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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

De nada serve a luz do dia quando nos amamos à noite



Fecho os olhos

para melhor a ver

com as minhas próprias mãos

 

Guardo no cérebro o seu olhar sedutor

e para melhor a perceber

também abro olhos em cada dedo das mãos

em cada poro da pele

 

Os meus ouvidos ouvem tudo o que tem para me dizer

diga-o ou não

mesmo quando em silêncio

se entrega à devassa dos meus braços

ao esquadrinhar dos meus dedos

 

Ademais o seu corpo ganha fluorescência de tanto prazer

acaba por iluminar o meu

e flutuar no céu

 

Até nada mais haver para ver

ouvir

dizer

apenas e só

sentir

 

Senti-la

eu

a ela

sentir-me

ela

a mim

 

De nada serve a luz do dia quando nos amamos à noite

na doce obscuridade da mais estreme intimidade

e em silêncio

com esfuziante alegria interior

fora do tempo

 

Em transe de êxtase

 

Em arrebatamento de amor

 

Vale de Salgueiro, sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

Henrique António Pedro

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Poema erudito


A ideia deste poema é nada dizer a ninguém

não obstante quem o ler

seja livre de o interpretar como lhe aprouver

e melhor lhe convém

 

Pretende ser um poema erudito

não há como o contornar

embora o léxico não seja académico

muito menos jargão

não disseque a alma de ninguém

não verbere o acordo ortográfico

nem diga mal de nada

ou fique de boca calada

 

Embora seja assintomático

não respeita o modismo endémico

não segue qualquer corrente literária

muito menos a política agrária

nem é escrito à mesa de café

 

Pode muito bem ser, porém

declamado

e aplaudido de pé

até

como tantos da sua igualha

de muito poeta consagrado

 

Este poema é erudito

sim

mesmo sendo ruim

não fala de coisa nenhuma

nem diz coisa com coisa

 

Quem o ler

nada ficará a saber

embora fique a pensar

e sabe-se lá o quê…

 

…de mim

 

Vale de Salgueiro, terça-feira, 26 de Agosto de 2008

Henrique António Pedro

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Rio Atlântico



Foi outrora um mar

um oceano distante

o Atlântico

 

Que as caravelas do Infante

de seu alvedrio

ousaram devassar

a domar tempestades

a povoar de ilhas

a inundar de lágrimas

e a pescar saudades

 

Não passa, agora, de um rio

de nostalgia

que a toda a hora

o homem insano devassa

 

Embora nas suas margens haja poetas a pescar

poesia

e a acenar

amizades

 

Agora é um cântico

o Atlântico

um rio florido de letras

de rosas e de violetas

de poemas de todo o ano

 

Que poetas a toda a hora

ousam atravessar

tão só para se abraçar

 

Vale de Salgueiro, sábado, 30 de Janeiro de 2010

Henrique António Pedro

 

domingo, 27 de setembro de 2026

Assim desponta Deus


Dúvidas

Dores

Sofrimentos

Dores de corpo

Dores de espírito

E lamentos

 

Angústias e dúvidas

Golpes de boa e má sorte

Temperados de prazeres fugazes

De alegrias efémeras

De esperanças fagueiras

 

Prazeres e sofrimentos que se sentem por todo o corpo

Angústias e dúvidas que espevitam o espírito

 

Amores que se supostamente alegram o coração

Alegrias que não sabemos de onde são

 

Dúvidas que perturbam a Razão

Mas é a morte certa

Grito inaudito

Que mais nos confrange e aperta

 

Uma certeza maior, porém

Advém da Fé

Se o homem de bem se levanta

E caminha de pé

 

É Deus que desponta!

 


Vale de Salgueiro, sábado, 31 de Janeiro de 2009

Henrique António Pedro

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Luxo, lixo, luz



Há biliões de estrelas cujo brilho não chega até nós

toneladas de gemas preciosas

que nunca serão arrancadas às entranhas da Terra

plêiades de pérolas escondidas nas profundezas do mar

que jamais brilharão em colares de encantar

milhares de mulheres lindas que nunca se vestiram de luxo

que nunca ganharam concurso de beleza algum

e divas maviosas a quem nunca ninguém ouviu a voz

 

Há milhares de heróis esquecidos que a pátria esmorece

e infinitos santos que Roma desconhece

 

Milhares de poetas que mal sabem ler ou escrever

mas que guardam em si as poesias mais belas

 

Há milhões de poemas geniais

que nunca foram lidos nem premiados

que não são notícias dos jornais

nem fazem parte de qualquer antologia

embora sejam declamados

dia-a-dia

 

Vou continuar a sondar o Universo sem fim

a vasculhar o lixo da História

a começar por tudo que existe dentro e fora de mim

e na minha memória

 

Vou continuar a ler os poetas menos lidos

a vitoriar os heróis vencidos

a escutar as verdades dos humildes

a invectivar a vaidade e a guerra

a remexer o húmus da terra

a ouvir e a cantar as canções que mais me apraz

a afastar de mim ilusões

faça sol ou faça vento

 

A procurar a semente pequenina

da verdade

da liberdade

e da alegria

que germina pela Primavera

com a graça de Cristo Jesus

floresce por todo o tempo

acima do lixo e do luxo

em paz e poesia

e explode em luz 

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Henrique António Pedro


domingo, 20 de setembro de 2026

Vá para aonde eu vá ou for


Vá para aonde eu vá

ou for

sempre carrego comigo

uma mala de fantasia

cheia de sonhos

e de amor

 

Sempre assim foi

sempre assim será

 

Sonhos que são sementes de poesia

que germinam em poemas

em cânticos de louvor

em gritos de alegria

em choros de dor

arpejos de dilemas

ao sabor da sorte

 

Assim será

até na hora da morte

já que estou em crer

e disso tenho fé

que continuarei a sonhar

a amar

a escrever poesia

mesmo depois de morrer

 

Vá para aonde eu vá

ou for

sempre carrego comigo

uma mala de sonho

e de amor

preparado para amar

 

É dentro dessa mala

que eu próprio me faço transportar

 

 

Vale de Salgueiro, quinta-feira, 3 de Junho de 2010

Henrique António Pedro