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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Dons, Tons, Sons de Outono



Há roseiras a “rosir”

romãs a sorrir

ouriços altaneiros

no alto dos castanheiros

quase

quase

a parir

 

São dons de Outono

 

Entonos dos campos e da atmosfera

a imitarem os cantos da Primavera

ainda que a cor dominante

não seja o primaveril verde fulgurante

pintalgado de papoilas e malmequeres

e da sensualidade das mulheres

 

São os tons quentes de castanho

das folhas amarelecidas

desprendidas pelo vento

de árvores entristecidas

simulando alegria

em derradeiro arreganho

que é lamento

elegia

pura poesia

 

São os sons das despedidas

os pios tristes das andorinhas

já prontas a partir

 

Dons, tons e sons de Outono


Só as mães não voltam a sorrir

quando vêem os filhos partir

  

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Henrique António Pedro

 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Escrevelendo


 

Quando escrevo
leio
e quando leio
escrevo

Na mente
em segredo
não é devaneio
nem minto

Assim
num de repente
leio
releio
reescrevo
e transcrevo
a Natureza
o Cosmos
o que vai dentro de mim

Primeiro leio o que sinto
ou o que se passa à minha volta
e é o que leio
que escrevo
se me anima
acalma
revolta
ou induz estima

E sempre leio
e releio
o que escrevo
e também escrevo
quando leio
o que os outros escrevem

Leio
e escrevo na mente
ou no coração
embora não com a mão
o que os outros escrevem
para que eu leia
e que algo me diz a mim

Assim me enleio
a escrever
e a ler
em tudo que “escreveleio”

Não aprendemos a ler
primeiro
e depois a escrever

Sempre aprendemos a “escreveler”

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O amor e a imaginação


 

Só pela imaginação
não vai a lado nenhum
o homem

Não chega sequer a sair
da sua própria mente

Só pelo amor
o homem sai de si
chega aos outros
os toma
e retorna

Só pelo amor penetra no seu ser
na sua razão de ser
aprende a amar
e a sofrer

Só pelo amor
desta arte
vai o homem
a toda parte

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Como pode a vida ter por fim a morte?



Viver é vencer montanhas de glória

serras de derrotas sem história

selvas de ambição

desertos de sonhos

mil abrolhos

pântanos de frustração

 

É uma breve caminhada exterior

por demorados caminhos de dor

e de mais curto amor

 

É vogar por espaços discretos

de ideias e afectos

abertos no nosso mundo interior

 

Sem que possamos parar

ou sequer descansar

 

Sem termos para onde fugir

porque se o coração para de bater

o cérebro deixa de pensar

e a alma de se angustiar

 

Como pode, então, a vida ter por fim a morte

morrer ser o fim de viver?

 

Ainda que a morte incompreendida

seja o fim da vida

não a Esperança perdida


Vale de Salgueiro, quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

Henrique António Pedro

 

 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Mil virgens fatais são demais



Tão curtos são os nossos passos

tão frouxos os nossos abraços

tão limitado o nosso olhar

tão falível a nossa mente

que duvido que algum dia

mesmo por fantasia

possamos deixar de ser gente

e vir

a ser

deuses                        

 

Anjos sequer

 

Muito menos se nos fizermos deflagrar

seja porque causa seja

tão pouco por uma qualquer

mulher

que seja

 

E como poderíamos nós

tirar gozo das tais mil virgens fatais

num paraíso irreal

sem pernas e sem pénis

sem braços e sem beiços

com que as pudéssemos possuir

e amar?!

 

Jamais

 

Nem mesmo imaginar

sequer

 

Trágico seria

só

admitir

e sorrir

 

Mil virgens fatais são demais

  

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

Henrique António Pedro

 


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Apenas lágrimas para partilhar



Apenas lágrimas para partilhar

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

Quando

e onde nasci

mum pequeno mundo rural

do Portugal implantado na Europa

por engano

ainda se bendizia a Deus

pelo pão de cada dia

se benziam as colheitas de cada ano

e se celebrava o seu sucesso com alegria

 

Porque se sabia quanto custava

andar um ano inteiro a mourejar

ao sol ardente

à chuva

ao frio

e à geada

para se conseguir o sustento

um naco de pão que fosse

arado, semeado, ceifado, malhado, moído, amassado, cozido

partido e repartido

com dor

amor

e suor

à força da enxada

e do timão

 

Mergulhou-se depois num mundo fácil

de frágil

e fugaz ilusão

 

Com demasiada gente que deveria chorar mas que cantava

e ria

por tanto ter que esbanjar

que adorava os falsos deuses que lhes punham a mesa farta

e do mundo da miséria os apartava

mas lhes encondia a verdade

 

Agora

são milhares os seres humanos que não têm que comer

nem deuses a quem agradecer

e que apenas têm lágrimas

para partilhar!

 

Mais a angústia de não saber que fazer

 

Agora

mais do que nunca

tem sentido a palavra solidariedade

 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Henrique António Pedro