Hoje

Não fui ver o pôr-do-sol

Não se ausentou a guerra de meus olhos

Nem senti que no céu lilás

Surge sempre um novo dia

 

Caminhei

Mais agitado que o vento

Que raivento varre a terra

Como se sua vontade de paz

E de amar

Fosse maior que a minha

 

...minha vontade amar é um ar assim raivento!

 

Hoje

Não fui ver o pôr-do-sol

Não se ausentou a guerra de meus olhos

Nem senti que no céu lilás

Surge sempre um novo dia

Vi que a monção não traz a Paz

 

...a monção não traz a Paz!

 

Caminhei

Mais agitado que o vento

Que raivento varre a terra

Minha vontade de amar

E de paz

É um ar assim raivento

 

...a monção não traz a Paz!

...a monção não traz a Paz!

...a monção não traz a Paz!

  

Nangade (Cabo Delgado-Moçambique), 28 de Outubro de 1972

in Poemas da guerra, de mim e de outrem (Editora Piaget-2000)


domingo, 28 de maio de 2023

POEMAS DA GUERRA, DE MIM E DE OUTREM (Dia de Correio)

 


POEMAS DA GUERRA, DE MIM E DE OUTREM

(Dia de Correio)

 

Amanhã é dia de correio

E de teu seio

Saíram já

Por certo

Mil saudades escritas

Que em mim provocarão doces variações arteriais

E por demais belo será o sossego

Quando tiver lido

E sorrido

Da distância infinita que as cartas venceram

Para de ti trazerem palavras vivas

Desejos

Promessas

Saudades impressas

Em pedaço de papel fechado

No qual com amor colaste um selo

... E mil beijos

 

Mueda (Cabo Delgado-Moçambique), 21 de Janeiro de 1971

Henrique António Pedro


sábado, 27 de maio de 2023

Poemas da guerra, de mim e de outrem ( Agora)

 


Poemas da guerra, de mim e de outrem

Agora

 

Sou folha solta em seio de tempestade

Ramo verde em outono agora

Procuro lagos onde germinar

E apenas vivo

Em marés de imaginação

 

Sou ave velha que não cede

E nem sente a tempestade

Árvore nova que teima em ter razão

De raízes erguidas ao céu

 

Sou alguém que caminha pela noite

Sempre à espera

De ver

Vir

O Sol

 

Quero amar

Não quero a guerra

Ainda que amar não seja a paz

 

Nangololo (Moçambique, 21 de Dezembro de 1972)

Henrique António Pedro

in Poemas da Guerra, de Mim e de Outrem (Ed.: 2000)


quinta-feira, 25 de maio de 2023

POEMAS DA GUERRA, DE MIM E DE OUTREM (Todos somos a um tempo bons e maus)

 



Todos somos a um tempo bons e maus

 

Os aviões rasam a floresta

Alongados de velocidade

E com a raiva própria

De quem não sabe

Aonde é o infinito

 

E na quietude do cair da tarde

Caiem bombas

Que ferem o silêncio

De quem esperava coisa nenhuma

Àquela hora morta

Para quem acaba de morrer

 

Mesmo assim daremos as mãos

Todos somos a um tempo bons e maus

Todos somos irmãos

 

E pelos trilhos apertados

Há feros guerrilheiros

Transportando silêncios

Granadas e morteiros

Que cavam buracos no ar

Como se estivera ali a paz sepultada

 

E a saudade dos homens é interrompida

Por estampidos dirigidos

Inacreditados

Que podem muito bem vir a ser

Notícia amarga

 

Mesmo assim daremos as mãos

Todos somos a um tempo bons e maus

Todos somos irmãos

 

 

Mueda (Cabo Delgado), 10 de Fevereiro de 1972

Henrique António Pedro

in Poemas da Guerra, de Mim e de Outrem (Ed.: 2000)