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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Além, naquele astro ali



Além

naquele astro ali

que não é estrela

nem planeta

nem cometa

e já foi ventre

de minha mãe

onde nasci

 

Ali

naquele astro além

tão longe de tão perto

onde nada é errado

tudo bate certo

e só existe o bem

 

É lá que eu moro

me demoro

e exponho

por via do sonho

 

É ali que eu ando

errando

amando

e sofrendo

a mando

de Deus

 

Sem que diga adeus

nem nada diga

a ninguém

 

E de nada me arrependo

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Henrique António Pedro


 




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Ei-la! É ela de novo…



Ei-la!

É ela de novo…

 

Olhos doces amendoados

gaiatos

lábios carmim

cabelos soltos abstractos

seios cheios bem torneados

leveza do caminhar

doçura do falar

irresistível simpatia

e muita

tanta

tanta alegria ...

 

Eu

ainda assim

ensimesmado a preceito

 

Refugio-me em mim

feito gota de ternura

sopro de vento

folha de amargura

pó de tormento

raiva larvar

tristeza de calar

silêncio de cismar

vontade de voar para outro lugar e fugir do crepúsculo de tanto amar que teima em não chegar ao fim

 

É ela!

De novo…

flor de jasmim

tentadora tentação de voltar a amar…


Não

desta vez não!

Não me vou deixar apaixonar

  

Vale de Salgueiro, domingo, 6 de Julho de 2008

Henrique António Pedro

 

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Porque têm espinhos, as rosas?



Porque têm espinhos, as rosas
se são flores de tantos amores?

Para se defender, dir-se-á

Não!

Para se agarrar e trepar
para prender quem amam
para arranhar a quem desamam

Não e não!

Porque são malvadas
queimam com o lume do amor 
provocam ciúme
e causam dor

Não e não e não!

Talvez para se enaltecer 
e fazer mais valer o seu perfume
a sua cor
o seu fulgor

Não e não e não e não!

Porque têm espinhos, então
as rosas
se são amorosas, são amadas e têm coração?

Porque carecem de carinhos…
e porque não há rosas…
sem espinhos


Vale de Salgueiro, quarta-feira, 7 de Março de 2012
Henrique Pedro

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Toda a gente lê poesia, lá na minha freguesia




Toda a gente me conhece
e me merece
lá na minha aldeia

Tenho até a ideia
de que todos lêem a minha poesia
lá na minha freguesia
que canta o arrebol e o pôr-do-sol
as estrelas e o firmamento
os encantos da Primavera
a chuva, a neve e o vento
quimera da atmosfera

Mesmo antes de eu a escrever
já todos a ousaram ler

Digam lá se não sou um poeta notável!

Pudera!

Quando se mora numa aldeia assim adorável
é poeta qualquer um 
mesmo sem que tenha escrito
poema algum

É por isso que toda a gente me conhece
e me cumprimenta
lá na minha aldeia
e se enternece com a poesia
que é de todos
não é só de mim

Todos somos poetas de verdade
lá na minha aldeia
porque a sua vida é uma epopeia
e sabemos que coisas são saudade
tristeza e alegria

E porque muitos de lá saíram
para o Brasil e outras terras mil
por esse mundo além
levando no coração aldeão
a poesia da nossaTerra Mãe

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012
Henrique Pedro

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Adeus às armas



Noite tropical igual a tantas noites santas

em que nada se sente de mal

 

Há estrelas no céu esmeralda a brilhar

uma brisa perfumada a soprar poesia

nostalgia e desejo

muito muito desejo de muito amar

 

Eis que de repente

quando nada o fazia esperar

da floresta salta a serpente

 

Ilumina-se a noite de clarões e explosões

ouve-se o silvo das balas a voar

não tarda gritos e gemidos de homens aflitos

a morrer

ali mesmo a meu lado

sem que ninguém lhes possa valer

 

Também disparo

calado

revoltado

em lágrimas banhado

 

Eis que de repente

também quando nada o fazia esperar

volta o silêncio a reinar

e a poesia vaga

de novo

na minha mente

 

Tiro a mão do gatilho

iluminado de um novo brilho

regressam ao mato as miasmas da guerra

o que me deixa um tanto abstracto

 

Uma explosão maior de alegria em meu coração

me diz que a guerra é fugaz

ainda que seja uma eterna espera

de paz

  

Digo adeus às armas

 

Restam lágrimas amargas

 

Terras do régulo Capoca (Norte de Moçambique), Setembro de 1973

Henrique António Pedro

 


 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Cada poema que escrevo é um cigarro que acendo





Não fumo nem nunca fumei
não compreendo por isso esta imagem triste em que me inspirei

Cada poema que escrevo é um fósforo que risco
na obscuridade

Ouço-lhe o ruído breve
característico da ignição
esforço-me por proteger a chama pequenina da verdade
com a concha da mão
o tempo suficiente para acender um cigarro
de amor e martírio no meu coração

A sonhar que arde
aquece
ilumina
anima
e não mais se esquece

Se ata 
se ateia a outra e a outra candeia
em cadeia

Que é uma fogueira de ideia
de poesia
que ilumina a Terra inteira

Oh, Deus!
Cada poema que escrevo
é mais que um fósforo que risco
para acender um cigarro
a que me amarro
para deixar arder
e esquecer

É uma chama de amor que arde
sem se ver

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
Henrique Pedro